ALLAN KARDEC

Revista Espírita

(REVUE SPIRITE)

EDITORA FEB

ano de 1862

EM FORMATO PDF

 

Importante periódico mensal publicado sob a responsabilidade direta de Allan Kardec de 1858 a 1869.
Trechos da Revista Espírita:

 O que deve ser a História do Espiritismo

A propósito dessa história, sobre a qual dissemos algumas palavras, muitas pessoas nos perguntaram o que ela compreenderia e, a respeito, nos enviaram diversos relatos de manifestações. Aos que julgaram assim trazer uma pedra ao edifício, agradecemos a intenção, mas diremos que se trata de algo mais sério que um catálogo de fenômenos espíritas, encontrado em muitas obras.

Devendo o Espiritismo notabilizar-se nos fastos da Humanidade, será interessante para as gerações futuras saber por que meios ele se terá estabelecido. Será, pois, a história das peripécias que tiverem assinalado os seus primeiros passos; das lutas que tiver enfrentado; dos entraves que lhe terão suscitado; de sua marcha progressiva no mundo inteiro.

O verdadeiro mérito é modesto e não busca fazer-se valer. É preciso que a posteridade conheça os nomes dos pioneiros da obra, daqueles cujo devotamento e abnegação merecerão ser inscritos em seus anais; das cidades que marcharam na dianteira; dos que sofreram pela causa, a fim de que os abençoem, e dos que fizeram sofrer, para que orem, para que sejam perdoados; numa palavra, de seus verdadeiros amigos e de seus inimigos, confessos ou ocultos.

A intriga e a ambição não devem usurpar o lugar que lhes não pertence, nem um reconhecimento e uma honraria que lhes não são devidos. Se há Judas, forçoso é que sejam desmascarados. Uma parte não menos interessante é a das revelações que, sucessivamente, anunciaram todas as fases dessa nova era e os acontecimentos de toda ordem, que as acompanharam.

Aos que acharem presunçosa a tarefa, diremos que não temos outro mérito senão o de possuir, por nossa posição excepcional, documentos que não estão na posse de ninguém, e que se acham ao abrigo de quaisquer eventualidades; que, estando o Espiritismo sendo chamado a desempenhar um grande papel na História, importa que seu papel não seja desnaturado, e opor uma história autêntica às histórias apócrifas que o interesse pessoal poderia engendrar.

Quando aparecerá? Não será tão cedo e talvez não em nossa vida, pois essa obra não se destina a satisfazer a curiosidade do momento. Se dela falamos por antecipação, é para que ninguém se equivoque quanto ao seu objetivo e deixar clara a nossa intenção.

Aliás, o Espiritismo está debutando e muitas outras coisas haverão de acontecer até lá; e, depois, é preciso esperar que cada um tenha tomado o seu lugar, certo ou errado.

Allan Kardec - Outubro de 1862

Mensagens Psicografadas

Ensinos e Dissertações Espíritas

A FÉ, A ESPERANÇA E A CARIDADE

(Bordeaux. Médium: Sra. Cazemajoux)

 

A FÉ

Sou a irmã mais velha da Esperança e da Caridade; chamo-me Fé.

Sou grande e forte. Aquele que me possui não teme nem o ferro, nem o fogo: é à prova de todos os sofrimentos físicos e morais. Irradio sobre vós com um facho cujos jatos cintilantes se refletem no fundo de vossos corações e vos comunico a força da vida. Dizem, entre vós, que transporto montanhas; eu, porém, vos digo: Venho erguer o mundo, porquanto o Espiritismo é a alavanca que me deve auxiliar. Uni-vos a mim; venho convidar-vos: sou a Fé.

Sou a Fé! Moro com a Esperança, a Caridade e o Amor no mundo dos Espíritos Puros. Muitas vezes deixei as regiões sublimadas e vim à Terra para vos regenerar, dando-vos a vida do Espírito.

Mas, excetuando os mártires dos primeiros tempos do Cristianismo e, de vez em quando, alguns fervorosos sacrifícios ao progresso da ciência, das letras, da indústria e da liberdade, só encontrei entre os homens indiferença e frieza, retomando tristemente o meu vôo para o céu. Julgais-me em vosso meio, mas vos enganais, porque a Fé sem obras é um simulacro de Fé. A verdadeira Fé é vida e ação.

Antes da revelação espírita a vida era estéril; era uma árvore que, ressequida pelos raios, não produzia nenhum fruto.

Reconhecem-me por meus atos: ilumino as inteligências, aqueço e fortaleço os corações; afasto para longe de vós as influências enganosas e vos conduzo a Deus pela perfeição do espírito e do coração. Vinde abrigar-vos sob a minha bandeira; sou poderosa e forte: eu sou a Fé.

Sou a Fé e o meu reino começa entre os homens; reino pacífico, que os tornará felizes no presente e na eternidade. A aurora do meu advento entre vós é pura e serena; seu sol será resplandecente e seu crepúsculo virá docemente embalar a Humanidade nos braços de eternas felicidades. Espiritismo! derrama sobre os homens o teu batismo regenerador. Eu lhes faço um apelo supremo: eu sou a Fé.

