Paulo Neto

 

Refutação das críticas contra o Espiritismo - ALLAN KARDEC

 

(Os apontamentos do Codificador, contidos na coleção da Revista Espírita)  

 

 

(A DEFESA DOS POSTULADOS ESPÍRITAS)

 

Prefácio:

 

Paulo da Silva Neto Sobrinho, mineiro de Guanhães, pesquisador de robusta inteligência, infatigável divulgador do Espiritismo,autor de vários livros, elencou na obra “Refutação das Críticas contra o Espiritismo” os apontamentos do Codificador, contidos na coleção da Revista Espírita. Listou ainda, reforçadas narrativas dos evangelistas, mirando comprovar que Jesus jamais contemporizou com os agressivos opositores. Evidencia com rara precisão que as lideranças religiosas da época (escribas, fariseus, saduceus, sacerdotes e anciãos do povo) não deram tréguas a Jesus e o Mestre jamais ficou silencioso, rebatendo amorosa e energicamente os adversários da Boa Nova.

 

Destaca que o mestre lionês desejou publicar uma obra sobre o assunto, todavia, não logrou levar avante o projeto. Deste modo, Paulo Neto examinou nos exemplares da Revista Espírita todas as “falas” de Kardec e as de outros autores que refutam as críticas contra o Espiritismo, o que inspirou a confecção de “Refutação das Críticas…” a cujo prefácio nos confiou.

 

Como disse, o autor é um dos intelectuais espíritas que mais apreciamos, pela capacidade de reunir e divulgar pujantes mananciais doutrinárias, tendo em mira o oportuno debate sobre diversas questões controversas. Nesse caso e por não se conformar com a inércia da liderança do movimento espírita atual, em relação aos ataques ao Espiritismo, propõe responder aos adversários com inteligência, altivez e decoro.

 

Por muitos anos manteve silêncio sobre a questão da defesa doutrinária, lembra Paulo Neto no transcurso da obra, porém, agora, deliberou advogar os princípios da Terceira Revelação ante os contumazes contendores, assegurando que nem Jesus e nem Kardec emudeceram diante dos inimigos da Verdade.

 

Sentindo-nos intensamente honrado ao anotar este desvalido introito, confessamos que nos deparamos diante de admirável conteúdo provindo de corajosa escavação doutrinária, certamente um dos mais extraordinários documentos espíritas que lemos sobre matéria tão infrequente.

 

Brasília, 13 de junho de 2014.

 

Jorge Hessen

 

Introdução:

 

Desde há muito tempo temos observado a inércia do movimento espírita em relação aos ataques de detratores, uma vez que não víamos ninguém se preocupando em respondê-los à altura; evidentemente, isso feito dentro de princípios éticos e com urbanidade.

 

Ao comentar isso com os amigos duas respostas se apresentavam: com a primeira justificavam dizendo que Jesus ficava calado, enquanto que, pela segunda, diziam que era Kardec que não rebatia as críticas. Ouvíamos essas respostas, mas nós continuávamos indignados com essa situação. Para resolver esse impasse é que fizemos esse trabalho, e esperamos que, apesar de modesto, possa sensibilizar o maior número possível de Espíritas, inclusive aqueles que comandam os destinos das instituições representativas do nosso movimento.

 

O que mostraremos nada tem de novidade para os que já leram todos os volumes da Revista Espírita, editadas por Kardec durante o período de 1858 a 1869, nas quais se poderá ver todo o material que apresentaremos.

 

O título desse trabalho não é nosso, mas sim de Kardec, conforme pode ser comprovado na Revista Espírita, da qual transcrevemos este aviso feito em dezembro de 1861:

 

Aviso

 

[…] Novas obras do Sr. ALLAN KARDEC devendo aparecer proximamente.

 

O ESPIRITISMO EM SUA MAIS SIMPLES EXPRESSÃO; brochura destinada a popularizar os elementos da Doutrina Espírita. Ela será vendida a 25c.

 

REFUTAÇÃO DAS CRÍTICAS CONTRA O ESPIRITISMO; do ponto de vista do Materialismo, da Ciência e da Religião. Esta última parte terá todos os desenvolvimentos necessários. Ela conterá a resposta à brochura do Sr. cura Marouzeau.

