Escudo da Inquisição espanhola (1571). Ladeando a cruz, a espada, símbolo do castigo aos hereges e o ramo de oliveira, símbolo da reconciliação com os arrependidos

 

 

FLORENTINO BARRERA

 Auto-de-fé de Barcelona

 

OBRA RARA TRADUZIDA

 

Título Original em Espanhol

Florentino Barrera - Auto-de-Fe de Barcelona

Tercera Edición Revisada y Aumentada

Ediciones Vida Infinita - Buenos Aires (2008)

 

Tradutora do Espanhol para o Português

Teresa da Espanha

 

O DESENROLAR DO PROCESSO

Auto-de-fé de Barcelona

(a luta da santa inquisição contra os espíritas na espanha)

(Auto-de-fé de Barcelona foi uma expressão notabilizada por Allan Kardec para se referir à queima, em praça pública, de trezentos livros espíritas, realizada no dia 9 de outubro de 1861 em Barcelona, Espanha.)

 

O Professor Rivail solicitou por via diplomática pertinente, como era de praxe, que lhe fossem devolvidos os livros, já que não era permitida a sua penetração no país.

O bispo Don Antonio Palau e Termens replicou agressiva e impropriamente:

— O Governo não pode permitir que tais obras pervertam a moral e a religião dos países.

Fazia, como se vê, uma pretensa defesa moral, inclusive da própria França.

De nada valeram os recursos legais, internacionais ou diplomáticos para essa personalidade opinativa. Enviou ele os livros condenados a serem queimados em praça pública por mãos de um verdugo, — "no lugar onde se executavam os criminosos condenados à última pena" .

Foi na esplanada da Ciudadela, que se fez a leitura do "Auto-de-fé" promulgado pelo referido bispo. E a 9 de outubro de 1861 realizou-se uma ridícula cerimônia de incivilidade.

A explanada constituía o amplo pátio dedicado à praça de armas da antiga Cidadela de Barcelona. Fora erigida em 1716 por Felipe V no solar que ocupava no bairro denominado "de Ia Ribera". Os planos da mesma foram traçados pelo marquês de Verboom, primeiro engenheiro geral que teve a corporação dos engenheiros. A fortaleza geral, cuja planta era de forma pentagonal, media uns 15.000 metros de perímetro exterior, com cinco baluartes. Em seu centro se erguia a famosa torre de Santa Clara, que servia de prisão. Esta fortaleza foi uma das mais importantes jamais existentes no mundo, por seu tamanho, e por suas posições defensivas, consideradas, então, inexpugnáveis.

À sua frente, na explanada que tinha uma extensão de perto de 400 metros quadrados, onde ainda parecia ouvir-se o entrechocar das armas e o ressoar das botas nos exercícios das hostes de Felipe V, se desenrolou a cena medieval.

Cidadela de Barcelona - cenário da queima das obras de Allan Kardec - Auto-de-fé de Barcelona

 

Eram dez horas e trinta minutos. O Sol iluminava o verde da folhagem, descobrindo, aqui e ali, os primeiros tons amarelos do Outono.

Um surdo sussurro produzido pelo vento na ramalhada, vinha confundir-se ao murmúrio das vozes atônitas que presenciavam o inusitado espetáculo que começava a desenrolar-se.

Um menino, que seu progenitor levava pela mão, perguntou-lhe:

— Papai, o que está sucedendo?

Uma máscula interjeição foi a resposta:

— Raios os partam, a estas aves de rapina.

Dois cidadãos comentam:

— Parece mentira, justamente quando as estradas-de-ferro fazem ouvir o ruído do progresso, o avanço da civilização, esta gente nos quer fazer retroceder a épocas superadas.

— É verdade! Um ato de duzentos anos atrás quando, há dez anos, a via-férrea une Barcelona à cidade de Mataró.

Tangem sinos à distância e seus ecos chegam à praça estrepitosos como cristais que se partem.

