ALLAN KARDEC

Revista Espírita

(REVUE SPIRITE)

ano de 1863

EDITORA FEB

EM FORMATO PDF

 

Importante periódico mensal publicado sob a responsabilidade direta de Allan Kardec de 1858 a 1869.
Trechos da Revista Espírita:

Proibição de Evocar os Mortos

Alguns membros da Igreja apóiam-se na proibição de Moisés para proscrever as comunicações com os Espíritos; mas se sua lei deve ser rigorosamente observada neste ponto, deve sê-lo igualmente sobre os demais. Por que seria boa em relação às evocações e má em outras partes? É preciso ser conseqüente; se, para certas coisas, reconhece-se que sua lei já não se harmoniza com os nossos costumes e a nossa época, não há razão para que não se dê o mesmo com a proibição das evocações.

Aliás, é necessário nos reportarmos aos motivos que os levaram a fazer tal proibição, motivos que, então, tinham uma razão de ser, mas que, seguramente, hoje não mais subsistem. Quanto à pena de morte infringida a quem desrespeitasse essa proibição, forçoso é reconhecer que nisto Moisés era muito pródigo e que, na sua legislação draconiana, a severidade do castigo nem sempre era um indício da gravidade da falta.

O povo hebreu era turbulento, difícil de conduzir e não podia ser domado senão pelo terror. Por outro lado, Moisés não tinha grande escolha nos seus meios de repressão; não dispunha de prisões, nem de casas de correção e seu povo não era passível de sofrer o medo de penas puramente morais; assim, ele não podia graduar sua penalidade como se faz nos nossos dias.

Ora, por respeito à sua lei, seria preciso manter a pena de morte para todos os casos em que a aplicava? Aliás, por que ressuscitam esse artigo com tanta insistência, enquanto guardam silêncio sobre o começo do capítulo que proíbe aos sacerdotes a posse dos bens da Terra e de ter parte em qualquer herança, porque o próprio Senhor é a sua herança? (Deuteronômio, cap. XVIII).

Há duas partes distintas na lei de Moisés: a lei de Deus propriamente dita, promulgada no monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, apropriada aos costumes e ao caráter do povo; uma é invariável, a outra se modifica com o tempo.

A ninguém pode vir à mente que possamos ser governados pelos mesmos meios que os hebreus no deserto, assim como a legislação da Idade Média não poderia aplicar-se à França do século dezenove. Quem pensaria, por exemplo, em ressuscitar hoje este artigo da lei mosaica: “Se um boi fere com o chifre a um homem ou a uma mulher, e a pessoa morrer, o boi será lapidado sem remissão, ninguém comerá sua carne e seu dono será absolvido.” Ora, que diz Deus em seus mandamentos? “Não terás outro Deus senão eu; não tomarás o nome de Deus em vão; honra teu pai e tua mãe; não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não dirás falso testemunho; não cobiçarás os bens de teu próximo.”

Eis uma lei que é de todos os tempos e de todos os países, e que, por isto mesmo, tem caráter divino; mas não trata da proibição de evocar os mortos, donde forçoso é concluir que tal proibição era simples medida disciplinar e circunstancial.

Mas Jesus não veio modificar a lei mosaica, e sua lei não é o código dos cristãos? Não disse ele: “Ouvistes o que foi dito aos Antigos tal ou qual coisa; eu, porém, vos digo outra coisa?” Ora, em parte alguma do Evangelho se faz menção da proibição de evocar os mortos; é um ponto muito grave para que o Cristo o tivesse omitido em suas instruções, embora tenha tratado de questões de ordem bem mais secundária. Ou se deve pensar, como um eclesiástico a quem tal objeção foi feita, que “Jesus se esqueceu de falar nisso?”

Como o pretexto da proibição de Moisés é inadmissível, eles se apóiam na desculpa de que a evocação é uma falta de respeito aos mortos, cujas cinzas não devem ser perturbadas. Quando essa evocação é feita religiosamente e com recolhimento, não se pode falar em desrespeito; mas há uma resposta peremptória a dar a tal objeção: é que os Espíritos vêm de boa vontade quando chamados e, mesmo, espontaneamente, sem serem chamados; manifestam satisfação por se comunicarem com os homens e freqüentemente se queixam do esquecimento em que por vezes são deixados. Se fossem perturbados em sua quietude ou ficassem descontes com o nosso apelo, eles o diriam ou não viriam.

