ALLAN KARDEC

Revista Espírita

(REVUE SPIRITE)

ano de 1869

EDITORA FEB

EM FORMATO PDF

 

Importante periódico mensal publicado sob a responsabilidade direta de Allan Kardec de 1858 a 1869.

Apresentação do site:

Kardec ofereceu a própria vida para anunciar os lembretes do “Consolador Prometido” entre os adeptos, e muitas vezes defendê-los dos adversários , utilizando, para esse desiderato, a eficácia transformadora da Revista Espírita, que por 12 anos publicou ininterruptamente. Desencarnou em Paris, a 31 de março de 1869, portanto aos 64 anos de idade. Atualmente, sepultado no “Père-Lachaise”, o famoso cemitério monumental da Europa, seu túmulo tem sido o mais visitado e florido da localidade.

Acoplado ao jazigo, levantado à semelhança dos antigos os dólmens druídicos, por sobre sua campa, os espíritas belgas o presentearam com a inscrição na lápide: "Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei". Quinze dias após o sepultamento do mestre de Lyon , o senhor A. Guilbert, ao se dirigir aos membros da Comissão Diretora da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, ao qual presidia, advertiu que a tarefa de Kardec tinha complementado no corpo biológico, contudo, a empreitada de todos começava e impunha sérios deveres em face da grave responsabilidade.

Todos deveriam manter alta e firme a bandeira na qual O Codificador gravou, em caracteres indestrutíveis, os ensinos que encontram eco em todos os corações: “Fora da Caridade não há salvação”.

Ao sublime fâmulo de Jesus, a equipe do Portal Autores Espíritas Clássicos, pronunciamos com reverência e ternura:

MUITO OBRIGADO , ALLAN KARDEC!

Jorge Hessen "O Combativo Escritor Espírita" e Irmãos W.

Discurso Pronunciado

Junto ao Túmulo

EM NOME DA SOCIEDADE ESPÍRITA DE PARIS

Pelo Vice-Presidente, Sr. Levent

Senhores,

Em nome da Sociedade Espírita de Paris, da qual tenho a honra de ser Vice-Presidente, venho exprimir seu pesar pela perda cruel que acaba de sofrer, na pessoa de seu venerado mestre, Sr. Allan Kardec, morto subitamente anteontem, quarta-feira, nos escritórios da Revista.

A vós, senhores, que todas as sextas-feiras vos reuníeis na seda da Sociedade, não preciso lembrar essa fisionomia ao mesmo tempo benevolente e austera, esse tato perfeito, essa justeza de apreciação, essa lógica superior e incomparável que nos parecia inspirada.

A vós, que todos os dias da semana partilháveis dos trabalhos do mestre, não retraçarei seus labores contínuos, sua correspondência com as quatro partes do mundo, que lhe enviavam documentos sérios, logo classificados em sua memória e preciosamente recolhidos para serem submetidos ao cadinho de sua alta razão, e formar, depois de um trabalho escrupuloso de elaboração, os elementos dessas obras preciosas que todos conheceis.

Ah! se, como a nós, vos fosse dado ver esta massa de materiais acumulados no gabinete de trabalho desse infatigável pensador; se, conosco, tivésseis penetrado no santuário de suas meditações, veríeis esses manuscritos, uns quase terminados, outros em curso de execução, outros, enfim, apenas esboçados, espalhados aqui e ali, e que parecem dizer: Onde está, pois, o nosso mestre, tão madrugador no trabalho?

Ah! mais do que nunca, também exclamaríeis, com inflexões tão pesarosas de amargura que seriam quase ímpias:

Precisaria Deus ter chamado o homem, que ainda podia fazer tanto bem? a inteligência tão cheia de seiva, o farol, enfim, que nos tirou das trevas e nos fez entrever esse novo mundo, mais vasto e admirável do que o que imortalizou o gênio de Cristóvão Colombo? Ele apenas começara a fazer a descrição desse mundo, cujas leis fluídicas e espirituais já pressentíamos.

Mas, tranqüilizai-vos, senhores, por este pensamento tantas vezes demonstrado e lembrado pelo nosso presidente:

“Nada é inútil em a Natureza, tudo tem sua razão de ser, e o que Deus faz é sempre bem-feito.”

Não nos assemelhemos a esses meninos indóceis que, não compreendendo as decisões dos pais, se permitem criticá-los e por vezes mesmo censurá-los.

Sim, senhores, disto tenho a mais profunda convicção e vo-lo exprimo abertamente: a partida do nosso caro e venerado mestre era necessária!

Aliás, não seríamos ingratos e egoístas se, não pensando senão no bem que ele nos fazia, esquecêssemos o direito que ele adquirira, de ir repousar um pouco na pátria celestial, onde tantos amigos, tantas almas de escol o esperavam e vieram recebê-lo, após uma ausência, que também para eles parecia bem longa?