Faz então entrada na cena um sacerdote encapuçado levando em uma das mãos a cruz e, na outra, uma tocha acesa. Seguem-no um escriba encarregado de lavrar a ata do Auto-de-fé, um servidor deste, um empregado superior da administração da Alfândega, um agente da mesma representando o proprietário das obras condenadas. Finalmente três funcionários da Alfândega que depositam os livros no local, preparando a fogueira que com eles se faria empregando estudada solenidade.

O sacerdote realiza todo o aparato do ritual, lê o Auto-de-fé, desce a tocha e inicia a queima das obras literárias. Uma imensa multidão, que obstruía os passeios e enchia a imensa esplanada onde se erguia o sinistro catafalco, aproximava-se do local, visto que correra a notícia de que se ia reviver um anacrônico processo. Expressões de desagrado erguiam-se da massa ali reunida. De pouco em pouco ouviam-se vozes mais exaltadas, gestos e gritos. Referências à Inquisição começaram a se tornar o assunto das pessoas presentes. Depois que o fogo consome os volumes, a caravana incendiária empreende sua retirada, lúgubres e com indeciso passo. (*)

(*) Eis como a "Revue Spirite", de novembro de 1861, registra o acontecimento:

"Hoje, nove de outubro de mil oitocentos e sessenta e um, às 10 e meia da manhã, na esplanada da cidade de Barcelona, lugar onde são executados os criminosos condenados ao último suplício, e por ordem do bispo da cidade, foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo, a saber:

"A Revista Espírita, diretor Allan Kardec;

"A Revista Espiritualista, diretor Piérard;

"O Livros dos Espíritos, por Allan Kardec;

"O Livro dos Médiuns, pelo mesmo;

"O que é o Espiritismo", pelo mesmo;

"Fragmentos de Sonata ditadas pelo Espírito de Mozart;

"Carta de um católico sobre o Espiritismo, pelo Dr. Grand;

"A História de Jeanne D'Arc ditada por ela mesma à Mlle. Ermance Dufaux;

"A Realidade dos Espíritos Demonstrada Pela Escrita Direta, pelo Barão de Goldenstubbé;

Todos os diários espanhóis, em suas edições do dia seguinte, se ocuparam detidamente do assunto. Os mais liberais carregavam as tintas em sua condenação ao Santo Ofício. O periodismo em Barcelona tinha uma brilhante estirpe, pois que um dos representantes do "Diário de Barcelona" fora fundado em 1792 e era tido como o segundo diário do mundo em antiguidade.

Muitos foram os curiosos que correram até às cinzas e recolheram punhados de papeis que conservavam ainda algo que se pudesse ler, salvo das chamas (**).

(**) Alguns escritores narram que Allan Kardec recebeu de um admirador um punhado daquelas cinzas, que ele conservou em seu escritório em um receptáculo de vidro.

As lembranças do heróico passado espírita se perderam na França, os últimos, diz-se, quando os nazistas, depois da invasão de Paris, ocuparam a "Maison des Spirites".

— Trarei todos os livros que desejardes em minha próxima viagem a Marselha... — Desabafou em alta voz o capitão da marinha mercante, Ramón Lagier y Pomares.

Fontes: César Bogo - Amália Domingo y Soler A Grã-Senhora do Espiritismo - Cap. IV - O auto de fé revelador

 TESTEMUNHAS E PROTAGONISTAS

Auto-de-fé de Barcelona

 

 

Ramón Bernardo Ferrer

TESTEMUNHOU o Auto-de-fé de Barcelona

(1846 - 1942)

 

Viveu no Brasil uma testemunha ocular da queima das obras de Allan Kardec na Cidadela de Barcelona. Trata-se do Sr. Bernardo Ramon Ferrar, que foi um dos amigos diletos de Cairbar Schutel.

