L. Vavasseur - Échos Poétiques D'Outre Tombe

Poésies médianimiques obtenues par L. Vavasseur

Précédées d'une étude sur la poésie médianimique

par Allan Kardec

Paris (1867)

 

L. Vavasseur - Ecos Poéticos do Além-Túmulo

Poesias mediúnicas obtidas por L. Vavasseur

Precedidas de um estudo sobre a poesia mediúnica

por Allan Kardec

Paris (1867)

Apresentação de Allan Kardec:

Já publicamos outros trechos de poesias obtidas por esse médium, nos números de junho e julho, sob os títulos de A teu livro e A prece pelos Espíritos. O Sr. Vavasseur é um médium versificador na acepção da palavra, porque só muito raramente obtém comunicações em prosa e, embora muito letrado e conhecedor das regras de poesia, de si mesmo jamais fez versos. Mas, dirão, o que sabeis a respeito e quem vos diz que aquilo que supondes obter mediunicamente não será produto de sua composição pessoal? Nós o acreditamos, primeiro porque ele o afirma e porque o temos por incapaz de mentir; em segundo lugar porque a mediunidade, sendo nele completamente desinteressada, nenhuma razão teria de se dar a um esforço inútil e de representar uma comédia indigna de um caráter honrado. Sem dúvida a coisa seria mais evidente e, sobretudo, mais extraordinária se ele fosse completamente analfabeto, como se vê em certos médiuns, mas os conhecimentos que possui não infirmariam a sua faculdade, desde que demonstrada por outras provas.

Que expliquem por que, por exemplo, se ele quiser compor algo de si mesmo, um simples soneto, nada obtém, ao passo que, sem o buscar, e sem desígnio premeditado, escreve trechos de grande fôlego, de um jacto, mais rapidamente e mais correntemente do que se escreveria prosa, sobre um assunto improvisado, no qual não pensava? Qual o poeta capaz de semelhante proeza, que se repete quase diariamente? Não poderíamos duvidá-lo, porque os trechos que citamos, e muitos outros, foram escritos sob os nossos olhos, na Sociedade e em diferentes grupos, em presença de uma assembléia muitas vezes numerosa. Que todos os malabaristas, que pretendem descobrir os pretensos cordéis dos médiuns, imitando mais ou menos grosseiramente alguns efeitos físicos, venham, então, disputar com certos médiuns escreventes e tratar, mesmo em simples prosa, instantaneamente, sem preparação nem retoque, o primeiro assunto surgido e as mais abstratas questões! É uma prova a que nenhum detrator não quis ainda submeter-se.

A propósito, recordamo-nos de que, há seis ou sete anos, um escritor e jornalista, cujo nome por vezes figura na imprensa entre os zombadores do Espiritismo, veio nos procurar, dando-se por médium intuitivo e oferecendo seu concurso à Sociedade. Dissemos-lhe que, antes de aceitar sua obsequiosa oferta, precisávamos conhecer a extensão e a natureza de sua faculdade; em consequência, nós o convocamos para uma sessão particular de ensaio, na qual se encontravam quatro ou cinco médiuns. Tão logo estes tomaram do lápis, começaram a escrever com tal rapidez que o deixou estupefato; rabiscou três ou quatro linhas com fortes rasuras, alegou dor de cabeça, o que perturbava a sua faculdade. Prometeu voltar e não o vimos mais. Ao que parece, os Espíritos só o assistem com a cabeça fresca e em seu gabinete.

É verdade que se viram improvisadores, como o finado Eugène de Pradel [Pierre-Marie-Michel-Eugène Coutray, visconde de Pradel], cativar os ouvintes pela sua naturalidade. Admiraram-se de que nada tivessem publicado. A razão é muito simples: é que o que seduzia a audição não era suportável à leitura; não passava de um arranjo de palavras saídas de uma fonte abundante, onde brilhavam, excepcionalmente, alguns traços espirituosos, mas cujo conjunto era vazio de pensamentos sérios e profundos, e semeado de incorreções revoltantes. Não nos referimos à censura que se possa fazer aos versos, embora obtidos com quase tanta rapidez quanto os improvisos verbais. Se fossem fruto de um trabalho pessoal, seria uma singular humildade da parte do autor atribuir o mérito a outros, e não a si, privando-se da honra que daí poderia tirar.

