CÉSAR BOGO

AMÁLIA DOMINGO Y SOLER

A GRÃ-SENHORA DO ESPIRITISMO

 

O DESENROLAR DO PROCESSO

Auto-de-fé de Barcelona

(a luta da santa inquisição contra os espíritas na espanha)

(Auto-de-fé de Barcelona foi uma expressão notabilizada por Allan Kardec para se referir à queima, em praça pública, de trezentos livros espíritas, realizada no dia 9 de outubro de 1861 em Barcelona, Espanha.)

 

O Professor Rivail solicitou por via diplomática pertinente, como era de praxe, que lhe fossem devolvidos os livros, já que não era permitida a sua penetração no país.

O bispo Don Antonio Palau e Termens replicou agressiva e impropriamente:

— O Governo não pode permitir que tais obras pervertam a moral e a religião dos países.

Fazia, como se vê, uma pretensa defesa moral, inclusive da própria França.

De nada valeram os recursos legais, internacionais ou diplomáticos para essa personalidade opinativa. Enviou ele os livros condenados a serem queimados em praça pública por mãos de um verdugo, — "no lugar onde se executavam os criminosos condenados à última pena" .

Foi na esplanada da Ciudadela, que se fez a leitura do "Auto-de-fé" promulgado pelo referido bispo. E a 9 de outubro de 1861 realizou-se uma ridícula cerimônia de incivilidade.

A explanada constituía o amplo pátio dedicado à praça de armas da antiga Cidadela de Barcelona. Fora erigida em 1716 por Felipe V no solar que ocupava no bairro denominado "de Ia Ribera". Os planos da mesma foram traçados pelo marquês de Verboom, primeiro engenheiro geral que teve a corporação dos engenheiros. A fortaleza geral, cuja planta era de forma pentagonal, media uns 15.000 metros de perímetro exterior, com cinco baluartes. Em seu centro se erguia a famosa torre de Santa Clara, que servia de prisão. Esta fortaleza foi uma das mais importantes jamais existentes no mundo, por seu tamanho, e por suas posições defensivas, consideradas, então, inexpugnáveis.

À sua frente, na explanada que tinha uma extensão de perto de 400 metros quadrados, onde ainda parecia ouvir-se o entrechocar das armas e o ressoar das botas nos exercícios das hostes de Felipe V, se desenrolou a cena medieval.

Cidadela de Barcelona - cenário da queima das obras de Allan Kardec - Auto-de-fé de Barcelona

 

Eram dez horas e trinta minutos. O Sol iluminava o verde da folhagem, descobrindo, aqui e ali, os primeiros tons amarelos do Outono.

Um surdo sussurro produzido pelo vento na ramalhada, vinha confundir-se ao murmúrio das vozes atônitas que presenciavam o inusitado espetáculo que começava a desenrolar-se.

Um menino, que seu progenitor levava pela mão, perguntou-lhe:

— Papai, o que está sucedendo?

Uma máscula interjeição foi a resposta:

— Raios os partam, a estas aves de rapina.

Dois cidadãos comentam:

— Parece mentira, justamente quando as estradas-de-ferro fazem ouvir o ruído do progresso, o avanço da civilização, esta gente nos quer fazer retroceder a épocas superadas.

— É verdade! Um ato de duzentos anos atrás quando, há dez anos, a via-férrea une Barcelona à cidade de Mataró.

Tangem sinos à distância e seus ecos chegam à praça estrepitosos como cristais que se partem.

Faz então entrada na cena um sacerdote encapuçado levando em uma das mãos a cruz e, na outra, uma tocha acesa. Seguem-no um escriba encarregado de lavrar a ata do Auto-de-fé, um servidor deste, um empregado superior da administração da Alfândega, um agente da mesma representando o proprietário das obras condenadas. Finalmente três funcionários da Alfândega que depositam os livros no local, preparando a fogueira que com eles se faria empregando estudada solenidade.

O sacerdote realiza todo o aparato do ritual, lê o Auto-de-fé, desce a tocha e inicia a queima das obras literárias. Uma imensa multidão, que obstruía os passeios e enchia a imensa esplanada onde se erguia o sinistro catafalco, aproximava-se do local, visto que correra a notícia de que se ia reviver um anacrônico processo. Expressões de desagrado erguiam-se da massa ali reunida. De pouco em pouco ouviam-se vozes mais exaltadas, gestos e gritos. Referências à Inquisição começaram a se tornar o assunto das pessoas presentes. Depois que o fogo consome os volumes, a caravana incendiária empreende sua retirada, lúgubres e com indeciso passo. (*)

(*) Eis como a "Revue Spirite", de novembro de 1861, registra o acontecimento:

"Hoje, nove de outubro de mil oitocentos e sessenta e um, às 10 e meia da manhã, na esplanada da cidade de Barcelona, lugar onde são executados os criminosos condenados ao último suplício, e por ordem do bispo da cidade, foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo, a saber:

"A Revista Espírita, diretor Allan Kardec;

"A Revista Espiritualista, diretor Piérard;

