Catálogo Racional das Obras que podem servir para formar uma Biblioteca Espírita

Allan Kardec

(1804-1869)

 

LANÇAMENTO ORIGINAL EM FRANCÊS:

Catalogue Raisonné des ouvrages pouvant servir à former une Bibliothèque Spirite

Allan Kardec

(1804-1869)

 

LIBRAIRE SPIRITE

ET

DES SCIENCES PSYCHOLOGIQUES

RUE LILLE, 7

 

Typography ROUGE FRÈRE, DUNON ET FRESNè

RUE DU FOUR SAINT-GERMAIN, 43

PARIS - 1869

 

OBRA RARA TRADUZIDA

 

Originalmente publicada em abril de 1869

Paris, França

Tradução: Ery Lopes

com base na 1ª edição, 1869 - ebook

 

Colaboração especial:

Adair Ribeiro Jr.

Carlos Seth Bastos

Wanderlei dos Santos

 

 Versão digitalizada:

© 2023

 Distribuição gratuita:

 

Distribuição gratuita:

Portal Luz Espírita

Autores Espíritas Clássicos

 

 Prefácio:

Em meados de 2020, o museu AKOL – AllanKardec.online adquiriu na França uma coleção da Revue Spirite: Journal D'Études Psychologique, quando foi localizado, no número de abril de 1869, o encarte da primeira versão do Catálogo Racional, ainda desconhecido do movimento espírita.

Desde o início de 1861, mais precisamente na Revista Espírita de fevereiro, Allan Kardec demonstrava interesse em escrever e publicar um trabalho, ao qual chamou naquela oportunidade de “Catálogo Racional”, onde pretendia relacionar obras de todas as épocas e de todos os países que estivessem relacionadas com a ciência espírita. Em seu texto, solicitou a quem desejasse colaborar com o projeto que lhe enviasse documentos e indicações de obras, pois tal trabalho demandaria tempo para sua realização.

Passados mais de sete anos, em dezembro de 1868, Kardec anunciou que a publicação estava prestes a acontecer. A materialização do pequeno opúsculo ocorreu em março de 1869, propiciando que os assinantes da Revista Espírita o recebessem, juntamente com o número de abril daquele ano, com textos e indicações de livros de interesse do Espiritismo sugeridos por Allan Kardec.

A divulgação do lançamento do Catálogo Racional ocorreu em paralelo à comunicação da mudança de endereço do escritório da Revista Espírita para a sede da Livraria Espírita, na Rua de Lille número 7, com inauguração prevista para o dia primeiro de abril de 1869.

Já se tinha conhecimento de publicações do Catálogo Racional com conteúdos distintos entre si, o que não causa estranheza, pois o livreto se destinava8 – Allan Kardec a ser uma relação de obras disponíveis para aquisição na recém-fundada Livraria Espírita. Em virtude desta característica, o catálogo deveria ser publicado com certo dinamismo, pressuposto de sua finalidade, sendo suas atualizações uma constante para a inclusão de novas obras de interesse ao público espírita, ou mesmo para alterações de preços ou de edições de livros nele relacionados. Assim sendo, não se aplica para o catálogo o uso da nomenclatura “edição”, como ocorria com outras obras de Kardec. Cada publicação — com conteúdo distinto — deve ser entendida como uma nova “versão”.

A partir de levantamentos bibliográficos efetuados em obras que tratam do Espiritismo, identificamos diversos exemplares contendo diferentes versões do Catálogo Racional. Após a realização de análises comparativas de seus respectivos textos, visando detectar e esclarecer suas diferenças para um melhor
entendimento sobre esta última obra publicada por Kardec, publicamos nossa pesquisa1.

(1) “Catálogo racional de obras para se formar uma biblioteca espírita: a publicação original comparada com alguns de seus manuscritos e demais versões” – Adair Ribeiro Jr., Carlos Seth Bastos e Luciana Farias. Artigo publicado no livro 160 anos de O Livro dos Médiuns, tendo como organizador, Marco Antônio F. Milani Filho. São Paulo – Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo Eduardo Carvalho Monteiro (CCDPE-ECM), 2022.