Apesar de a mediunidade do Sr. Vavasseur ser recente, ele já possui uma coletânea bem importante de poesias de real valor, que pretende publicar. Apressar-nos-emos em anunciar essa obra tão logo apareça, pois não temos dúvida de que será lida com interesse.

(Allan Kardec - Revista Espírita de Agosto de 1866)

Notícias bibliográficas

Poesias Diversas do Mundo Invisível

Obtidas pelo Sr. Vavasseur

Esta coletânea, que anunciamos em nosso último número como no prelo, aparecerá na primeira quinzena de janeiro. Nossos leitores puderam julgar o gênero e o valor das poesias obtidas pelo Sr. Vavasseur, como médium, seja no estado de vigília, seja no estado sonambúlico espontâneo, pelos fragmentos que delas publicamos. Sr. Vavasseur é o médium poeta, que obtém com a maior facilidade as notáveis poesias das quais publicamos várias amostras.

Limitamo-nos, pois, a dizer que, ao mérito da versificação, elas juntam o de refletir, sob a graciosa forma poética, as consoladoras verdades da Doutrina, e que a este título elas terão um lugar honrado em toda biblioteca espírita. Acreditamos dever acrescentar-lhe uma introdução, ou melhor, uma instrução sobre a poesia medianímica em geral, destinada a responder a certas objeções da crítica sobre este gênero de produções.

Notícias bibliográficas

Poesias Diversas do Mundo Invisível

Obtidas pelo Sr. Vavasseur

Coletânea de poesias mediúnicas pelo Sr. Vavasseur; precedida de um Estudo sobre a poesia mediúnica, pelo Sr. Allan Kardec. n 1 vol. In-12, preço: 1 fr. Pelo correio, para a França e Argélia, 1 fr. 20 c. – Paris, livraria central, 24, boulevard des Italiens; no escritório da Revista Espírita e com o autor, 3, rue de la Mairie, em Paris-Montmartre.

(Allan Kardec - Revista Espírita de Fevereiro de 1867)

I - Poesia Espírita

MÉRY, O SONHADOR.

(Grupo do Sr. L..., 4 de julho de 1866, méd. Sr. Vavasseur.)

Recém-nascido sobre vossa margem
Vi uma mulher atenta
Dizer, espiando o meu despertar:
Não perturbeis seu doce sono,
Ele sonha; e eu nasci apenas!
Um pouco mais tarde, quando na planície
Eu desfolhava o trevo florido,
Dizia-se que Joseph Méry
Sonhava; e quando minha pobre mãe
Me sentava sobre a branca pedra
Que do riacho guardava a borda,
Ela também dizia: Sonha ainda,
Meu filho. Mais tarde, no colégio,
Por ódio ou por desprezo, que sei eu!
Todos os meus amigos fugiam para longe,
E me deixavam só, num canto.
Sonhar. E quando a louca embriaguez
Dos prazeres perturbava a minha juventude,
A multidão me mostrava ao dedo
Dizendo: É Méry que deve
Ainda dormir. E quando, mais sábio,
Quase a meio caminho da viagem,
Fui julgado como escritor,
Dizia-se de mim: É em vão
Que ele evoca a poesia
Em seus versos, é a fantasia
Que vem ao seu chamado. Méry,
O que quer que faça, será Méry.
E quando a última prece
Tiver abençoado a minha fria poeira,
Atento sob meu lençol,
Não ouvi senão uma palavra, uma só;
Sonhador! Pois bem! sim, sobre a Terra
Sonhei; por que, pois, calá-lo?
Um sonho que não se acabou,
E que recomecei aqui.

J. Méry.

II - Poesia Espírita

A PRECE DA MORTE PARA OS MORTOS

(Sociedade de Paris, 13 de julho de 1866, méd. Sr. Vavasseur.)