"O Livros dos Espíritos, por Allan Kardec;

"O Livro dos Médiuns, pelo mesmo;

"O que é o Espiritismo", pelo mesmo;

"Fragmentos de Sonata ditadas pelo Espírito de Mozart;

"Carta de um católico sobre o Espiritismo, pelo Dr. Grand;

"A História de Jeanne D'Arc ditada por ela mesma à Mlle. Ermance Dufaux;

"A Realidade dos Espíritos Demonstrada Pela Escrita Direta, pelo Barão de Goldenstubbé;

Todos os diários espanhóis, em suas edições do dia seguinte, se ocuparam detidamente do assunto. Os mais liberais carregavam as tintas em sua condenação ao Santo Ofício. O periodismo em Barcelona tinha uma brilhante estirpe, pois que um dos representantes do "Diário de Barcelona" fora fundado em 1792 e era tido como o segundo diário do mundo em antiguidade.

Muitos foram os curiosos que correram até às cinzas e recolheram punhados de papeis que conservavam ainda algo que se pudesse ler, salvo das chamas (**).

(**) Alguns escritores narram que Allan Kardec recebeu de um admirador um punhado daquelas cinzas, que ele conservou em seu escritório em um receptáculo de vidro.

As lembranças do heróico passado espírita se perderam na França, os últimos, diz-se, quando os nazistas, depois da invasão de Paris, ocuparam a "Maison des Spirites".

— Trarei todos os livros que desejardes em minha próxima viagem a Marselha... — Desabafou em alta voz o capitão da marinha mercante, Ramón Lagier y Pomares.

 TESTEMUNHAS E PROTAGONISTAS

Auto-de-fé de Barcelona

 

Ramón Bernardo Ferrer

TESTEMUNHOU o Auto-de-fé de Barcelona

(1846 - 1942)

 

Viveu no Brasil uma testemunha ocular da queima das obras de Allan Kardec na Cidadela de Barcelona. Trata-se do Sr. Bernardo Ramon Ferrar, que foi um dos amigos diletos de Cairbar Schutel.

Cairbar Schutel ouviu de seus lábios a descrição do triste evento. Por mais curioso que seja, Bernardo Ramon Ferrer se tornou espírita justamente depois de assistir ao medievo e teatral ato ordenado pelo bispado barcelonês.

Ferrer nasceu em 1846, em Barcelona. Estava com 14 para 15 anos quando, na manhã de 9 de outubro de 1861, saindo de casa, viu uma multidão em burburinho de protesto que se dirigia para a Esplanada da Cidadela antiga da cidade, onde eram justiçados os criminosos. Ali o tribunal da Santa Inquisição reduzira a cinzas dezenas de infelizes e indefesas criaturas tidas por hereges ou feiticeiros.

Ramon imiscuiu-se à turba. Não era mais uma criança, e o que viu impressionou-o por toda a vida: uma pirâmide de livros novos, recém-tirados de sua embalagem, erguia-se ao centro da praça. Perto, um padre vestido com trajes especiais, trazendo em uma das mãos a cruz, na outra uma tocha acesa. Enquanto o tabelião redigia o processo verbal do auto-de-fé, gritos de protesto se erguiam em torno. Com seu nariz adunco e seus pequenos olhos impassíveis, o sacerdote, indiferente à multidão, vigiava o escrevente, o empregado superior da administração da alfândega e os três moços encarregados de alimentar o fogo. Tomado de indignação, o agente alfandegário, representante do proprietário das obras que ardiam, vituperava o mandante do ato prepotente.

Pétreo o sacerdote viu as chamas se erguerem até que consumiram de todo as encadernações, brochuras e revistas espíritas. Os personagens do ato retiraram-se sob apupos da multidão, aos quais Bernardo juntou a sua voz:

— Abaixo a inquisição!

A partir daquele dia o seu desejo de conhecer o conteúdo daquelas obras foi despertado. Via Marselha, por mar, as obras tornaram a entrar na Espanha. E Bernardo leu-as. Mais tarde foi companheiro de Amália Domingo y Soler, de Angel Aguarod, de Don Miguel Vives, de Don José Maria Fernandes e do Visconde Torres Salanot, essa plêiade de heróis espíritas que nunca poderão ser esquecidos. Apesar de serem homens cultos, nunca desprezaram Bernardo, que era um simples operário. E se orgulharam dele, pois Bernardo Ramon Ferrer foi o primeiro espírita de Barcelona a se casar apenas no civil, dispensando o ato religioso. Aquele auto-de-fé fizera com que rompesse definitivamente com a igreja.

Tende por templo - O Universo,
Por altar - A Consciência;
Por imagem - Deus;
Por lei - A Caridade.

Léon Denis "O Apóstolo do Espiritismo"

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

César Bogo - Amália Domingo y Soler A Grã-Senhora do Espiritismo PDF

 

César Bogo - Amália Domingo y Soler A Grã-Senhora do Espiritismo DOC

 

 César Bogo - Amalia Domingo y Soler - La Gran Señora del Espiritismo (Esp)