Se vêm, é porque isto lhes convém, pois não sabemos de ninguém que tenha o poder de constranger os Espíritos, seres impalpáveis, a se incomodarem, caso não o queiram, já que não os podemos prender ao corpo.

Alegam outra razão: as almas, dizem, estão no inferno ou no paraíso. As que estão no inferno dali não podem sair; as que estão no paraíso conservam-se em inteira beatitude e muito acima dos mortais para se ocuparem com eles. Resta as que estão no purgatório; mas estas são sofredoras e devem pensar antes de tudo em sua salvação. Portanto, se nenhuma delas pode vir, somente o diabo vem em seu lugar.

No primeiro caso seria muito racional supor que o demônio, autor e instigador da primeira revolta contra Deus, em perpétua rebelião e não experimentando arrependimento nem pesar pelo que faz, fosse mais rigorosamente punido do que as pobres almas por ele arrastadas ao mal e que, muitas vezes, são apenas culpadas de uma falta temporária que lhes causam amargos remorsos. Longe disso: é exatamente o contrário que acontece.

Essas almas infelizes são condenadas a sofrimentos atrozes, sem trégua nem mercê por toda a eternidade, sem um só instante de alívio e, durante esse tempo, o diabo, autor de todo o mal, goza de plena liberdade, corre o mundo recrutando vítimas, toma todas as formas, se permite todas as alegrias, faz traquinices, diverte-se até mesmo em interromper o curso das leis de Deus, já que pode fazer milagres.

Na verdade, restaria às almas culpadas invejar a sorte do diabo. E Deus o deixa agir, sem nada dizer, sem lhe opor nenhum freio, sem permitir aos Espíritos bons que ao menos venham contrabalançar suas ações criminosas! De boa-fé, isto é lógico? e os que professam tal doutrina podem jurar, com a mão na consciência, que a poriam no fogo para sustentar que é a verdade?

O segundo caso também levanta uma dificuldade muito grande. Se as almas que estão na beatitude não podem deixar sua venturosa morada para vir socorrer os mortais – o que, diga-se de passagem, seria uma felicidade muito egoísta – por que invoca a Igreja a assistência dos santos, que devem gozar da maior soma possível de beatitude? Por que diz ela aos fiéis que os invoquem nas doenças, nas aflições e para se preservarem dos flagelos? Por que, segundo ela, os santos, a própria Virgem, vêm mostrar-se aos homens e fazer milagres? Então eles deixam o Céu para vir à Terra?

Se o podem deixar, por que outros não o poderiam?

Como os motivos alegados para justificar a proibição de se comunicar com os Espíritos não suportam um exame sério, é preciso que haja outro, não confessado. Este motivo bem poderia ser o temor de que os Espíritos, muito clarividentes, viessem esclarecer os homens sobre certos pontos e lhes dar a conhecer exatamente como se passam as coisas no outro mundo e as verdadeiras condições para ser feliz ou infeliz. Eis por que se diz a uma criança: “Não vá lá; existe um lobisomem”; e se diz aos homens: “Não chameis os Espíritos; são diabos.” Providência inútil, porquanto, mesmo que se proíba os homens de chamar os Espíritos, não se impedirá que os Espíritos venham aos homens, tirar a lâmpada de debaixo do alqueire.

Allan Kardec - Outubro de 1863

Mensagens Psicografadas

Dissertações Espíritas

É permitido evocar os mortos, já que Moisés o proibiu?

(Bordeaux - Médium: Sra. Collignon)

Nota– Esta comunicação foi dada num grupo espírita de Bordeaux, em resposta à pergunta acima. Antes de a conhecer, tínhamos feito o artigo precedente, sobre o mesmo assunto. A despeito disto, nós a publicamos, precisamente por causa da concordância das idéias. Muitas outras, em diversos lugares, foram obtidas no mesmo sentido, o que prova a concordância dos Espíritos a este respeito. Esta objeção cairá por si mesma, visto não ser mais sustentável do que as demais que se opõem às relações com os Espíritos.