Cairbar Schutel ouviu de seus lábios a descrição do triste evento. Por mais curioso que seja, Bernardo Ramon Ferrer se tornou espírita justamente depois de assistir ao medievo e teatral ato ordenado pelo bispado barcelonês.

Ferrer nasceu em 1846, em Barcelona. Estava com 14 para 15 anos quando, na manhã de 9 de outubro de 1861, saindo de casa, viu uma multidão em burburinho de protesto que se dirigia para a Esplanada da Cidadela antiga da cidade, onde eram justiçados os criminosos. Ali o tribunal da Santa Inquisição reduzira a cinzas dezenas de infelizes e indefesas criaturas tidas por hereges ou feiticeiros.

Ramon imiscuiu-se à turba. Não era mais uma criança, e o que viu impressionou-o por toda a vida: uma pirâmide de livros novos, recém-tirados de sua embalagem, erguia-se ao centro da praça. Perto, um padre vestido com trajes especiais, trazendo em uma das mãos a cruz, na outra uma tocha acesa. Enquanto o tabelião redigia o processo verbal do auto-de-fé, gritos de protesto se erguiam em torno. Com seu nariz adunco e seus pequenos olhos impassíveis, o sacerdote, indiferente à multidão, vigiava o escrevente, o empregado superior da administração da alfândega e os três moços encarregados de alimentar o fogo. Tomado de indignação, o agente alfandegário, representante do proprietário das obras que ardiam, vituperava o mandante do ato prepotente.

Pétreo o sacerdote viu as chamas se erguerem até que consumiram de todo as encadernações, brochuras e revistas espíritas. Os personagens do ato retiraram-se sob apupos da multidão, aos quais Bernardo juntou a sua voz:

— Abaixo a inquisição!

A partir daquele dia o seu desejo de conhecer o conteúdo daquelas obras foi despertado. Via Marselha, por mar, as obras tornaram a entrar na Espanha. E Bernardo leu-as. Mais tarde foi companheiro de Amália Domingo y Soler, de Angel Aguarod, de Don Miguel Vives, de Don José Maria Fernandes e do Visconde Torres Salanot, essa plêiade de heróis espíritas que nunca poderão ser esquecidos. Apesar de serem homens cultos, nunca desprezaram Bernardo, que era um simples operário. E se orgulharam dele, pois Bernardo Ramon Ferrer foi o primeiro espírita de Barcelona a se casar apenas no civil, dispensando o ato religioso. Aquele auto-de-fé fizera com que rompesse definitivamente com a igreja.

CAPITÃO Ramón Lagier y Pomares

O AMIGO DE ALLAN KARDEC

TESTEMUNHOU o Auto-de-fé de Barcelona

(1821 - 1897)

O Espiritismo entra na Espanha através das obras de Allan Kardec, que arribavam em Le Monarch, barco mercante de estaleiros catalães, e eram distribuídas em Barcelona pelo capitão Ramón Lagier y Pomares. Naqueles tempos as diferentes mercadorias eram transportadas em barricas. Os catalães naturalmente eram favorecidos porque falavam a antiga língua limusine, idioma das províncias meridionais da França à qual em outros tempos eram unidos.

O Capitão de ultramar, presencia o auto-de-fé dos livros espíritas, com ocasião de estar o Le Monarch atracado no porto de Barcelona. Espírita de primeira hora, facilita a chegada à Espanha das obras de Allan Kardec, operação que realiza por alguns anos. Declarou várias vezes que “na Espanha o Espiritismo foi batizado pelo bispo de Barcelona, o padrinho foi Fernández-Colavida, e eu também desempenhei certo papel em tudo isso”.

