ERMANCE DUFAUX

JOANA D’ARC POR ELA MESMA

 

ERMANCE DUFAUX

Idade: 14 anos

 

ERMANCE DUFAUX DE LA JONCHÈRE

HISTOIRE DE JEANNE D’ARC, DICTÉE PAR ELLE-MÊME

 Impresso por H. Carion

64, rue Bonaparte, (próximo à Praça Saint-Sulpice)

Paris (1855)

Prefácio da obra:

Filha de um simples agricultor, minha vida deveria ter sido calma e pacata, como o riacho desconhecido que corre sobre a relva; mas não foi assim: Deus não o quis.

Não foi a ambição, mas sim as imperiosas ordens do céu que me fizeram sair de minha humilde condição. A meus olhos, as flores dos campos eram mil vezes mais bonitas que todas as joias de um rei, e eu achava que a glória era como uma chama que queima a borboleta que ousa aproximar-se.

Não me orgulho de minha missão, eu a vejo como uma gota de orvalho caída por acaso numa folha, da qual ela logo escorrerá para se evaporar coma suas semelhantes.

Tão logo esta carreira me foi indicada, mil obstáculos surgiram para me desencorajar: eu duvidava do céu e de mim mesma, Deus, porém, não me abandonou, novas visões vieram me fortalecer; Ele queria somente me mostrar que, sem Ele, eu nada poderia; eu era como as rodas que fazem avançar a carroça, mas que são inúteis se uma força estranha não as impulsiona.

Ele queria retirar do meu coração o orgulho que teria se apoderado de mim, caso sua previdente solicitude não me tivesse advertido de minha fraqueza. Ver minha pátria livre das amarras vergonhosas que a mantinham cativa: esse era o mais doce sonho da minha jovem Vida. Uma vaga tradição da casa paterna dizia que uma mulher realizaria esse sonho, e o Todo Poderoso, através de um milagre, me informava que essa mulher era eu! ... Eu, humilde virgem de Domremy!...
Apresentação de Canuto Abreu:

A Proclamação do O Espírito de Verdade no lançamento "O Livro dos Espíritos" em 18 de abril de 1857 na cidade de Paris através da médium Ermance Dufaux.

A Convocação da Humanidade para uma Nova Era

A sociedade aplaudiu o orador com carinhosa salva de palmas.

A NOITE IA AVANÇANDO para o meio. Alguns convivas pensaram em partir, levantando-se as Senhoras. Mas, Ermance DUFAUX, mediunizada, pondo-se de pé, na saleta de visitas, ergueu o braço num gesto elegante e autoritário de atenção. Um movimento de curiosidade cercou a mocinha. Muitas sabiam que ela era médium. Ermance, quando o silêncio se fez, falou de voz clara, pausada:

— Caros Companheiros: Paz e alegria! Ouvimos, atentamente, as palavras de mútua informação e amizade trocadas aqui, nesta noite memorável para nós os Espíritos. Rejubilamo-nos por vê-los comungando o sentimento de solidariedade não só em torno da Filosofia nossa, que O LIVRO DOS ESPÍRITOS hoje inaugura na Terra, como em volta da pessoa que recebeu de nós a missão de publicá-la. Minha voz interpreta, neste instante, o pensamento e o afeto coletivos de muitos Espíritos, que compartilham desta comemoração.

Todos estamos contentes. E, em nome deles, que, data venia, entramos no debate. Ouvimos, anunciada e comprovada com clareza, a exposição duma tese que, embora antiga, não deixa de ser avançada no momento que passa, e que nos permitimos emitir desta forma: — Onde impera a Mão da Providência não age a do Acaso, e a Providência se manifesta pelos acontecimentos. Eis, ai, uma tese que muita gente, mesmo entre os ‘Spiritualistes’, repele por inverossímil.

No entanto, admite-se, em geral a tese da Profecia que, na aparência material, é fato mais incrível por mais inexplicável. Ora, se um evento ‘futuro’, isto é, ‘remoto no tempo’, pode ser previsto pelo homem, em dadas condições mediúnicas ou magnéticas, é porque o evento obedece a leis. Leis que presidem aos acontecimentos. Admite-se, igualmente, entre os ‘Spiritualistes’, a tese da ‘Providência’. É lógico o que ela, existindo, só se pode manifestar pelos acontecimentos. Daí a procedência da primeira tese, por nós enunciada e defendida nesta reunião, com bastante discernimento.