Na página 3 da versão inédita, encontramos o título de autoria de Kardec: Catalogue raisonné des ouvrages pouvant servir à former une bibliothèque spirite (ver figura abaixo) — ou seja, Catálogo Racional para se formar uma biblioteca espírita. Até a descoberta deste exemplar, o nome encontrado nas várias versões era: Catalogue Raisonné des Ouvrages pouvant servir a fonder une bibliothèque spirite traduzido para Catálogo Racional para se fundar uma biblioteca espírita (Grifos nossos)

A versão original é composta de vinte páginas numeradas — com exceção das três primeiras que não apresentam a indicação do número no alto da página. A tipografia utilizada foi a Imp. de Rouges frères, Dunon et Frésne, rue de Four, 43 — informação que consta no final da página 20 —, sendo o editor da obra a Librairie Spirite et des Sciences Psychologiques (denominação que aparece na página primeira). A versão encontrada relaciona duzentos e cinquenta e dois livros, opúsculos e produções, com suas respectivas descrições, devidamente selecionados pelo próprio Allan Kardec — conforme pode ser verificado na Tabela a seguir — abordando a temática espírita e de interesse para o Espiritismo, e que, como já citado, serviria como um guia na formação de uma biblioteca espírita.

No frontispício do livreto, encontramos a confirmação que o texto ali existente é idêntico ao do artigo Livraria Espírita publicado na Revista Espírita de abril 1869, o que contribuiu para a legitimação desta versão como a original produzida por Kardec. Este texto traz informações importantes sobre alguns dos motivos que levaram o nosso professor a fundar a Livraria Espírita:

Eis em que termos ela está anunciada [a Livraria Espírita], no topo do catálogo que remetemos aos nossos assinantes com o presente número: “O interesse que se liga cada vez mais aos estudos psicológicos em geral, e, em particular, o desenvolvimento que as ideias espíritas têm tomado de alguns anos para cá, fizeram sentir a utilidade de uma casa especial para a concentração dos documentos concernentes a essas matérias. Fora das obras fundamentais da Doutrina Espírita, existe um grande número de livros, tanto antigos quanto modernos, úteis ao complemento desses estudos, e que são ignorados, ou sobre os quais faltam informações necessárias para obtê-los. É visando preencher esta lacuna que a Livraria Espírita foi fundada.

Quando comparamos o texto existente na página 2 do catálogo com o artigo Livraria Espírita, da Revista Espírita em francês, encontramos uma pequena diferença que chamou a nossa atenção. No texto da versão original do catálogo temos: “A Livraria Espírita não é uma empresa privada (entreprise particulière); ela é criada por uma sociedade de espíritas em vista dos interesses da doutrina, e que renunciam, pelo contrato que os ligam, a toda especulação pessoal” (grifo nosso). Na edição em francês da Revista Espírita a expressão acima está grafada como “entreprise commerciale” e, assim constando nos catálogos conhecidos na língua francesa. Esse texto é o conhecido pelo movimento espírita: “A Livraria Espírita não é uma empresa comercial; foi criada por uma sociedade de espíritas, tendo em vista os interesses da doutrina, e que renunciam, pelo contrato que os ligam, a toda especulação pessoal.”

Apesar das expressões se apresentarem diferentes nas duas obras — e ambas serem escritas por Kardec — a compreensão dos seus significados é facilitada com a leitura da sequência do referido artigo na Revista Espírita. Kardec entendia que na atividade desenvolvida pela Livraria Espírita não estaria prevista a distribuição do lucro apurado (nos balanços anuais) para nenhum dos membros desta sociedade, mas sim, que ele deveria ser revertido para o Caixa Geral do Espiritismo, administrado pelo gerente da Livraria sob a supervisão dos componentes da sociedade fundadora (da Livraria Espírita). Fica claro que a Livraria Espírita não seria uma empresa privada — ou comercial — como as tradicionais sociedades comerciais existentes à época na França. Entendemos que a livraria funcionaria nos moldes de uma figura jurídica atualmente conhecida por fundação (2). Tal estrutura de sociedade teria o objetivo de ajudar na divulgação da doutrina espírita, de modo que se sua atividade resultasse em lucro, este deveria ser revertido para o benefício do próprio empreendimento, através do Caixa Geral do Espiritismo.

(2) Uma fundação é, em síntese, um patrimônio destinado a um fim de interesse público ou social que adquire personalidade jurídica, na forma da lei civil. É, segundo o atual Código Civil, uma pessoa jurídica, assim como as sociedades civis e associações; todavia, do ponto de vista estrutural as fundações apresentam características bem distintas destas outras entidades.

