ALLAN KARDEC

Revista Espírita

(REVUE SPIRITE)

ano de 1860

EDITORA FEB

EM FORMATO PDF

 

Importante periódico mensal publicado sob a responsabilidade direta de Allan Kardec de 1858 a 1869.
Trechos da Revista Espírita:

Lembrança de uma existência anterior

(Sociedade, 25 de maio de 1860)

Um dos nossos assinantes nos envia uma carta de um de seus amigos, da qual extraímos o seguinte trecho:

“Perguntastes a minha opinião, ou melhor, a minha crença, na presença ou não, junto a nós, das almas dos que amamos.

Pedis, também, algumas explicações relativas à minha convicção de que nossas almas mudam de envoltório com muita rapidez.

“Por mais ridículo que pareça, direi que guardo a sincera convicção de ter sido assassinado durante os massacres de São Bartolomeu. Eu era muito criança quando tal lembrança veio ferir a minha imaginação.

Mais tarde, ao ler essa triste página de nossa História, pareceu que muitos detalhes me eram conhecidos, e ainda creio que, se a velha Paris pudesse ser reconstruída, eu reconheceria aquela alameda sombria, onde, fugindo, senti o frio de três punhaladas nas costas. Há detalhes desta cena sangrenta que se conservam na minha memória e que jamais desapareceram.

Por que tinha eu essa convicção antes de saber o que tinha sido a noite de São Bartolomeu? Por que, ao ler o relato desse massacre, perguntei a mim mesmo: é meu sonho, esse sonho desagradável que tive em criança, cuja lembrança me ficou tão viva? Por que, quando quis consultar a memória, forçar o pensamento, fiquei como um pobre louco ao qual surge uma idéia e que parece lutar para lhe descobrir a razão? Por quê? Nada sei. Por certo me achareis ridículo, mas nem por isso guardarei menos a lembrança, a convicção.

“Se vos dissesse que eu tinha sete anos quando tive um sonho assim: Eu tinha vinte anos, era jovial, bem-posto, e penso que rico. Vim bater-me em duelo e fui morto.

Se dissesse que a saudação feita com a arma, antes de me bater, eu a fiz pela primeira vez que tive um florete na mão; se dissesse que cada preliminar mais ou menos graciosa que a educação ou a civilização pôs na arte de se matar me era desconhecida antes de minha educação nas armas, diríeis, sem dúvida, que sou louco ou maníaco. Bem pode ser; mas às vezes me parece que um clarão penetra nesse nevoeiro e tenho a convicção de que a lembrança do passado se restabelece em minha alma.

“Se me perguntásseis se creio na simpatia entre as almas, em seu poder de se porem em contato entre elas, malgrado a distância, apesar da morte, eu vos responderia: Sim; e este sim seria pronunciado com toda a força de minha convicção.

Aconteceu encontrar-me a vinte e cinco léguas de Lima, após oitenta e seis dias de viagem, e despertar em lágrimas, com uma verdadeira dor no coração; uma tristeza mortal apoderou-se de mim durante todo o dia. Anotei o fato em meu diário. Àquela hora, na mesma noite, meu irmão foi acometido por um ataque de apoplexia, que comprometeu gravemente a sua vida. Confrontei o dia, o instante: tudo era exato. Eis um fato; as pessoas existem.

Direis que sou louco?

“Não li nenhum autor que tenha tratado de semelhante assunto. Fa-lo-ei quando retornar. Talvez dessa leitura possa jorrar um pouco de luz para mim.”

O Sr. V..., autor desta carta, é oficial da marinha e atualmente em viagem. Poderia ser interessante ver se, evocando-o, confirmaria as suas lembranças; mas haveria a impossibilidade de o prevenir de nossa intenção e, por outro lado, considerando-se a sua profissão, poderia ser difícil encontrar o momento propício.

Todavia, disseram-nos que chamássemos o seu anjo-da-guarda, quando quiséssemos evocá-lo, e ele nos diria se poderíamos fazê-lo.

1. Evocação do anjo-da-guarda do Sr. V...

Resp. – Atendo ao vosso chamado.

2. Conheceis o motivo que nos leva a desejar evocar o vosso protegido. Não se trata de satisfazer uma vã curiosidade, mas de constatar, se for possível, um fato interessante para a ciência espírita: o da recordação de sua existência anterior.

Resp. – Compreendo o vosso desejo, mas neste momento seu Espírito não se acha livre; está ativamente ocupado pelo corpo e numa inquietação moral que o impede de repousar.

3. Ainda está no mar?

Resp. – Está em terra; mas poderei responder a algumas perguntas, porque aquela alma foi sempre confiada à minha guarda.

4. Já que tendes a bondade de responder, perguntaremos se a lembrança que ele julga ter conservado de sua morte numa existência anterior é uma ilusão.

Resp. – É uma intuição muito real. Na época essa pessoa vivia muito bem na Terra.

5. Por que motivo essa lembrança lhe é mais precisa do que para outros? Há nisso uma causa fisiológica ou uma utilidade particular para ele?

Resp. – Essas lembranças vivazes são muito raras.

Dependem um pouco do gênero de morte, que de tal modo o impressionou que está, por assim dizer, encarnado em sua alma.

Entretanto, muitas outras criaturas tiveram mortes igualmente terríveis, mas a lembrança não lhes ficou. Só raramente Deus o permite.

6. Depois dessa morte, ocorrida na noite de São Bartolomeu, teve ele outras existências?

Resp.– Não.

7. Que idade tinha quando morreu?

Resp. – Uns trinta anos.

8. Pode-se saber o que ele era?

Resp. – Era ligado à casa de Coligny.

