CHARLES LANCELIN

COMO SE MORRE - COMO SE NASCE

(OS DOIS POLOS DA VIDA)

 

Tradução - Francisco Klors Werneck

 

Charles Lancelin - Comment on meurt-Coment on nait

(les deux pôles de la vie)

Hector et Durville, Editeurs

Paris (1912)

Trechos da obra:

Assim, essa alma nasceu no mundo das formas e das provas e nele se desenvolverá. Seu elemento era o fluido celestial, a luz interior do Universo, o éter, o interior e o exterior da substância cosmogônica.

Ei-la no inverso, fora de seu elemento, em plena escuridão da carne. Já não vê seu corpo celeste; parece que o perdeu como perdeu a ciência, a consciência, a vida real. Sua inteligência fecha-se, já não tem a clarividência direta. Seu entendimento embruteceu, sua sensibilidade psíquica é muito restrita em todos os sentidos.

Entre ela e o Universo interpôs-se um terrível obstáculo, qualquer coisa de obscura e limitada, obtusa, espessa e morna, estranha composição que ruge e freme, cortina sábia e artisticamente tecida, dobrada sobre si mesmo e sobre ela, da qual todas as contexturas animadas, imagens do universo, em comunhão rigorosa com ela, figuras das faculdades da alma, em conjunção substancial e específica com ela, enlaçam e entrelaçam-na nos tortuosos meandros dos órgãos e das vísceras: é o corpo físico.

Nos primeiros dias, apenas o corpo astral anima a frágil criaturinha e somente depois, lenta e progressivamente, é que o corpo mental, até então livre e em comunicação com as esferas espirituais, estabelece o domicílio nessa flor de carne, onde vai exteriorizar, por meio das células cerebrais, as vibrações que são a manifestação da inteligência.

Pouco a pouco, com efeito, o pensamento terrestre - reflexo do outro - faz a sua aparição e depois sua educação no bebê.

Limitado, no começo, às relações materiais, vê pouco a pouco estender-se, ao seu redor, o campo de suas investigações até ao momento em que, estando o corpo mental completamente encarnado, será com o corpo causal levando consigo o germe das mais altas faculdades, ao mesmo tempo que os princípios superiores do ser, ainda ignorados em nossa grosseira análise, que começarão a depositar, na criança em crescimento, a semente das grandes idéias do futuro.

Essa bruma é constituída de fluidos astrais por onde a criança vê seus amigos do Além, aqueles que hão de acompanhá-la e guiá-la na Terra e que, aguardando a hora das árduas tarefas, a encorajam e confortam... e as crianças, sorrindo a esses rostos amigos, riem como os anjos.

No primeiro período da existência pueril, essas comunicações são contínuas. Então a criança é, poder-se-ia dizer, anfíbia, pois seu corpo vive a vida animal na matéria e sua alma vive espiritualmente no plano astral. Progressivamente, porém, a invasão da região cerebral do sarcosoma (*) pelo corpo mental lhe restringe o campo dessas visões maravilhosas que terminam para se repetirem somente durante o sono, nos sonhos.

(*) Este termo "sarcosoma", que não encontramos no nosso dicionário de português, é dado por Lancelin ao corpo físico, em oposição a "aerosoma" ou perispírito. Vem do grego sarkos, carne, e soma, que convém ao corpo. (Nota do tradutor.)

Oh! os sonhos dos pequeninos! Qual o pensador, o filósofo, qual, mais simplesmente, o homem sensível e cheio de bondade que não tenha exclamado: "Como é difícil penetrar nos sonhos das crianças!"

Até então, isto é, até aos sete anos aproximadamente, quando se completa a encarnação do corpo mental, a criança tem freqüentes distrações, ausências, brinca com os anjos, dizem as comadres com mais verdade do que pensam.

Não nos esqueçamos, efetivamente, de que até aos sete anos os indivíduos magnetizados, nos quais se procedeu a regressão da memória, declaram que "seu corpo está cercado de uma camada brumosa flutuante na qual vê muitas coisas que não voltará a ver posteriormente".

Quando, porém, ela chega aos sete anos... adeus, adeus sonhos dourados, sonhos sedutores. Efetua-se, então, a encarnação do corpo causal e das mais elevadas faculdades da alma e a criança deixa de ser uma criatura ainda astral para tornar-se apenas uma exilada na matéria.

Esquece, então, os sonhos maravilhosos que não a visitam mais, como já se esqueceu dos "paraísos inefáveis" dos quais foi momentaneamente desterrada: a memória pessoal, criada pela vida terrena, obscureceu nela a memória real de seu ser; a lembrança da Terra substituiu, em seu espírito, o lugar da lembrança astral: o eu ínfimo e terrestre substituiu o eu radioso dos espaços maravilhosos...

Vai, criaturinha, segue o caminho que está traçado para tua prova atual. Caminha para o futuro que deve depurar-te e auxiliar-te a galgar mais um degrau da escada mística dos seres - a escada que Jacó viu outrora; esse futuro é, para a tua alma, a dor, a humilhação, a miséria, o crime, talvez... Mas vai, segue teu caminho de provações!

Nas horas de desânimo que te esperam, terás relâmpagos de luz viva que te recordarão os esplendores dos sonhos de criança e que refletem magnificências astrais e talvez a voz de um amigo do Além se fará ouvir na tua consciência a murmurar-te:

"Vai, carrega o teu fardo e leva-o corajosamente até ao seu término! Estas perspectivas sublimes que acabo de dar-te a perceber não são um mito, Tu não passas de uma exilada momentânea e tornarás a vê-las e revê-las um dia, desde que, nas ásperas lutas da Terra, saibas ser o que ama e não o que odeia, o que chora e não o que canta, o que ora e não o que ameaça, o que consola e não o que aflige, o que conforta e não o que acabrunha, a vítima, talvez, e nunca o algoz!"

Charles Lancelin

Fontes: Programa Espiritismo em Foco (Reencarnação Livro dos Espíritos 330 a 360)

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (Está ordenado que o homem morra e renasça várias vezes)

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (Se há tantas evidências a favor da reencarnação por que negá-la?)

"Demonstrando a existência e a imortalidade da alma, o Espiritismo reaviva a fé no futuro, levanta os ânimos abatidos e faz suportar com resignação as vicissitudes da vida."

Allan Kardec "O Codificador da Doutrina Espírita"

“Nascer, viver, morrer, renascer de novo e progredir continuamente, tal é a lei”

Allan Kardec "O Codificador da Doutrina Espírita"

 

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