 

(KARDEC, A, Revista Espírita 1861, vol. IV, Araras, SP: IDE, 1993,p. 369,grifo do original).

 

Infelizmente o codificador não publicou essa última obra, apesar de não ter deixado de dar uma resposta à altura ao cura citado. Em a Viagem Espírita em 1862, Kardec explica o porque não levou adiante esse projeto:

 

Anunciamos a edição de um pequeno volume intitulado “Refutações”. Não o publicamos até hoje porque não nos pareceu que ninguém se revelava especialmente interessado nele. E essa impressão se justificou.

 

Antes de responder a certas brochuras que deveriam, conforme as afirmativas de seus autores, fazer ruir os fundamentos do Espiritismo, preferimos esperar e verificar o efeito que teriam.

 

Pois muito bem! Nossa viagem nos convenceu de uma coisa: elas nada fizeram ruir! É fácil supor que, nos círculos aos quais eram endereçadas e em cujas portas não batemos, são tidas como irrefutáveis. E com certeza, diz-se que nosso silêncio é a prova de nossa impossibilidade de respondê-las. Daí concluem que fomos duramente batidos, fulminados e arrasados. Que nos importa isso desde que não fomos atingidos? Esses escritos fizeram diminuir o número dos espíritas?

 

Não! Nossa resposta teria convertido essas pessoas? Não! Onde, pois, a utilidade de refutá-las? Havia, pelo contrário, vantagem em deixar que os nossos adversários disparassem o primeiro tiro. (KARDEC, 2000d,p. 37-38, grifo nosso).

 

Se bem que a utilidade da refutação a que mencionamos linhas acima não nos tenha sido, até hoje, claramente demonstrada, já que os ataques se refutam por si mesmos, pela insignificância de seus resultados, enquanto os adeptos do Espiritismo crescem em número, ainda assim estaríamos dispostos a levá-la a efeito. Todavia, as observações que fizemos em viagem modificaram o nosso plano, pois que muitas coisas se nos revelam inúteis, ao mesmo tempo em que novas ideias nos são sugeridas.

 

Disporemos para que essa tarefa retarde o menos possível os trabalhos bem mais importantes que nos restam a fazer para completar a obrar pela qual nos responsabilizamos. (KARDEC, 2000d, p. 40, grifo nosso).

 

A impressão que se tem dessas falas é que Kardec, nada refutou, porém, não foi isso que aconteceu, pois na Revista Espírita temos em todos os volumes artigos refutando os ataques. Foi exatamente o que, em Viagem Espírita em 1862, ele disse que faria:

 

Quanto aos críticos honestos, de boa-fé, que comprovam sua arte de viver pela urbanidade das expressões, estes colocam a ciência acima de questões pessoais. A eles muitas vezes respondemos, quando não diretamente, pelo menos no ensejo de nossos artigos, em que são abordadas questões em controvérsia. E isso de tal forma que – julgamos –, para quem quer que não esteja sem refutação.

 

Para responder a cada um, individualmente, fora preciso repetir, incessantemente, a mesma coisa e, com serventia para uma única pessoa. O tempo, ademais, não nos permitiria essa façanha, enquanto que, aproveitando um assunto que se nos apresenta para refutá-lo ou dar a seu respeito uma explicação, conseguimos, a mais das vezes, colocar o exemplo ao lado da teoria, e isso é de proveito geral. (KARDEC, 2000d, p. 37, grifo nosso).

 

Então, percebemos que Kardec só gastou seu tempo em responder aos “críticos honestos”, aos outros deixou-os entregues a si mesmo:

 

Quando as coisas caminham por si sós, por que, então, disputar e combater em lutas infrutíferas? Quando um exército verifica que as balas do inimigo não o atingem, ele o deixa atirar ao seu bel prazer e desperdiçar suas munições, certo de obter uma vantagem depois. Em semelhantes circunstâncias, o silêncio é, muitas vezes, um recurso astucioso. O adversário, ao qual não se responde, acredita não haver ferido bastante profundamente ou não ter encontrado o ponto vulnerável.