Os séculos rolaram no abismo dos tempos
Sem piedade, flores e frutos, frios invernos, doces primaveras,
E a morte passou sem bater à porta
Que escondia o tesouro que em segredo ela guarda;
A vida! Ó morte! a mão que dirige tua mão
Deixa de ter ferido, não pode ela amanhã
Suspender um pouco seus golpes? Tua fome mal saciada
Quer ainda perturbar o banquete da vida?
Mas, se vens sem cessar, a qualquer hora do dia
Procurar entre nós os mortos para povoar tua morada,
O universo é muito pouco para os teus profundos abismos,
Onde teu sorvedouro é sem fundo para tuas pobres vítimas.
Ó morte! vês chorar a virgem sem chorar,
E tu secas as flores que devem enfeitá-la,
Sem permitir à sua fronte cingir a coroa
De rosas e de lírios que seu esposo lhe dá.
Ó morte! não ouves os gritos da pobre criança,
E vens sem piedade feri-la ao nascer,
Sem permitir aos seus olhos conhecer a mãe
Que lhe dá o céu em lhe dando a terra.
Ó morte! não ouves os votos desse velho
Implorando o favor, na hora da partida,
E de abraçar seu filho e bendizer sua filha,
Para dormir mais rápido e morrer mais tranqüilo.
Mas, cruel! digo eu, em que se tornam os mortos
Que deixam nossa margem e se vão para as tuas bordas?
Sofrerão sempre as dores da Terra
Nessa eternidade dos tempos, e a prece
Não poderia ao menos adoçá-las um dia?
E a morte respondeu: Nessa sombria morada
Onde, livre, fixei meu tenebroso império,
A prece é poderosa e é Deus quem a inspira
A meus súditos, a mim. Quando retorno, à tarde,
Sobre meu trono sangrento pomposamente me assento,
Olho os céus e sou a primeira
A recitar muito baixo para os meus mortos a prece.
Escuta, filho, escuta: "Ó Deus, Deus todo-poderoso,
Do alto dos céus sobre mim, sobre eles, lance em passando
Um olhar de piedade. Que um raio de esperança
Clareie enfim os lugares onde chora o sofrimento.
Faze ver, ó meu Deus! a terra do perdão,
Esse rio sem margem, essa praia sem nome,
A terra dos eleitos, a eterna pátria
Onde crias para todos uma eterna vida;
Faze com que cada um de nós, diante de tua vontade,
Se incline com respeito, diante da majestade
De teus secretos desígnios, se prosterne e adore;
Diante de teu nome se curve e se levante ainda,
Exclamando: Senhor! Se me haveis banido
Da morada dos vivos, se me haveis punido
Na morada dos mortos, diante de vós eu confesso
Ter merecido mais; feri, feri sem cessar,
Senhor, eu sofrerei sem jamais murmurar,
E meus olhos não poderão jamais bastante chorar
Para lavar do passado a inapagável mancha
Que sempre no presente vergonhosamente se aplica.
Sofrerei vossos golpes, levarei a minha cruz
Sem maldizer um único dia as vossas eqüitativas leis,
E quando julgardes minha prova acabada,
Senhor, se retornardes à minha sombra pálida
Os bens que perdeu em seu cativeiro,
A brisa, o sol, o ar puro, a liberdade,
O repouso e a paz, diante de vós eu me obrigo
A pedir ao meu turno, sobre minha nova margem,
Para meus irmãos curvados sob o penoso peso dos ferros
Que os retêm cravados no fundo de seus infernos;
Por suas sombras em prantos, às bordas da outra margem,
Mudas, olhando a minha fugitiva
Fugir em lhes dizendo: Coragem, meus amigos,
Realizarei nos céus o que aqui prometi."

Casimir Delavigne

III - Poesia Espírita

(Sociedade de Paris, 20 de julho de 1866 - Médium: Sr. Vavasseur)