Oh! sim, há alegria, há grande festa no Alto, e essa festa, essa alegria, só se iguala à tristeza e ao luto causados por sua partida entre nós, pobres exilados, cujo tempo ainda não chegou! Sim, o mestre havia realizado a sua missão!

Cabe a nós continuar a sua obra, com o auxílio dos documentos que ele nos deixou, e daqueles, ainda mais preciosos, que o futuro nos reserva. A tarefa será fácil, ficai certos, se cada um de nós ousar afirmar-se corajosamente; se cada um de nós tiver compreendido que a luz que recebeu deve ser propagada e comunicada aos seus irmãos; se cada um de nós, enfim, tiver a memória do coração para o nosso lamentado presidente e souber compreender o plano de organização que levou o último selo de sua obra.

Continuaremos, pois, o teu trabalho, caro mestre, sob teu eflúvio benfazejo e inspirador. Recebe aqui a nossa promessa formal. É o melhor sinal de afeição que podemos te dar.

Em nome da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, não te dizemos adeus, mas até logo, até breve!

EM NOME DOS ESPÍRITAS DOS CENTROS DISTANTES

Pelo Sr. Alexandre Delanne

Mui caro Mestre,

Tantas vezes tive ocasião, nas minhas numerosas viagens, de ser junto a vós o intérprete dos sentimentos fraternos e reconhecidos de nossos irmãos da França e do estrangeiro, que julgaria faltar a um dever sagrado se, em nome deles, eu não viesse neste momento vos testemunhar o seu pesar.

Eu não serei, ai! senão um eco bem fraco para vos descrever a felicidade daquelas almas tocadas pela fé espírita, que se abrigaram sob a bandeira de consolação e de esperança que tão corajosamente implantastes entre nós.

Muitos dentre eles certamente desempenhariam, melhor que eu, essa tarefa do coração.

Como a distância e o tempo não lhes permitem estar aqui, ouso fazê-lo, conhecedor que sou da vossa benevolência habitual a meu respeito e a de nossos bons irmãos que represento.

Recebei, pois, caro mestre, em nome de todos, a expressão dos pesares sinceros e profundos que a vossa partida precipitada da Terra vai fazer nascer por todos os lados.

Conheceis, melhor que ninguém, a natureza humana; sabeis que ela precisa de amparo. Ide, pois, até eles, derramar ainda esperança em seus corações.

Provai-lhes, por vossos sábios conselhos e vossa lógica poderosa, que não os abandonais e que a obra a que vos dedicastes tão generosamente não perecerá, e nem poderia perecer, porque está assentada nas bases inabaláveis da fé raciocinada.

Pioneiro emérito, soubestes coordenar a pura Filosofia dos Espíritos e pô-la ao alcance de todas as inteligências, desde as mais humildes, que elevastes, até as mais eruditas, que vieram até vós e que hoje se contam modestamente em nossas fileiras. Obrigado, nobre coração, pelo zelo e pela perseverança que pusestes em nos instruir.

Obrigado por vossas vigílias e vossos labores, pela fé vigorosa que em nós inculcastes.

Obrigado pela felicidade presente que desfrutamos, e pela felicidade futura, cuja certeza nos destes, quando nós, como vós, tivermos entrado na grande pátria dos Espíritos.

Obrigado ainda pelas lágrimas que enxugastes, pelos desesperos que acalmastes e pela esperança que fizestes brotar nas almas abatidas e desalentadas.

Obrigado! mil vezes obrigado, em nome de todos os nossos confrades da França e do estrangeiro! Até breve.

Revista da Imprensa

A maioria dos jornais noticiou a morte do Sr. Allan Kardec, e alguns deles, ao simples relato dos fatos, acrescentaram comentários sobre o seu caráter e os seus trabalhos, que não caberiam aqui. Quando podia refutar vitoriosamente certas diatribes malsãs e mentirosas, o Sr. Allan Kardec sempre desdenhou fazer algo, considerando o silêncio como a mais nobre e a melhor das respostas.

A este respeito seguiremos seu exemplo, lembrando-nos, aliás, de que só se tem inveja das grandes personalidades e só se atacam as grandes obras, cuja vitalidade pode produzir sombra.

Mas, se os gracejos sem consistência não nos inquietaram, ficamos, ao contrário, profundamente tocados pela justiça feita em certo número de órgãos da imprensa à memória de nosso saudoso presidente. Pedimos-lhes que recebam aqui, em nome da família e dos espíritas do mundo inteiro, os testemunhos de nossa profunda gratidão.

Por falta de espaço, publicamos apenas dois desses artigos característicos, que provarão exuberantemente aos nossos leitores haver na Literatura e na Ciência homens que sabem, quando as circunstâncias o exigem, empunhar bem alto e corajosamente a bandeira que os reúne, numa ascensão comum para o progresso e a solidariedade universais.