Disponível https://www.mpsc.mp.br/direitos-humanos-e-terceiro-setor/fundacao-conceito-caracteristicas-principais-einstituicao. Acesso em 28/4/2023.

Vários pesquisadores consideraram a versão do Catálogo Racional, que hoje é amplamente conhecida, como sendo uma “segunda edição”, e que a mesma teria sido publicada em agosto de 1869, entre eles: Florentino Barrera, em Resumen Analítico de las Obras de Allan Kardec; Larissa Camacho Carvalho e Vinícius Lima Lousada, no artigo Uma história do livro e de todos os livros: Catálogo Racional – Obras para se fundar um biblioteca espírita; Simoni Privato Goidanich, em O legado de Allan Kardec e Charles Kempf e Michel Buffet no artigo Análise tipográfica das sete primeiras edições de A Gênese de Allan Kardec.

A análise comparativa dos exemplares conhecidos desta obra, e que — como dissemos — foram encontrados encartados em vários livros, nos permitiu concluir fatos interessantes e, até então, desconhecidos. A título de esclarecimento, versões do Catálogo Racional foram encontradas nas seguintes obras: Instruction Pratique pour l’organisations des Groupes Spirites spécialement dans las les campagnes, por M.C.; Le Livre des Médiums – 11ª edição; Le Ciel e l’Enfer – 4ª edição; L’Évangile selon le Spiritisme – 5ª edição; La Femme et la Philosophie Spirite – por H. V. e Discours Prononcés pour l’Anniversaire de la Mort de Allan Kardec – Inauguration du Monument – 1ª edição de 1870.

Diferentemente do que se acreditava e era afirmado por diferentes pesquisadores, não existiu uma segunda edição do Catálogo Racional e tampouco essa seria de agosto de 1869. As análises nos permitiram concluir que existiram diferentes versões impressas, sem qualquer menção de que seriam edições sequenciais como ocorreram com outras obras de Allan Kardec. Constatamos a existência, além da versão original, de outras seis diferentes e um extrato (3). Apuramos também que elas foram impressas pós-desencarne de Kardec.Verificamos que foram inseridas seis novas obras na segunda versão, cinco novas obras na quinta versão resumida, com relação à versão anterior. A sexta versão de 1873, apresenta — com a devida ressalva colocada sobre as páginas faltantes no exemplar a que tivemos acesso — pelo menos trezentos e sessenta e dois itens/livros, isto é, com cento e dez obras a mais que a versão original.

(3) O extrato foi encontrado anexado à obra Entretiens sur Le Spiritisme de 1879, contendo somente as Obras Fundamentais com edições atualizadas para aquele ano. Encontrado em https://archive.org/details/BSG_DELTA59500_1FA/page/n167/mode/2up. Acesso em 28/04/2023.

Após a descoberta em 2020 da versão original do Catálogo Racional e a publicação de nossa pesquisa em 2022, não poderíamos estar mais felizes com esta iniciativa de publicação de sua tradução para o português. A última publicação totalmente escrita por Allan Kardec juntamente com o número de abril de 1869 da Revista Espírita — o Catálogo Racional para se formar uma biblioteca espírita — ganha finalmente sua tradução para o português e é apresentada oficialmente ao movimento espírita.

Não faltam motivos para agradecimentos a três importantes veículos que tanto têm colaborado na difusão da doutrina espírita: o Portal Luz Espírita, Autores Espíritas Clássicos e CSI do Espiritismo — respectivamente representados pelos queridos Ery Lopes, Wanderley dos Santos e Carlos Seth Bastos. Mais uma grande iniciativa se concretiza e vem a público e de forma gratuita: a versão original em português de um dos últimos escritos de Allan Kardec. Não menos importante é o maravilhoso trabalho destes valorosos companheiros ao trazerem os links para acesso aos conteúdos de todas as obras escolhidas pelo nosso querido professor Rivail, e que — segundo ele — são de interesse do Espiritismo. Todos os envolvidos nesse trabalho não mediram esforços na elaboração desta publicação em português. Além de nos presentearem com esta tradução, facilitam o acesso aos conteúdos integrais de livros de interesse ao Espiritismo, e que foram selecionados pelo próprio Allan Kardec.