Certa vez, em Marselha, passando pela frente de uma livraria, viu um livro que estava exposto com um aviso de recém-aparecido, e foi então que ele comprou a primeira edição do Livro dos Espíritos; gostou tanto da leitura que chegou a visitar o autor em várias oportunidades. Seu biógrafo principal foi Pedro Ibarra e Ruiz, que escreve “Anotações para Ilustrar a biografia do bravo Capitão do Buenaventura”, Barcelona, 1901. Pedimos a opinião de quem nos presenteou com essa ilustração:

“O valoroso capitão Lagier, comandante do navio a vapor El Monarca e também do Buenaventura, teve ocasião de presenciar o tristemente famoso Auto-de-fé de Barcelona, e conta ele que, vendo muitas pessoas se aproximarem da extinta fogueira e pegarem cinzas e algumas páginas que não estavam totalmente destruídas (com a finalidade de conservá-las como testemunha da violência clerical), não pode se conter, e exclamou bem alto: “Na minha próxima viagem a Marselha eu vou trazer para vocês todos os livros que vocês quiserem”. E desse modo, através dos navios que arribavam ao porto de Marselha (França), muitos exemplares das obras de Allan Kardec entraram na Espanha, vendidos ou distribuídos gratuitamente pelos comandantes ou subordinados, e principalmente pelo bravo e inesquecível capitão Lagier.

Nas suas frequentes viagens à França costumava frequentar a casa de Kardec, e talvez a exemplo dele, transformou sua casa em escola popular, onde além das primeiras letras e do Espiritismo, ensinava noções de aritmética, geografia, astronomia e de outras matérias que sua vasta ilustração permitia.

Fontes: Rámon Lagier - Marino, aventurero, revulucionario y benefactor

ALLAN KARDEC

O CODIFICADOR DO ESPIRITISMO

OS PROTAGONISTAS DO Auto-de-fé de Barcelona

(1804 - 1869)

A vida de Allan Kardec pode ser contada de várias maneiras.

Para melhor compreensão de alguns aspectos, preferimos dividi-la em duas fases distintas: a primeira em que, desde o seu nascimento até a idade dos 50 anos, foi conhecido por Hippolyte Léon Denizard Rivail; e a segunda, quando se tornou espírita e passou a assinar Allan Kardec.

1ª fase:

Allan Kardec nasceu em Lyon (França), a 3 de outubro de 1804 e foi registrado sob o nome de Hippolyte Léon Denizard Rivail.

Iniciou seus estudos na escola de Pestalozzi (em Yverdun, Suíça). A educação transmitida por Pestalozzi marcou profundamente a vida futura do jovem Rivail.

Tornou-se educador e entusiasta do ensino, tendo sido várias vezes convidado por Pestalozzi para assumir a direção da escola, na sua ausência. Durante 30 anos (de 1824 a 1854), dedicou-se inteiramente ao ensino e foi autor de várias obras didáticas, que em muito contribuíram para o progresso de educação, naquela época.

2ª fase:

Em 1855, o prof. Rivail depara, pela primeira vez, com o “fenômeno das mesas que giravam, saltavam e corriam, em condições tais que não deixavam lugar para qualquer dúvida”.

Passa então a observar estes fenômenos; pesquisa-os cuidadosamente, graças ao seu espírito de investigação, que sempre lhe fora peculiar, não elabora qualquer teoria pré-concebida, mas insiste na descoberta das causas.

Aplica a estes fenômenos o método experimental com o qual já estava familiarizado na função de educador; e, partindo dos efeitos, remonta às causas e reconhece a autenticidade daqueles fenômenos.

Convenceu-se da existência dos espíritos e de sua comunicação com os homens.

Grande transformação se opera na vida do prof. Rivail: convencido de sua condição de espírito encarnado, adota um nome já usado em existência anterior, no tempo dos druidas: Allan Kardec.

De 1855 a 1869, consagrou sua existência ao Espiritismo; sob a assistência dos Espíritos Superiores, representados pelo Espírito da Verdade, estabelece as bases da Codificação Espírita, em seu tríplice aspecto: Filosófico, Científico e Religioso.

Além das obras básicas da Codificação (Pentateuco Kardequiano), contribuiu com outros livros básicos de iniciação doutrinária, como: O que é o Espiritismo, O Espiritismo na sua mais simples expressão, Instruções práticas sobre as manifestações espíritas e Obras Póstumas.