JORNAL PARIS

(3 de abril de 1869)

“Aquele que, por tanto tempo, figurou no mundo científico sob o pseudônimo de Allan Kardec, tinha por nome Rivail e faleceu aos 65 anos.

“Vimo-lo deitado num simples colchão, no meio daquela sala de sessões que ele presidia há tantos anos; vimo-lo com o semblante calmo, como se extinguem os que a morte não surpreende, e que, tranqüilos quanto ao resultado de uma vida honesta e laboriosamente preenchida, deixam como que um reflexo da pureza de sua alma no corpo que abandonam à matéria.

“Resignados pela fé numa vida melhor e pela convicção da imortalidade da alma, numerosos discípulos vieram olhar pela última vez esse lábios descorados que, ainda ontem, lhes falavam a linguagem da Terra.

Mas já tinham a consolação de além-túmulo; o Espírito Allan Kardec viera dizer como tinha sido o seu desprendimento, quais as suas impressões primeiras, quais de seus predecessores na morte tinham vindo ajudar sua alma a desprender-se da matéria. Se ‘o estilo é o homem’, os que conheceram Allan Kardec vivo só podiam comover-se com a autenticidade dessa comunicação espírita.

“A morte de Allan Kardec é notável por uma estranha coincidência. A Sociedade formada por esse grande vulgarizador do Espiritismo acabava de chegar ao fim.

O local abandonado, os móveis desaparecidos, nada mais restava de um passado que devia renascer em bases novas. Ao fim da última sessão, o presidente tinha feito suas despedidas; cumprida a sua missão, ele se retirava da luta cotidiana para se consagrar inteiramente ao estudo da filosofia espiritualista. Outros, mais jovens – valentes! – deviam continuar a obra e, fortes de sua virilidade, impor a verdade pela convicção.

“Que adianta contar os detalhes da morte? Que importa a maneira pela qual o instrumento se quebrou, e por que consagrar uma linha a esses restos agora integrados no imenso movimento das moléculas? Allan Kardec morreu na sua hora. Com ele fechou-se o prólogo de uma religião vivaz que, irradiando cada dia, logo terá iluminado a Humanidade.

Ninguém melhor que Allan Kardec poderia levar a bom termo esta obra de propaganda, à qual fora preciso sacrificar as longas vigílias que nutrem o espírito, a paciência que educa com o tempo, a abnegação que afronta a estultícia do presente, para só ver a radiação do futuro.

“Por suas obras, Allan Kardec terá fundado o dogma pressentido pelas mais antigas sociedades. Seu nome, estimado como o de um homem de bem, desde muito tempo é divulgado pelos que crêem e pelos que temem. É difícil praticar o bem sem chocar os interesses estabelecidos.

“O Espiritismo destrói muitos abusos; – também reergue muitas consciências entristecidas, dando-lhes a convicção da prova e a consolação do futuro.

“Hoje os espíritas choram o amigo que os deixa, porque o nosso entendimento, demasiado material, por assim dizer, não pode dobrar-se a essa idéia da passagem; mas, pago o primeiro tributo à inferioridade do nosso organismo, o pensador ergue a cabeça para esse mundo invisível que sente existir além do túmulo e estende a mão ao amigo que se foi, convencido de que seu Espírito nos protege sempre.

“O presidente da Sociedade de Paris morreu, mas o número dos adeptos cresce dia a dia, e os valentes, cujo respeito pelo mestre os deixava em segundo plano, não hesitarão em afirmar-se, para o bem da grande causa.

“Esta morte, que o vulgo deixará passar indiferente, não deixa de ser, por isso, um grande fato para a Humanidade. Não é mais o sepulcro de um homem, é a pedra tumular enchendo o vazio imenso que o materialismo havia cavado aos nossos pés e sobre o qual o Espiritismo esparge as flores da esperança.

Pagès de Noyez

UNIÃO MAGNÉTICA

(10 de abril de 1869)

“Ainda uma morte, e uma morte que provocará um grande vazio nas fileiras dos adeptos do Espiritismo.

“Todos os jornais consagraram um artigo especial à memória desse homem que soube fazer-se um nome e sobressair se entre as celebridades contemporâneas.

“As relações estreitas que, em nossa opinião, existem muito certamente entre os fenômenos espíritas e magnéticos, impõe-nos o dever de recordar com simpatia um homem cujas crenças são partilhadas por certo número de nossos colegas e assinantes, e que havia tentado fazer passar por ciência uma doutrina da qual ele era, de certo modo, a viva personificação.

A. Bauche

Revista Espírita de Maio de 1869

Os Temas Tratados na Revista Espírita de 1869

 

 RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Revista Espírita - Índice Geral - (Edições 1858 a 1869) (Índice Temático para Consultar os Temas da Revistas Espíritas Compiladas por Allan Kardec)

 

Allan Kardec - Revista Espírita (FEB) - 1869 (Em PDF)