LEMBRANÇA

Dois jovens são: irmã e irmão,
Juntos em noite de verão,
Entram na choça. E a noite avança
A passo lento, sem palrança,
Por detrás deles, vaporosa
Como uma sombra misteriosa.
Já dorme o pássaro na mata,
E o vento norte se recata;
Tudo sonhava em doce arcano.
E diz a irmã, baixinho, ao mano:
Estou com medo; ouves, irmão
Chorar um sino ao longe, então?
É um dobre lúgubre a finados,
A um morto, pois. Não assustados,
Irmã, fiquemos, é uma alma
Que sai da Terra e que com calma
Reclama prece pra pagar
No eterno além o seu lugar.
Vamos, irmã, orar na igreja
De laje cinza e poenta, seja
Local em que de luto, um dia,
Por trás do esquife em que dormia,
A pobre mãe nós vimos pois.
Vamos orar também, irmã;
Bênçãos teremos amanhã.
Vamos já, vamos! – Logo, os dois,
De olhos em lágrimas, depois,
Deram-se as mãos e, com carinho,
Tomam, assim, logo o caminho
Que ambos conduz à velha igreja.
Segunda vez o sino harpeja
E lhes oferta o triste adeus
Do morto em busca de seu Deus,
Cessando o sino o seu lamento;
Mudos de medo e em desalento
Caminham as duas crianças
Comolhar nos céus, têm esperanças.
Da igreja, então, já quase à entrada
Uma mulher viram sentada
À sombra da pilastra triste
Que a pia benta erguer lhe assiste.
Tendo os pés nus, face velada,
Pálida, louca e desgrenhada,
Ela exclamava alto: Ó meu Deus!
Vós que se adora aqui, nos céus,
Em todo o tempo, em toda a Terra,
E, no céu, pobre mãe se encerra
Tremendo aos pés de vosso altar,
Ante o amor vosso singular,
Diante de vós, ouse a aflição
De lamentar-se a estar então.
Senhor! Não tinha eu mais que um filho,
Um só; de um róseo e de um brilho
Qual branco raio que colora
Uma manhã de fresca aurora.
O terno azul dos olhos seus
Lembrava o azul dos vossos céus,
E em sua boca um riso doce
Fulgia assim como se fosse
Dizer: Não chores em teu lar;
É Deus que vem de me enviar.
Vê, a tormenta, mãe, cessou;
Espera! o céu limpo ficou;
E eu esperava. Mas, infante,
Tu te enganavas, inconstante.
Do vento o sopro sobre a praia
Tudo destrói e se desmaia,
Senão caniços que deixando
Ao pé das águas vão chorando.
E quando a morte bate à porta
De um lar, ela entra e então transporta
Consigo tudo! E por reduto
Só deixa a marca atroz do luto.
Sabia eu pois que um belo sonho
De uma manhã, finda tristonho,
À tarde aqui; que a noite, entanto,
Do sol inveja o brilho santo
Que empalidece a sua sombra,
Lançando um véu por toda a alfombra
A escurecer seus mil fulgores,
Fechando aos olhos esplendores.
Sim, eu sabia; a mãe, porém,
Ignora tudo; e não lhe vem
O que ela espera crente em tudo;
Bem para o filho, sobretudo.
Toda uma vida de ventura,
Eu não podia sem loucura
Um dia ter felicidade?
E outra é, Senhor, vossa vontade!
Seja ela feita, assim suspiro,
Só, neste humilde e atroz retiro,
Onde eu já vi morrer-me o esposo,
Onde, sem cor no ermo espinhoso,
Eu recebi de um pai o adeus,
Onde tirais da mãe os seus
Últimos sonhos de esperança
Diante do algoz de uma criança.
Morte, que a vítima vigia
Com cruel riso de alegria,
Senhor! Eu lhe suplico a mão
Que fere os meus, um dia, então,
Da própria mãe não lhe poupar
De o filho à terra reclamar.
E o sino última vez badala,
A estas palavras a voz fala
Da alma do filho sobre a terra
Consolo à pobre mãe encerra,
Ao lhe dizer: Nos céus estou!
Quando o casal de irmãos deixou
A velha igreja logo à entrada,
Vêem a mulher inda sentada.

Jean

Fontes: Bibliothèque Nationale de France

Fontes: l'Encyclopédie Spirite

"Como há homens de todos os graus de saber e de ignorância, de bondade e de maldade, ocorre o mesmo com os Espíritos. Há os que são apenas levianos e traquinas, outros são mentirosos, trapaceiros, hipócritas, maus, vingativos; outros, ao contrário, possuem as mais sublimes virtudes e o saber num grau desconhecido na Terra. Essa diversidade na qualidade dos Espíritos é um dos pontos mais importantes a se considerar, porque explica a natureza boa ou má das comunicações que se recebem; é em distingui-las que é preciso, sobretudo, se aplicar"

Allan Kardec "O Livros dos Espíritos, nº 100, Escala Espírita"

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

L. Vavasseur - Ecos Poéticos do Além-Túmulo PDF (Poesias Espíritas Extraídas das Revistas Espíritas publicadas por Allan Kardec em 1866)

 

Allan Kardec - Revista Espírita (1866) PDF

 

L. Vavasseur - Échos Poétiques D'Outre-Tombe (Fr) PDF (Obra Rara Publicada em 1867 no Idioma Francês)