A estas obras junta-se a Revista Espírita, “jornal” de estudos psicológicos, lançado a 1º de janeiro de 1858 e que esteve sob sua direção por 12 anos.

É também de sua iniciativa a fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 1º de abril de 1858 - primeira instituição regularmente constituída com o objetivo de promover estudos que favorecessem o progresso do Espiritismo.

Assim surgiu o Espiritismo: com a ação dos Espíritos Superiores, apoiados na maturidade moral e cultural de Allan Kardec, no papel de codificador.

Com a máxima “Fora da caridade não há salvação”, procura ressaltar a igualdade entre os homens, perante Deus, a tolerância, a liberdade de consciência e a benevolência mútua.

E a este princípio cabe juntar outro: “Fé inabalável é aquela que pode encarar a razão face à face, em todas as épocas da humanidade”. Esclarece Allan Kardec:

“A fé raciocinada que se apóia nos fatos e na lógica, não deixa qualquer obscuridade: crê-se, porque se tem certeza e só se está certo, quando se compreendeu”.

Denominado “o bom senso encarnado” pelo célebre astrônomo Camille Flammarion, Allan Kardec desencarnou aos 65 anos, a 31 de março de 1869.

Em seu túmulo, no cemitério de Père Lachaise (Paris), uma inscrição sintetiza a concepção evolucionista da Doutrina Espírita: “Nascer, Morrer, Renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei”.

MAURICE LACHÂTRE

O ILUMINISTA

O LIVREIRO DE PARIS

OS PROTAGONISTAS DO Auto-de-fé de Barcelona

(1814 - 1900)

Maurice Lachâtre é uma das figuras mais luminosas e corajosas da França, no século XIX.

Nascido em Issoudun, no Departamento de Indre, em 1814, Maurice Lachâtre mudou-se ainda jovem para Paris, atraído pela borbulhante vida intelectual da capital francesa.

Editor e escritor, foi em ambas as atividades o contestador por excelência, em choque permanente com o regime político e a religião católica dominante.

Em 1857, foi condenado a um ano de prisão e a uma multa de seis mil francos, por ter editado o romance Os mistérios do povo, de Eugén Sue, que difundia os ideais socialistas.

No ano seguinte, sofreu uma nova condenação pelo regime de Napoleão III (que Victor Hugo chamou de Napoléon le petit), pela publicação do Dicionário Universal Ilustrado. A pena era duríssima: seis anos de prisão.

Para escapar, Lachâtre refugiou-se na Espanha, estabelecendo-se como livreiro em Barcelona.

Homem inquieto, atento às novidades, acompanhava o grande movimento de renovação espiritual que surgia em seu país.

Em 1861, escreveu a Allan Kardec, solicitando-lhe a remessa de livros espíritas, que desejava comercializar em sua livraria. Kardec enviou dois caixotes, contendo 300 livros. A remessa atendia a todos os requisitos legais da alfândega espanhola, mas a sua liberação foi sustada, sob a alegação de ser indispensável a aprovação do bispo de Barcelona, Antonio Palau y Termens.

Concluiu o bispo que se tratava de livros perniciosos, que deviam ser lançados ao fogo por serem imorais e contrários à fé católica. A execução ocorreu no dia 9 de outubro de 1861, ficando conhecida entre os espíritas como o Auto-de-fé de Barcelona.

A partir daí os padres passaram a vigiar de perto as publicações de Lachâtre. O dedo da Igreja encontra-se por trás da sentença da justiça francesa, de 27 de janeiro de 1869, que condenava à destruição a História dos papas, que Lachâtre publicara em 1842-43, em dez volumes. Não foi o suficiente para abatê-lo.