Nos eventos da vida cotidiana o verdadeiro sábio — que é em nossa opinião o homem de Fé — e o verdadeiro cientista — que é o homem da Técnica — podem, querendo, descobrir sempre o fio de uma ‘Causa Providencial’, embora aparentemente, ‘material’: Todo evento vem dum antecedente que por sua vez procede doutro na cadeia ininterrupta que vai à ‘Causa Providencial’.

O homem ‘imaturo’ — célula da ‘Massa Ignara’ — tem dificuldades no seu processo primário de compreensão. Contudo, não ignora, pelo ‘sentimento’, que tudo quanto nos acontece vem da Vontade Divina. Vocês porém, mais avançados na compreensão, já entrevêem as leis que regem os acontecimentos. Já sabem que, na observação dos eventos diários, é indispensável não se olvidarem principalmente duas:

Dum lado, a do Livre Arbítrio e, doutro lado, a do Progresso. E, de fato, imprescindível, ter sempre em vista, esse dois fatores que condicionam os acontecimentos.

No caso debatido por Vocês — o do missionário — não raro o homem, pelo livre arbítrio, passa a outrem a tarefa que, pela Lei do Progresso, lhe caberia em justiça. Isso acontece quando, por exemplo, pedindo e obtendo na Vida Invisível certa experiência carnal, o homem, ‘voluntariamente’, recua, na hora da prova, por ‘medo’ ou ‘fraqueza de vontade’. Não há ‘crime’ no recuo. Há, porém, ‘atraso’, no progresso espiritual. Todavia — e nisto está a importância da tese — o recuo jamais’ constitui surpresa para a Providência Divina e o conhecimento dele vem pela cadeia espiritual, segundo uma disciplina hierárquica, até o Guia do homem que vai falir.

A força moral de cada criatura é, cientificamente, conhecida de seu Guia. E é, justamente, com ‘recuos’ e ‘avanços’ dos homens, sob a vigilância dos Guias, que se opera a complicadíssima rede dos Desígnios de DEUS, rede que, no Mar da Vida, arrasta os homens para o eu destino, que é o aperfeiçoamento da Alma.

Para nós, que tivemos, por força dos acontecimentos, de comungar com Vocês na mesma tarefa de aperfeiçoamento na hora que passa, é motivo de satisfação verificar que não houve, entre Vocês, que aqui se acham, nenhum recuo nas missões que lhes foram confiadas. Cada qual no seu posto importante — pois não houve, diga-se-lhes, posto algum insignificante entre Vocês — cada qual, repetimos, usando do livre arbítrio sem temor nem tibieza, todos aceitaram tarefas e fizeram jus à Lei de Progresso. Todos correspondem às nossas expectativas como entre nós estava ‘previsto’.

Nestas palavras não vai elogio mas o beneplácito dos Guias que nos propomos interpretar. Contudo, como Vocês mesmos percebem, o que foi realizado até hoje está muito longe do fim que lhes cabe atingir. Ainda lhes resta muito a executar até o limite preestabelecido para cada qual. Uma só existência não lhes bastará. Até aqui ‘aprenderam’. E usamos o verbo no sentido platônico de ‘recordaram’. Daqui por diante, cumpre-lhes ‘apostolar’. E empregamos o verbo no sentido cristão.

E imperioso à divulgação da Filosofia dos Espíritos, ora delineada em O LIVRO, que Vocês ‘morram’ como ‘homens velhos’ e ‘se reencarnem’ como ‘homens novos’, nesta mesma existência. Os Apóstolos do Espiritismo devem ‘renascer’ mental e moralmente. Só os assim ‘renascidos’ podem titular-se ‘Espíritas’. Se Vocês não ‘se gerarem ‘de novo na mentalidade e na moral não implantarão o Reino dos Espíritos na Terra, em substituição ao Reino dos Deuses.

Não lhes precisamos, felizmente, lembrar que foram ‘chamados’, com muitos; a testemunhar a Passagem do Espírito VERDADE pelo nosso planeta, Mas; é mister dizer-lhes, por pura advertência, que foram ‘escolhidos’, com poucos, para esse testemunho. Ora, para testemunhar a VERDADE, não basta ser ‘escolhido’, é impreterível ser ‘marcado’. E isso não depende da nossa vontade. Vocês é que devem querer ser ‘marcados’. Por outras palavras: Cada qual precisa tornar-se aos olhos do Mundo um ‘ser novo’, uma ‘entidade regenerada’, afim de que os homens, que vão ser ‘chamados’ e ‘escolhidos’pelo O LIVRO DOS ESPÍRITOS, vejam, no exemplo vivo dos seus Apóstolos; que o Espiritismo vem para ‘gerar de novo ‘Filhos da VERDADE.