9. Se tivéssemos podido evocá-lo, ter-lhe-íamos perguntado se recorda o nome da rua onde foi assassinado, a fim de ver se, indo a esse local, quando voltar a Paris, a lembrança da cena lhe será ainda mais precisa.

Resp. – Foi no cruzamento de Bucy.

10. A casa onde foi morto ainda existe?

Resp. – Não; foi reconstruída.

11. Com o mesmo objetivo teríamos perguntado se recorda o nome que tinha.

Resp. – Seu nome não é conhecido na História, pois era simples soldado. Chamava-se Gaston Vincent.

12. Seu amigo, aqui presente, gostaria de saber se ele recebeu suas cartas.

Resp. – Ainda não.

13. Éreis seu anjo-da-guarda naquela época?

Resp. – Sim, então e agora.

Observação – As pessoas cépticas, mais brincalhonas do que sérias, poderiam dizer que seu anjo-da-guarda o protegeu mal e perguntar por que não desviou a mão que o feriu. Embora semelhante questão mereça apenas uma resposta, algumas palavras a respeito talvez não sejam inúteis.

Primeiramente diremos que, estando o morrer na natureza do homem, não está no poder de nenhum anjo-da-guarda opor-se ao curso das leis da Natureza. Do contrário, não haveria razão para que também não impedissem a morte natural, tanto quanto a acidental.

Em segundo lugar, estando o momento e o gênero de morte no destino de cada um, é preciso que esse destino se cumpra. Finalmente, diremos que os Espíritos não encaram a morte como nós: a verdadeira vida é a do Espírito, da qual as diversas existências corporais não passam de episódios.

O corpo é um invólucro que o Espírito reveste momentaneamente e deixa como uma roupa usada ou rasgada. Pouco importa, pois, que se morra um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, desta ou daquela maneira, pois que, em última análise, sempre é preciso que se chegue lá, e essa morte, longe de prejudicar o Espírito, pode ser-lhe bastante útil, conforme a maneira por que se realiza. É o prisioneiro que deixa sua prisão temporária para fruir a liberdade eterna.

Pode ser que o fim trágico de Gaston Vincent tenha sido uma coisa útil para ele, como Espírito, o que seu anjo-da-guarda compreendia melhor que ele, porquanto um, não via senão o presente, ao passo que o outro vislumbrava o futuro. Espíritos retirados deste mundo por uma morte prematura, na flor da idade, muitas vezes nos responderam que era um favor de Deus, que, assim, os havia preservado dos males aos quais, sem isto, estariam expostos.

Mensagem Psicografada

Os sinos

(Obtida pelo Sr. Pécheur, 13 de janeiro de 1860)

Podes dizer-me por que sempre gostei de ouvir o som dos sinos? É que a alma do homem, que pensa e sofre, busca sempre se desprender quando experimenta essa felicidade muda, que em nós desperta vagas lembranças de uma vida passada. É que tal som é uma tradução da palavra do Cristo, que vibra no ar há dezoito séculos: é a voz da esperança. Quantos corações consolou!

Quanta força deu à Humanidade crente! Essa voz divina apavorou os grandes da época: eles a temeram, porque a verdade que haviam abafado os fez tremer. O Cristo a mostrava a todos; mataram o Cristo, mas não a idéia.

Sua palavra sagrada tinha sido compreendida; era imortal e, no entanto, quantas vezes a dúvida se insinuou em vossos corações! Quantas vezes o homem acusou a Deus de ser injusto! Exclamava: Meu Deus, que fiz eu? A desgraça marcou-me no berço? Estou, pois, destinado a seguir esta via que me dilacera o coração? Parece que uma fatalidade se liga a meus passos; sinto que as forças me abandonam; vou me aniquilar nesta vida.

Neste momento, Deus faz penetrar em vosso coração um raio de esperança; uma mão amiga vos retira a venda do materialismo, que vos cobre os olhos; uma voz dos céus vos diz:

Olha no horizonte aquele foco luminoso: é um fogo sagrado que emana de Deus; essa chama deve iluminar o mundo e o purificar; deve fazer penetrar sua luz no coração do homem e dele expulsar as trevas que obscurecem seus olhos. Alguns homens pretenderam vos trazer a luz; entretanto, não produziram senão um nevoeiro, que fez perder-se o reto caminho.

Não sejais cegos, vós a quem Deus mostra a luz. É o Espiritismo que vos permite levantar a ponta do véu que cobria o vosso passado. Olhai agora o que fostes e julgai. Curvai a cabeça ante a justiça do Criador.

Rendei-lhe graças por vos dar coragem para continuar a prova que escolhestes. Disse o Cristo: Aquele que usar a espada morrerá pela espada. Esse pensamento, inteiramente espírita, encerra o mistério de vossos sofrimentos. Que a esperança e a bondade de Deus vos dê a coragem e a fé; escutai sempre esta voz que vibra em vossos corações.

Cabe a vós compreender, estudar com sabedoria, elevar vossa alma em pensamentos fraternos. Que o rico estenda a mão ao que sofre, pois a riqueza não lhe foi dada para os prazeres pessoais, mas para que seja o seu dispensador; e Deus lhe pedirá contas do uso que dela tiver feito.

A única riqueza que Deus reconhece são as vossas virtudes; a única que levareis ao deixar este mundo. Deixai falar esses pretensos sábios, que vos chamam de loucos. Amanhã – quem sabe? – talvez vos peçam para orar por eles, pois Deus os julgará.

Tua filha, que te ama e ora por ti

(Allan Kardec)

Os Temas Tratados na Revista Espírita de 1860

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Revista Espírita - Índice Geral - (Edições 1858 a 1869) (Índice Temático para Consultar os Temas da Revistas Espíritas Compiladas por Allan Kardec)

 

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