O nosso muito obrigado!

Adair Ribeiro Jr.
Curador do museu AKOL – AllanKardec.online
Diretor de Parcerias do CCDPE-ECM
(Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo Eduardo Carvalho Monteiro)

Apresentação desta tradução:

A necessidade de estudar constantemente a obra de Allan Kardec, para aprender e para fortalecer nossos aprendizados doutrinários espíritas — o que, aliás, constitui em uma satisfação para nós — serviu de ensejo para cuidarmos desta tradução, igualmente motivada pelo desejo de ofertarmos mais uma opção de leitura acessível aos nossos confrades e demais estudiosos do Espiritismo, especialmente aqueles que não disponham da fluência na língua francesa, cumprindo assim o papel essencial do tradutor, qual seja a de ser um facilitador idiomático.

A idealização, o objetivo e o contexto histórico do lançamento do Catálogo Racional já foram muito bem explanados na seção anterior — o Prefácio, assinado pelo caro confrade Adair Ribeiro Jr. A estas importantes informações, convimos ser válido também algumas notas acerca do trabalho de tradução, da montagem desta edição e outros esclarecimentos, como seguem.

Principiaremos comentando o título desta tradução. Optamos, dentre outras versões possíveis, por uma tradução toda literal fazendo uma correspondência direta palavra por palavra, já que isso se mostrou plausível — o que nem sempre ocorre de uma língua para outra, por falta de termos exatamente correspondentes. No caso aqui, só há uma pequena diferença na transversão da parte 5 do esquema traçado abaixo:

Para fins práticos, abreviamos o título da obra para Catálogo Racional.

É válido também falar da importância da peça elementar na composição de uma biblioteca: o livro. Em pleno século XIX — de recursos incomparavelmente limitados em relação às mais diversas ferramentas de informação, estudo, pesquisa e de experimentação de que dispomos hoje —, a literatura era um instrumento cujo valor pouco podemos apreciar. Para a Doutrina Espírita, pois, era imprescindível erigir uma galeria consistente, formar o seu próprio gênero — o gênero espírita — e ocupar seu espaço dentro desse universo do saber, pelo que Kardec estimula os confrades a formarem suas coleções a partir de obras instrutivas para o aprofundamento da doutrina. Com isso, através da listagem proposta neste suplemento, temos uma indicação direta do pensamento kardequiano quanto aos gêneros literários e alguns títulos específicos proveitosos para nossa formação espírita.

Esta indicação, portanto, é uma sinalização segura dos gostos do venerado missionário da Terceira Revelação, em quem nós confiamos, como sugestão de leitura, e que também pode servir como parâmetro das ideias conceituais acerca da generalidade das questões envolvendo nossa amada doutrina. Por exemplo, este catálogo atesta, conforme o que frequentemente encontramos nos livros de Kardec, a proximidade do Magnetismo com a Doutrina Espírita. É notório igualmente a simpatia do autor por certos personagens que, mesmo indiretamente, serviram como precursores do Espiritismo, tal como Emanuel Swedenborg e Nostradamus — malgrado alguns confrades possam até reputá-los como “místicos”. Por outro lado, pela exclusão nesta listagem, podemos deduzir que determinados segmentos, ideais e personalidades distam das preferências de Kardec — e que podemos tomar como não-referência para o Espiritismo. Não encontramos em suas indicações, aliás, obras de figurões da tradição filosófica moderna como Kant, Rousseau e Voltaire — que vez ou outra são oferecidos ao movimento espírita por alguns confrades tendenciosos a fomentar ideologias estranhas à nossa doutrina. Sinal de que Kardec se sintoniza mais com a religiosidade natural e com a submissão a Deus do que com o espírito orgulhoso dominante no Iluminismo que consagra a pretensa autossuficiência da razão humana.