Em 1870, quando ocorre a Comuna, Lachâtre retorna a Paris, num lance de ousadia, e passa a colaborar no jornal Vengeur, de Félix Pyat. A vitória do governo e a violentíssima repressão levaram-no de volta a Espanha, onde manteve a sua intensa atividade intelectual.

Em 1874, publicou dois livros, a História do consulado e do império e a História da restauração. Seis anos depois, saía a História da inquisição.

Com a anistia, retornou à França,. fundou uma nova editora, em Paris, e entregou-se de corpo e alma à sua grande obra, o Novo dicionário universal, considerada por contemporâneos como a maior enciclopédia de conhecimentos humanos até então publicada, Incluía, inclusive, todos os termos específicos do vocabulário espírita.

Maurice Lachâtre desencarnou em Paris, no ano de 1900.

ANTONIO PALAUS Y TERMENS

O INQUISIDOR ESPANHOL

O BISPO DE BARCELONA

OS PROTAGONISTAS DO Auto-de-fé de Barcelona

(1806 - 1862)

Prelado descendente de uma aristocrática família catalã que entrega muitos dos seus filhos ao ministério da Igreja. Estudou no Seminário Consular de Barcelona, cursa matemática em Cervera, filosofia e teologia em Tarragona. Estudos médios e bacharelato em teologia, como presbítero em 1831, toma parte ativamente nos trabalhos da Obra da Propagação da Fé, funda a Revista Católica, que dirige por espaço de onze anos. Catedrático do Seminário de Barcelona, cônego magistral de Tarragona, bispo de Vich e finalmente bispo de Barcelona (1857).

Contribui ao estabelecimento da Livraria Religiosa. Escreveu várias obras de sua especialidade entre elas "Novena em Obséquio de Jesus Sacramentado (1830); "Memória sobre la Obra de la Preparación a Favor de las Misiones Católicas de Ambos Mundos (1840); "Observación sobre la Importancia de la Educación del Bello Sexo por las Religiosas" (1840);"La Revolución, el Gobierno y las Monjas" (1850); "Historia de los padecimientos y triunfos de la Igresia de Jesucristo"; edita además EI Boletín Eclesiástico, Barcelona 1858.

"A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outros países."

(D. Antonio Palau y Termens - Bispo de Barcelona)

 

Necrologia

MORTE DO BISPO DE BARCELONA

ANTONIO PALAUS Y TERMENS

(1806 - 1862)

Escrevem-nos da Espanha que o bispo de Barcelona, aquele que mandou queimar trezentos volumes espíritas pela mão do carrasco, em 9 de outubro de 1861, morreu no dia 9 deste mesmo mês e foi enterrado com a pompa costumeira devida aos chefes da Igreja. Apenas nove meses são decorridos e já esse auto-de-fé produziu os resultados pressentidos por todos, isto é, acelerou a propagação do Espiritismo naquele país. Com efeito, a repercussão daquele ato, inqualificável neste século, chamou para esta doutrina a atenção de uma multidão de pessoas que dela jamais tinham ouvido falar e a imprensa, fosse qual fosse a sua opinião, não poderia ficar muda.

O aparato exibido em tal circunstância era capaz de excitar a curiosidade pela atração do fruto proibido e, sobretudo, pela própria importância dada à coisa, porquanto cada um teria raciocinado que não se procede assim com uma ninharia ou com um sonho vão. Muito naturalmente o pensamento retrocedeu alguns séculos e se tenham lembrado de que, outrora, nesse mesmo país, não apenas se queimavam livros, mas seres humanos.

Que poderia, pois, conter tais livros para se tornarem dignos das solenidades da fogueira? Foi o que quiseram saber; e na Espanha o resultado foi o mesmo que em toda parte onde o Espiritismo foi atacado; sem os ataques zombeteiros ou sérios de que foi objeto, contaria dez vezes menos partidários do que tem; quanto mais violenta e repetida a crítica, mais ele se pôs em evidência e se desenvolveu; ataques inofensivos teriam passado despercebidos, ao passo que o brilho do raio desperta os mais entorpecidos; querem ver o que se passa, e é tudo quanto pedimos, convictos antecipadamente do resultado do exame. Isto é um fato positivo, pois cada vez que, numa localidade, o anátema desceu sobre ele do alto do púlpito, temos certeza de ver aumentar o número dos nossos assinantes ou estes surgirem se não os houvesse antes.