Será o homem tão perfeito que julgue inútil medir suas forças? e sua inteligência tão desenvolvida que possa suportar toda a luz?

Quando Moisés trouxe aos hebreus uma lei que os pudesse tirar do estado de escravidão em que viviam e neles reavivar a lembrança de Deus, que haviam esquecido, viu-se obrigado a lhes graduar a luz de acordo com a sua vista, e a ciência conforme sua capacidade de entendimento.

Por que também não perguntais: Por que Jesus se permitiu refazer a lei? Por que disse: “Moisés vos disse: Olho por olho, dente por dente; eu, porém, vos digo: Fazei o bem aos que vós querem mal; bendizei os que vos amaldiçoam, perdoai os que vos perseguem?”

Por que disse Jesus: “Moisés disse: Aquele que quiser deixar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo: Não separeis o que Deus uniu?”

Por quê? É que Jesus falava a Espíritos mais adiantados do que na encarnação em que se encontravam ao tempo de Moisés.

É que é preciso adaptar a lição à inteligência do aluno. É que vós, que perguntais, que duvidais, ainda não chegastes ao ponto em que deveis estar e ainda não sabeis o que sereis um dia.

Por quê? Então perguntai a Deus por que criou a erva do campo, da qual o homem civilizado da Terra chegou a fazer seu alimento? por que fez árvores que só deveriam crescer em certos climas, em certas latitudes e que o homem conseguiu aclimatar por toda parte?

Moisés disse aos hebreus:“Não evoqueis os mortos!” como se diz às crianças:“Não toqueis no fogo!”

Não foi a evocação entre os egípcios, os caldeus, os moabitas e todos os povos da antiguidade que, pouco a pouco, tinha degenerado em idolatria? Eles não tiveram força de suportar a ciência e se queimaram; mas quis o Senhor preservar alguns homens, a fim de que pudessem servir e perpetuar seu nome e sua fé.

Os homens eram pervertidos e predispostos às evocações perigosos. Moisés preveniu o mal. O progresso deveria ser feito entre os Espíritos, como entre os homens; mas a evocação ficou conhecida e praticada pelos príncipes da Igreja. A vaidade e o orgulho são tão velhos quanto a Humanidade; assim, os chefes da sinagoga usavam a evocação e, muitas vezes, a usavam mal; por isso, muitas vezes se abateu sobre eles a cólera do Senhor.

Eis por que disse Moisés: “Não evocai os mortos.” Mas a própria proibição provava que a evocação era usual entre o povo e era ao povo que ele a proibia.

Deixai, pois, falar, os que perguntam por quê? Abri-lhes a história do globo, que cobrem com seus passos miúdos, e perguntai-lhes por que, depois de tantos séculos acumulados, patinam tanto e avançam tão pouco? É que sua inteligência não está bastante desenvolvida; é que a rotina os constringe; é que querem fechar os olhos, apesar dos esforços feitos para lhos abrir.

Perguntai-lhes por que Deus é Deus? Por que o Sol os ilumina?

Que estudem, que busquem, e na história da antiguidade verão por que Deus quis que tal conhecimento em parte desaparecesse, a fim de renascer com mais brilho, na época em que os Espíritos encarregados de o trazer tivessem mais força e não falhassem sob o seu peso.

Não vos inquieteis, meus amigos, com perguntas ociosas e objeções sem motivo que vos fazem. Fazei sempre o que acabais de fazer: perguntai e responderemos com prazer. A ciência é de quem a busca e surge para se mostrar a quem a procura. A luz ilumina os que abrem os olhos, mas as trevas se condensam para os que os querem fechar. Não é aos que perguntam que se deve recusar, mas aos que fazem objeções com o único objetivo de extinguir a luz ou porque não ousam encará-la. Coragem, meus amigos, estamos prontos para vos responder todas as vezes que isto se tornar necessário.

Simeão, por Mathieu

Allan Kardec - Outubro de 1863

Os Temas Tratados na Revista Espírita de 1863

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Revista Espírita - Índice Geral - (Edições 1858 a 1869) (Índice Temático para Consultar os Temas da Revistas Espíritas Compiladas por Allan Kardec)

 

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