Convém observar, todavia, que a indicação de um determinado trabalho não implica a sua aceitação completa e absoluta. Um exemplo disso é a sugestão para a leitura das obras de Charles Fourier, que de certo modo Kardec define como um precursor do Espiritismo, em razão daquele escritor ser um franco semeador do conceito da reencarnação — que é um dos fundamentos capitais do kardecismo. Mas, como sabemos, o mesmo Fourier defendia ideias outras que um espírita minimamente iniciado repudia com veemência, tais como o anarquismo, o liberalismo sexual (incluso a pedofilia) e a abolição da família, enquanto o bom senso kardequiano preza pela ordem, a decência, a monogamia etc. Tanto é que, ao citar as obras fourieristas, o codificador espírita toma o cuidado de anotar ao seu lado: “O Espiritismo, sem admitir todas as ideias de Charles Fourier, encontra-se com ele sobre vários pontos, principalmente sobre o princípio da reencarnação e o progresso indefinido do Espírito. Ele tende ao mesmo objetivo: o melhoramento social e a fraternidade universal, embora por meios diferentes.”

Importa principalmente se atentar à classificação das obras: Kardec põe em primeiro lugar, obviamente, as obras fundamentais da sua doutrina — que formam a própria bibliografia kardequiana, começando pelos cinco grandes livros: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo (por vezes descritos como o “Pentateuco Kardequiano”); em seguida ele coloca os opúsculos designados como “Resumos” (O Que é o Espiritismo, O Espiritismo em sua expressão mais simples etc.) e conclui com a coleção da Revista Espírita. Num segundo escalão ele coloca as ditas “Obras diversas sobre o Espiritismo”, da autoria de espíritas declarados. Após isso, na terceira parte, ele lista as “Obras produzidas fora do Espiritismo”, dentre as quais as publicações que antecederam a doutrina e prepararam o seu advento, ao passo que não teme em abrir nesta mesma classe uma seção exclusiva para as “Obras contra o Espiritismo”, aqui postas a fim de contrabalancear as ideias e permitir que cada qual julgue por si mesmo através da comparação dos conceitos apresentados por ambos os lados — o que demonstra um ato de coragem de Kardec e a sua confiança na força natural da doutrina que ensina, fazendo jus à sua célebre máxima: “Fé inabalável é somente aquela que pode encarar face a face a razão...”

Um evento particular que merece o nosso destaque é a indicação do livro Os Quatro Evangelhos, de Jean-Baptiste Roustaing, autointitulada “Revelação da revelação” e base do movimento conhecido como Roustainguismo. Ora, houve quem presumisse e propagasse que este título não havia sido indicado por Kardec e que a sua inclusão nesta lista tivesse sido feita por terceiros, nas reedições do Catálogo Racional, supostamente atendendo aos apelos e uma conspiração contra Kardec e o Espiritismo. Isto porque, até pouco tempo atrás, a versão original deste suplemento não era encontrada. Eis, pois que o Museu AKOL, através dos esforços do nosso querido confrade Adair Ribeiro Jr., conseguiu e disponibilizou a todos nós o acesso à primeira publicação deste catálogo — razão pela qual pudemos trabalhar esta tradução. E então se verificou que a obra roustainguista — gostemos ou não — havia sim sido recomendada por Kardec, inclusive selecionada entre as obras do segundo escalão — “Obras diversas sobre o Espiritismo”, subintitulado de “complementares da doutrina”. Entretanto, que o leitor observe bem a ressalva feita ao título do livro, de modo algum validando a absurda tese do corpo fluídico de Jesus, como propôs o advogado de Bordeaux.(4)

(4) Saiba mais sobre em: https://www.luzespirita.org.br/index.php?lisPage=enciclopedia&item=Jean Baptiste%20Roustain

O caso de Roustaing é mais uma vez uma demonstração de como o autor do catálogo facilmente juntava e separava certas ideias com relação ao Espiritismo. É assim que, por exemplo, apenas por dar a entender ser favorável a um conceito básico espírita (imortalidade da alma, reencarnação, pluralidade dos mundos habitados etc.) Kardec salienta uma determinada obra e lhe recomenda aos confrades, malgrado outras contradições e fantasias no seu entorno; bastava a um romance ou uma peça de teatro enriquecer seu enredo com um elemento doutrinário espírita, e eis o codificador aplaudir esta obra. É que Allan Kardec não foi só o teórico do Espiritismo: ele era também o líder do movimento espírita, o condutor de uma comunidade, a quem cumpria ainda animar os confrades durante a desafiadora jornada de abrir caminhos para a nova ideia, contra quem muitas forças poderosas se levantaram. Era preciso então ser estratégico, esperto, tal um bom marqueteiro. E ele foi tudo isso, com brilhantismo.