A Espanha não podia escapar a essa consequência; assim, não há um espírita que não se tenha regozijado ao tomar conhecimento do auto-de-fé de Barcelona, seguido pouco tempo depois pelo de Aliciante; e mais de um adversário deplorou um ato do qual a religião nada tinha a ganhar. Diariamente temos a prova irrecusável da marcha progressiva do Espiritismo nas classes mais esclarecidas daquele país, onde conta zelosos e fervorosos adeptos.

Um dos nossos correspondentes da Espanha, anunciando a morte do bispo de Barcelona, aconselha-nos a evocá-lo. Dispúnhamos a fazê-lo e, em consequência, havíamos preparado algumas perguntas, quando ele se manifestou espontaneamente a um dos nossos médiuns, respondendo por antecipação a todas as perguntas que lhe queríamos fazer e antes mesmo que elas fossem verbalizadas. Sua comunicação, de caráter absolutamente imprevisto, continha, entre outras, a seguinte passagem:

“… Auxiliado por vosso chefe espiritual pude vir ensinar-vos com o meu exemplo e vos dizer: Não repilais nenhuma das ideias anunciadas, porque um dia, um dia que durará e pesará como um século, essas ideias amontoadas clamarão como a voz do Anjo: Caim, que fizestes de teu irmão? Que fizestes de nosso poder, que devia consolar e elevar a Humanidade?

O homem que voluntariamente vive cego e surdo de espírito, como outros o são do corpo, sofrerá, expiará e renascerá para recomeçar o labor intelectual, que a sua preguiça e o seu orgulho o levaram a evitar; e essa voz terrível me disse: Queimaste as ideias e as ideias te queimarão!…

“Orai por mim. Orai, porque é agradável a Deus a prece que lhe é dirigida pelo perseguido em benefício do perseguidor.

“Aquele que foi bispo e que não passa de um penitente.”

Este contraste entre as palavras do Espírito e as do homem nada tem que deva surpreender. Todos os dias vemos criaturas que, depois da morte, pensam de modo diferente do que pensavam durante a vida, uma vez caída a venda das ilusões, o que é uma prova incontestável de superioridade; somente os Espíritos inferiores e vulgares persistem nos erros e nos preconceitos da vida terrestre.

Quando vivo, o bispo de Barcelona via o Espiritismo através de um prisma particular, que lhe desnaturava as cores ou, melhor dizendo, não o conhecia. Agora o vê sob a sua verdadeira luz e lhe sonda as profundezas. Caído o véu, já não é para ele uma simples opinião, uma teoria efêmera, que se pode sufocar nas cinzas: é um fato; é a revelação de uma lei da Natureza, lei irresistível como a força da gravitação, lei que deve, pela força das coisas, ser aceita por todos, como tudo que é natural. Eis o que agora compreende e que o fez dizer que “as ideias que quis queimar o queimarão.” Dito de outra forma, será tragado pelos preconceitos que o tinham levado a condená-las.

Não o podemos censurar, pelo triplo motivo de que o verdadeiro espírita a ninguém condena, não guarda rancor, esquece as ofensas e, a exemplo do Cristo, perdoa aos seus inimigos; em segundo lugar, longe de nos prejudicar, ele nos foi útil; enfim, porque reclama de nós a prece do perseguido para o perseguidor, como a mais agradável a Deus, pensamento todo caridade, digno da humildade cristã, revelada pelas últimas palavras: “Aquele que foi bispo e que não passa de um penitente.” Bela imagem das dignidades terrenas deixadas à beira do túmulo, para se apresentar a Deus tal que se é, sem os aparatos impostos aos homens.