Georges,
Bispo de Périgueux

A ESPERANÇA

Meu nome é esperança. Sorrio à vossa entrada na vida; sigo-vos passo a passo e não vos deixo senão nos mundos onde para vós se realizam as promessas de felicidade, incessantemente murmuradas aos vossos ouvidos. Sou vossa fiel amiga; não repilais minhas inspirações: eu sou a Esperança.

Sou eu que canto pela voz do rouxinol e que faço ecoar nas florestas essas notas lamentosas e cadenciadas que vos fazem sonhar com o céu; sou eu que inspiro à andorinha o desejo de aquecer os seus amores no abrigo de vossas moradas; brinco na brisa ligeira que acaricia os vossos cabelos; espalho aos vossos pés o suave perfume das flores dos vossos jardins, e quão pouco pensais nessa amiga que vos é tão devotada! Não a repilais: é a Esperança.

Tomo todas as formas para me aproximar de vós. Sou a estrela que brilha no azul; o cálido raio de sol que vos vivifica; embalo as vossas noites com sonhos alegres; expulso para longe as negras preocupações e os pensamentos sombrios; guio os vossos passos para a senda da virtude; acompanho-vos nas visitas aos pobres, aos aflitos, aos moribundos e vos inspiro palavras afetuosas, que consolam. Não me repilais: eu sou a Esperança!

Eu sou a esperança! Sou eu que, no inverno, faço crescer na casca dos carvalhos o musgo espesso com que os passarinhos constroem seus ninhos; sou eu que, na primavera, corôo a macieira e a amendoeira de flores brancas e rosas e as espalho sobre a terra como uma juncada celeste, que faz aspirar aos mundos felizes; sobretudo estou convosco quando sois pobres e sofredores; minha voz ressoa incessantemente aos vossos ouvidos.

Não me repilais: eu sou a Esperança.

Não me repilais, porque o anjo do desespero me faz uma guerra obstinada e se consome em vãos esforços para tomar o meu lugar junto de vós. Nem sempre sou a mais forte e, quando ele consegue me afastar, vos envolve com as suas fúnebres asas, desvia os vossos pensamentos de Deus e vos arrasta ao suicídio. Uni-vos a mim para afastar sua funesta influência e vos deixai embalar docemente em meus braços, porque eu sou a Esperança.

Felícia,
Filha do médium

A CARIDADE

Eu sou a Caridade. Em nada me assemelho à caridade cujas práticas seguis. Aquela que entre vós usurpou o meu nome é fantasista, caprichosa, exclusiva, orgulhosa; venho vos prevenir contra os defeitos que, aos olhos de Deus, diminuem o mérito e o brilho de suas boas ações. Sede dóceis às lições que o Espírito de Verdade vos dá por minha voz. Segui-me, meus fiéis: eu sou a Caridade.

Segui-me. Conheço todos os infortúnios, todas as dores, todos os sofrimentos, todas as aflições que assediam a Humanidade. Sou a mãe dos órfãos, a filha dos idosos, a protetora e sustentáculo das viúvas; penso as chagas infectadas; curo todas as doenças; dou roupas, pão e um abrigo aos que não os têm; subo às mais miseráveis águas-furtadas, às mais humildes mansardas; bato à porta dos ricos e poderosos, porque, onde quer que viva uma criatura humana, sempre existirá, sob a máscara da felicidade, as mais amargas e acerbas dores. Oh! quão grande é a minha tarefa!

Não poderei cumpri-la se não vierdes em meu auxílio. Vinde a mim: eu sou a Caridade.

Não tenho preferência por ninguém. Jamais digo aos que necessitam de mim: “Tenho os meus pobres; procurai alhures.” Oh! falsa caridade, quantos males provocas! Amigos, nós nos devemos a todos. Crede-me: não recuseis vossa assistência a ninguém; socorrei-vos uns aos outros com bastante desinteresse para não exigir nenhum reconhecimento de parte dos que tiverdes socorrido. A paz do coração e da consciência é a doce recompensa de minhas obras: eu sou a verdadeira Caridade.

Ninguém conhece na Terra o número e a natureza de meus benefícios. Só a falsa caridade fere e humilha aqueles a quem alivia. Acautelai-vos contra esse funesto desvio; as ações desse gênero não têm nenhum mérito perante Deus e atraem sobre vós a sua cólera. Só Ele deve saber e conhecer os generosos impulsos de vossos corações quando vos tornais os dispensadores de seus benefícios. Guardai-vos, pois, amigos, de dar publicidade à prática da assistência mútua; não mais lhe deis o nome de esmola. Crede em mim: eu sou a Caridade.

Tenho tantos infortúnios a aliviar que muitas vezes fico com o colo e as mãos vazios; venho dizer-vos que espero em vós.

O Espiritismo tem por divisa Amor e Caridade; e todos os verdadeiros espíritas quererão, no futuro, conformar-se a esse sublime preceito pregado pelo Cristo há dezoito séculos. Segui-me, pois, irmãos; eu vos conduzirei ao reino de Deus, nosso pai. Eu sou a Caridade.

Adolfo,
Bispo de Argel

Allan Kardec - Fevereiro de 1862

Os Temas Tratados na Revista Espírita de 1862

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Revista Espírita - Índice Geral - (Edições 1858 a 1869) (Índice Temático para Consultar os Temas da Revistas Espíritas Compiladas por Allan Kardec)

 

Allan Kardec - Revista Espírita (FEB) - 1862 (Em PDF)