Não cremos ser desperdício destacarmos o gosto pelas artes e a fé de Kardec em que através das mais diversas expressões (romances, teatros, poesia, música...) o Espiritismo pudesse se disseminar mundo afora e penetrar mais fundo nos corações e almas dos homens. Nesse sentido, também faz bem ressaltarmos a importância dos romances, posto que não é raro nos depararmos com críticas de alguns confrades contra determinados livros desse gênero, cobrando-lhes com excessiva ferocidade uma pureza doutrinária que não vemos em Kardec. Pegue-se o exemplo de ficções tão variadas que ele faz questão de prestigiar por um detalhe por vezes bem ínfimo dentro da trama, um detalhe quase insignificante no contexto geral da obra e que só muito ligeiramente remeta o leitor a uma ideia espírita, mas apesar disso, e só por esse pequeno e ligeiro detalhe, ele coloca a obra como contributa da cultura espírita. E com razão, porque é com essas singelas contribuições, essas pequenas sementes, porém muito espalhadas, que vai se estabelecendo um padrão cultural de modo a formar o gênero artístico espírita, fazendo com que se torne comum, frequente e bem natural pensar em reencarnação, lei de causa e efeito na vida cotidiana, contato mediúnico etc. Além do que, os romances e os contos com temática espírita nos arrebatam ao caminho das emoções, levando-nos a ensaiar situações perfeitamente plausíveis e assim aprendermos a sentir a dor e os júbilos pessoais, mediante as consequências das más e boas ações a que estamos sujeitos praticar. Logo, abençoadas sejam as inspirações dos romancistas que plantam essas sementes de espiritualidade.

Outro pormenor que o Catálogo Racional nos permite apreciar com melhor cuidado é o da variedade de peças a serem comercializadas na Livraria que Kardec havia criado e estava prestas a ser inaugurada por ele: além de livros, folhetins, partituras, é curioso — talvez chocante para alguns — que constassem fotografia, cartão-retrato, desenhos etc. No caso dos retratos, além do próprio Kardec, outros nomes venerados serviram de modelo fotográfico: Swedenborg, Dr. Demeure e Vianney, o santo Cura d’Ars. Personalismo, vaidade ou ensejo de idolatria da parte do diretor espírita?

É por essas e outras informações que consideramos um valioso documento este Catálogo Racional. Por conta disso, julgamos útil explicar alguns detalhes técnicos da listagem, além de dar nota do nosso trabalho de tradução desta publicação.

Primeiramente, destacamos que separamos esta edição em duas partes principais: na primeira, contendo o catálogo traduzido para o nosso português; a segunda seção traz a transcrição exata do original em francês, respeitando o máximo possível a disposição gráfica.

Vejamos bem que a moeda francesa da época era o franco, também utilizada em outras regiões de influência francesa. O franco (abreviação: fr.) foi substituído pelo euro em 2002, como parte das providências para o lançamento da União Europeia. Quanto ao seu poder de compra, não é fácil avaliar com precisão, mas estima-se que 1 fr. da década de meados do século XIX seria mais ou menos equivalente a 2 euros de hoje, e doze vezes mais que 1 real brasileiro (na cotação aproximada, em 2023)

Então, para fins comparativos, um volume de O Livro dos Espíritos ou de qualquer outra das obras fundamentais de Allan Kardec estava sendo anunciado por 3,50 fr. A assinatura anual da Revista Espírita custava 10 fr. e o exemplar avulso podia ser adquirido por 1 fr. À época, você poderia comprar um retrato do codificador espírita (35 x 28 cm e com uma bela embalagem) por 2 francos e meio, retirando na livraria; com a taxa de postagem, para França e Argélia, mais 50 centavos na conta do comprador. Em todo o caso, é demasiado complicado fazer comparação com os preços atuais, pois tudo era muito mais limitado e consequentemente mais custoso naquele tempo. O que podemos dizer com tranquilidade é que o preço das obras kardequianas era o mais acessível possível, tomando por comparação o preço das outras obras listadas no mesmo catálogo e analisando o custo-benefício (custo de produção, o tamanho da folha, número de páginas etc.). Aliás, a expectativa era a de que o preço ao consumidor caísse ainda mais futuramente, a partir da instituição da Livraria Espírita e com as instalações da infraestrutura para a confecção própria das obras doutrinárias.