Espíritas, perdoemos-lhe o mal que nos quis fazer, como quereríamos que as nossas ofensas nos fossem perdoadas e oremos por ele no aniversário do auto-de-fé de 9 de outubro de 1861.

Fontes: Allan Kardec - Revista Espírita de Agosto de 1862

Ver no site as obras completas de Allan Kardec

Ver no site o pioneiro do Espiritismo na Espanha "José Maria Fernandez Colavida"

Ver no site o escritor espírita Amílcar Del Chiaro Filho

Fontes: Federación Espírita Española (Descargas de libros / Florentino Barrera - El Auto de Fe de Barcelona)

Fontes: A Luz na Mente - Revista On Line de Artigos Espíritas (O Espiritismo jamais será superado)

O auto-de-fé celebrado há alguns meses em La Coruna, em que foi queimado grande número de livros à porta de uma igreja, tinha produzido no nosso e no espírito de todos os homens de ideias liberais uma impressão muito triste. Mas é com indignação ainda bem maior que foi recebida em toda a Espanha a notícia do segundo auto-de-fé em Barcelona, nesta capital civilizada da Catalunha, em meio a uma população essencialmente liberal, à qual sem dúvida fizeram este bárbaro insulto, porque nela reconhecem grandes qualidades. ”

Extrato do artigo em questão, publicado por Las Novedades, um dos grandes jornais de Madrid

Allan Kardec - Revista Espírita de Dezembro de 1861

O evento auto-de-fé de Barcelona causou viva impressão através da imprensa de todo o mundo à época, evocando as antigas fogueiras do Santo Ofício, chamando a atenção para a questão do Espiritismo.

Allan Kardec, em decorrência deste episódio, comentou:

"Graças a esse zelo imprudente, todo o mundo, na Espanha, vai ouvir falar do espiritismo e quererá saber o que é; é tudo o que desejamos. Podem-se queimar os livros, mas não se queimam as ideias; as chamas das fogueiras as superexcitam em lugar de abafa-las. As ideias, aliás, estão no ar, e não há pireneus bastante altos para detê-las; e quando uma ideia é grande e generosa, ela encontra milhares de peitos prontos para aspirá-la."

Pela Revista Espírita que já tinha assinantes em quase todo o mundo, Allan Kardec proclamou: "Espíritas de todos os países! Não esqueçais a data de 9 de outubro de 1861. Será marcada nos Anais do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa e não de luta, porque é o penhor de vosso próximo triunfo."

Allan Kardec - "Resquícios da Idade Média" - Revista Espírita de Novembro de 1861

"Uma parte das cinzas nos foi enviada. Ali se encontra um fragmento de “O Livro dos Espíritos”, consumido pela metade. Nós o conservamos preciosamente, como autêntico testemunho desse ato de insensatez."

Allan Kardec - "Resquícios da Idade Média" - Revista Espírita de Novembro de 1861

"Amílcar Del Chiaro Filho classificou aquele ato inconseqüente como “O batismo de fogo do Espiritismo”, pelo fato de ele haver levantado o povo espanhol, movido pelo vivo interesse em saber que doutrina seria aquela contida nos livros queimados e que tanto aterrorizava o clero de Barcelona." (4)

Amílcar Del Chiaro Filho "Escritor Espírita Brasileiro" Programa Diálogos Espíritas

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Amílcar Del Chiaro Filho - Auto-de-Fé de Barcelona (O Batismo de Fogo do Espiritismo)

 

José Estênio Gomes Negreiros - Um preito a Maurice Lachâtre (Auto-de-fé de Barcelona)

 

Florentino Barrera - Auto-de-fé de Barcelona PDF

 

Florentino Barrera - Auto-de-fé de Barcelona DOC

 

Florentino Barrera - El Auto de Fe de Barcelona (Esp.)