 

Então, confiando no êxito que supõe fácil, ele se descobre e cai por si mesmo. Uma resposta imediata o teria posto em guarda. O melhor general não é o que se atira, de peito aberto, na confusão da batalha, mas o que sabe esperar e estudar as aproximações. Foi o que sucedeu a alguns dos nossos antagonistas: observando o caminho por que se enveredavam, era fácil ver que se comprometiam cada vez mais. Apenas os deixamos à vontade. E eles, mais cedo do que se esperava, desacreditaram o que defendiam à força de seus próprios exageros, resultados esses que não teríamos alcançado através de nossa argumentação.

 

“Entretanto – dizem os que pretendem críticos de boa-fé –, nossa única preocupação é a de esclarecer e, se atacamos, não é absolutamente por hostilidade, partidarismo ou malquerença, mas para que,da discussão, jorre a luz”. Entre esses críticos há, certamente, os que são sinceros. Mas, é preciso notar que os que têm em vista apenas questões de princípios discutem com calma e mantêm sempre o decoro. Ora, quantos deste tipo podemos encontrar? O que contém a maior parte dos artigos que a grande ou pequena impressa tem dirigido contra o Espiritismo? Diatribes, facécias geralmente pouco espirituosas, tolices e ironias chãs, muitas vezes injúrias que se caracterizam pela grosseria e banalidade.

 

Serão estes críticos sérios, dignos de uma resposta? Há os que se põem a descoberto com tanta inabilidade que se torna inútil desmascará-los, pois que toda a gente percebe-lhe as intenções. Seria, em realidade, dar-lhes demasiada importância, e vale mais, pois, deixar que se deem as mãos, em seu pequeno círculo, do que pô-los em evidência através de polêmicas sem objetivo, já que não os convenceriam.

 

Se a moderação não estivesse em nossos princípios – pois que constitui uma consequência mesma da doutrina espírita, que prescreve o esquecimento e o perdão às ofensas –, seríamos encorajados a empregá-la pela simples verificação do efeito produzido por esses ataques, constatando que a opinião pública melhor nos vinga do que jamais nossas palavras tê-lo-iam podido fazer. (KARDEC, 2000d,p.36-37, grifo nosso).

 

E, finalizando as transcrições de Viagem Espírita em 1862, vejam o que Kardec confessa, por ser algo bem interessante:

 

Os ataques pessoais nunca nos abalaram. Coisa diversa entretanto ocorreu relativamente àqueles que são dirigidos contra a Doutrina. Algumas vezes respondemos diretamente a certas críticas, quando isso nos pareceu necessário e a fim de provar que, se preciso, sabemos também lutar. E isso teríamos feito, sem dúvida, muitas vezes, se constatássemos que esses ataques traziam prejuízo real ao Espiritismo. Mas, quando ficou provado pelos fatos que, longe de enodoado, prestavam-se à causa que defendia, louvamos a sabedoria dos Espíritos que empregavam seus próprios inimigos para propagar o Espiritismo, fazendo a ideia combatida penetrar em círculos onde jamais teria penetrado pelo elogio. Este é um fato que nossa viagem nos demonstrou de maneira peremptória, uma vez que, nesses mesmos círculos, o Espiritismo veio a recrutar vários partidários. (KARDEC, 2000d, p. 36, grifo nosso).

 

Paulo Neto

Ver no site as obras publicadas no site por Paulo Neto

 

Fontes: Portal Paulo Neto (O Grande Articulista Espírita)

 

Fontes: A Luz na Mente - Revista On line Artigos Espiritas (Coleção de “Livros” (E Books) Gratuitos - Jorge Hessen)

 

 

"A coragem das opiniões sempre mereceu a consideração dos homens, porque é prova de dignidade enfrentar os perigos,as perseguições, as discussões, e até mesmo os simples sarcasmos, aos quais sempre se expõe aquele que não teme confessar abertamente ideias que não são admitidas por todos. Nisto, como em tudo, o mérito está na razão das circunstâncias e dos resultados que podem advir. Há sempre fraqueza em recuar diante das consequências da sustentação das opiniões,mas há casos em que isso equivale a uma covardia tão grande como a de fugir no momento do combate"

 

Allan Kardec "O Codificador da Doutrina Espírita"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Paulo Neto - Refutação das críticas contra o Espiritismo - Allan Kardec