Além do preço de cada obra e da indicação da distribuidora e livrarias onde o público poderia adquirir os títulos, o catálogo informava o formato do livro. Assim, por exemplo, o formato comum “in-18” significava que a folha completa que ia para a prensa seria dividida e dobrada de modo a se converter em 18 faces de páginas.

O autor do catálogo também teve o zelo de informar os seus leitores da disponibilidade das obras, estando algumas esgotadas e fora de comercialização, às quais Kardec a sugestão do acesso via bibliotecas comunitárias (por exemplo, das universidades e órgãos públicos).

Pensando nessa questão de acessibilidade, esforçamo-nos em localizar cópias digitais das obras indicadas no catálogo, tantas quanto fossem possíveis, pesquisando especialmente nos sites mais confiáveis (principalmente: Portal Gallica da Biblioteca Nacional da França, Google Books e site de órgãos governamentais), e, felizmente, faltaram pouquíssimos títulos para completar a coleção, de modo que pudemos então disponibilizar aqui o link dessas obras a fim de que os estudiosos possam conferir seu conteúdo. O link de acesso para o ebook (livro digital) das obras encontradas aparece na seção da tradução do catálogo, sinalizado pelo símbolo, logo em seguida ao título indicado. No caso das obras disponíveis também em nosso idioma, acrescentamos o link para a edição traduzida.

Merece atenção especial também a indicação da obra A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo (La Genèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme) de Allan Kardec: no momento em que o autor finaliza o catálogo, a versão corrente era a da 4ª edição (de 1868) cujo conteúdo é exatamente o mesmo das edições anteriores desde a obra original. Porém, sabemos que Kardec estava prestes a lançar uma versão nova, dita “Edição revisada, corrigida e aumentada”, que de fato foi publicada naquele mesmo ano de 1869, pouco depois de desencarnação do codificador espírita, sendo este relançamento, a 5ª edição, a versão definitiva deste memorável livro. Por conta disso, neste nosso trabalho, estamos colocando o link para as duas versões (4ª e 5ª edição), ressaltando que, para todos os fins, o conteúdo novo substitui o anterior — porque constitui o pensamento final do seu autor sobre as questões ali tratadas — e passa a ser a versão final e oficial da referida obra.

Com relação ao acervo de imagens indicadas no catálogo, à venda da Livraria Espírita, reproduzimos aqui aquelas que localizamos, tal o retrato de Allan Kardec, Swedenborg, Dr. Demeure, a casa de Mozart em Júpiter etc. Todavia, não estamos certos de que todas as estas disposições reproduzidas correspondam exatamente ao que era oferecido na Livraria.

A revisão desta tradução é contínua, portanto, correções e sugestões de melhorias são bem-vindas. Por conseguinte, solicitamos que o leitor consulte periodicamente a existência de uma edição mais atualizada desta publicação. É então ciente desta responsabilidade que este trabalho vem para contribuir com a propagação desta doutrina que abraçamos com amor.

Os editores

Catálogo Racional das Obras que podem servir para formar uma Biblioteca Espírita por Allan Kardec:

LIVRARIA ESPÍRITA

E

DE CIÊNCIAS PSICOLÓGICAS

RUA DE LILLE, nº 7, EM PARIS.

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O interesse crescente pelos Estudos psicológicos em geral, e em particular o desenvolvimento que as ideias espíritas vêm tomando há alguns anos, fizeram sentir a utilidade de uma casa especial para a concentração de documentos referentes a esses assuntos. Além das obras fundamentais da doutrina espírita, existem numerosos livros — tanto antigos quanto modernos — úteis ao complemento desses estudos e que são ignorados, ou sobre os quais faltam informações necessárias para se obtê-los. É em vista de preencher essa lacuna que a Livraria Espírita foi fundada.

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PARIS – 1869.

AVISO IMPORTANTE

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A Livraria espírita não é uma empresa particular; ela foi criada por uma sociedade de espíritas em vista dos interesses da doutrina, e que renunciam, pelo contrato que os vincula, a toda especulação pessoal. Ela é administrada por um gerente, mero mandatário, e todos os lucros apurados pelos inventários anuais serão revertidos por lei ao fundo geral do Espiritismo. Esse fundo é provisoriamente administrado pelo gerente da Livraria, sob a supervisão da Sociedade fundadora; consequentemente, ele receberá os recursos de todas as proveniências referentes a essa destinação, manterá uma conta exata delas e operará seu investimento, até o momento em que as circunstâncias determinem o emprego desses recursos.

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OPERAÇÕES E CONDIÇÕES

O escritório de assinaturas e de expedição da Revista espírita, publicado sob a direção do Sr. ALLAN KARDEC, foi transferido para a sede da Livraria espírita, na rua de Lille, n° 7.

Além das obras fundamentais da doutrina e aquelas que estão listadas no catálogo a seguir, a casa se encarrega, a título de comissão, de todas as compras de livraria e de assinaturas de todos os jornais e revistas.

A casa não trabalha com reembolso. Com exceção dos correspondentes que possuem conta corrente, os pedidos deverão ser acompanhados do envio do valor em espécie, ordem de pagamento ou títulos monetários de Paris, em favor do Sr. Bittard, gerente da Livraria espírita, rua de Lille, nº 7, em Paris.

Os envios são gratuitos para a França e a Argélia, salvo em casos excepcionais. Para o estrangeiro, as despesas de transporte são extras.

Nos termos da lei (art. 100 do Código do comércio), as mercadorias vajam por conta e risco do destinatário, salvo um recurso deste contra a empresa transportadora.

Em consequência disso, a casa não é responsável pelo extravio dos artigos cuja expedição seja regularmente constatada por seus registros. Ela se compromete, no entanto, de maneira oficial, a fazer reclamações a quem de direito.

Só recebemos cartas franqueadas.

Portrait de M. Allan Kardec, dessiné et lithographié par M. BERTRAND, artiste peintre. – Dimension : papier chine, 35 cent. sur 28, et avec la bordure, 45 cent. sur 38. – Prix : 2 fr. 50 c. ; par la poste, pour la France et l'Algérie, port et étui d'emballage, 50 c. en plus.

Docteur Demeure, carte-portrait; 1 fr.

Maison, dite de Mozart, gravure médianimique, faite directement au burin en neuf heures, sans dessin préalable, par V. SARDOU ; l'une des productions les plus remarquables en ce genre, par la multiplicité, la finesse et la délicatesse des détails. – Planche de 53 centim. sur 40. Papier ordinaire, 1 fr. ; papier vélin, 1 fr.

Auto-da-fé des livres spirites à Barcelone. Photographie d'après le dessin original fait sur les lieux. – 1 fr. Par la poste, 1 fr. 25 c.

l'abbé Viannet, curé d'Ars, carte-portrait ; 1 fr.

Fontes: Canal Espiritismo em Kardec (Lançamento do Catálogo Racional das Obras que podem servir para formar uma Biblioteca Espírita) (A última obra de Allan Kardec)

Fontes: Luz Espírita - Espiritismo em Movimento

Fontes: Museu AKOL – AllanKardec.online

Fontes: CSI do Espiritismo

Quando comparamos o texto existente na página 2 do catálogo com o artigo Livraria Espírita, da Revista Espírita em francês, encontramos uma pequena diferença que chamou a nossa atenção. No texto da versão original do catálogo temos:

“A Livraria Espírita não é uma empresa privada (entreprise particulière); ela é criada por uma sociedade de espíritas em vista dos interesses da doutrina, e que renunciam, pelo contrato que os ligam, a toda especulação pessoal” (grifo nosso). Na edição em francês da Revista Espírita a expressão acima está grafada como “entreprise commerciale” e, assim constando nos catálogos conhecidos na língua francesa. Esse texto é o conhecido pelo movimento espírita: “A Livraria Espírita não é uma empresa comercial; foi criada por uma sociedade de espíritas, tendo em vista os interesses da doutrina, e que renunciam, pelo contrato que os ligam, a toda especulação pessoal.”

Adair Ribeiro "Pesquisador e Curador do Museu AKOL – Allan Kardec.Online"

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Catálogo Racional das Obras que podem servir para formar uma Biblioteca Espírita por Allan Kardec

 

Catalogue raisonné des ouvrages pouvant servir a fonder une bibliothèque spirite. Allan Kardec - 1 ÉDITIONS - AVRIL 1869 (Fr.)

 

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