Portanto, resta-lhes o mais difícil da prova que aceitaram: ‘Viver como Espíritas’.

Cumpre-lhes ‘encarnar’ na vida cotidiana a Filosofia revelada pela VERDADE. Tem, por isso, razão o Professor RIVAIL: Não basta o que foi feito até hoje. Coligir e compendiar ensinos, preciosos por verdadeiros é, sem dúvida, serviço relevante, merecedor de graças espirituais — que são os salários das Almas de Fé — as quais não faltarão jamais, nos ajustes de contas dos homens, perante o Tribunal da Providência.

Mas, assim como à Mulher não basta a gestação e o parto para a glória de ser Mãe, na alta expressão do termo — pois só é verdadeira mãe a mulher que ‘cria ‘o filho — também ao Apostolado Espírita não bastam a elaboração e o lançamento da Filosofia dos Espíritos. É-lhe necessário, para não falir na missão, ‘praticar’essa Filosofia, predicando os seus ensinos não só ‘por palavras’ mas sobretudo ‘por exemplos’. E nós lhes anunciamos; caros Companheiros, que esse Apostolado não será uma batalha de flores e sim de espinhos.

Apresentar A VERDADE, através dum livro, é uma coisa; defendê-la, em campo de luta, é outra. Vamos agora, Vocês e nós outros, para a arena — como lhes falou o Professor RIVAIL. Vamos defrontar; na Terra e no Espaço, feras e gladiadores. Os homens e Espíritos; que nos ouvem dentro desta casa, foram todos ‘convocados’ ou ‘convidados’para a luta que será chamada, na História, a ‘Batalha da VERDADE’. Não devemos temê-la nem fugir-lhe, mas saber que a batalha será terrível e que venceremos afinal. Venceremos o que? A pergunta é fútil. Sabemos que nos cumpre vencer o principal inimigo de A VERDADE: O Materialismo. À luta, pois!

Cada um de nós em seu setor, combatamos todos; ‘sem hesitação’, o Rancor oposicionista. Batalhemos todos; ‘sem temor’, a Rotina retardatária. Guerreemos todos; ‘sem arrefecimento’, a Perseguição. Mas; na luta, empreguemos somente as armas nobres dos Cavalheiros d’A VERDADE: A Humildade, a Prudência, a Tolerância, a Persistência. Sim, essas as nossas armas. Na batalha da Luz contra a Treva outras não são permitidas que as do Evangelho. Voltando ao tema debatido nesta reunião, dizemos:

Aquele dentre Vocês que mais ‘vivo’ tornar os Espiritismo entre os homens; esse será o verdadeiro missionário d’A VERDADE na Terra. Portanto, ainda não foi ‘marcado’.

Convidamos a dar o primeiro passo à frente aquele que há pouco nos prometeu ficar na vanguarda dos soldados; aquele que recebeu e aceitou a incumbência de redigir em linguagem humana e universal a ‘primeira página’ da Filosofia dos Espíritos; que será, realmente, a base da Religião do Futuro, que começa nesta hora. Se ‘aquele’ o der; como contamos; se marchar com denodo, como almejamos; se não titubear como esperamos; terá, por certo, nosso apoio de flanco e retaguarda para lhe poupar o ataque invisível dos Espíritos Atrasados.

E se chegar triunfante até o último alento da vida material logrará a Bênção da Providência e o Reconhecimento da Posteridade. Com ele, marchem resolutos; os que nos ouvem! Não é uma ‘ordem’ retórica a que lhes transmitimos. Vocês sabem que, nos eventos a nós confiados; não é o Acaso que comanda. Cavalheiros d’A VERDADE, para a frente!

Canuto Abreu - O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária

Ver no site o pesquisador espírita Canuto Abreu

Fontes: Temário da Obra Kardequiana (Allan Kardec de A a Z)

Fontes: l'Encyclopédie Spirite (Biblioteca Espírita em Francês)

"Com este objetivo recolhemos os fatos, examinamo-los, escrutamo-los no que eles tem de mais íntimo, comentamo-los, discutimo-los friamente, sem entusiasmo; e foi assim que chegamos a descobrir o admirável encadeamento existente em todas as partes dessa vasta Ciência, que toca os mais graves interesses da Humanidade"

Allan Kardec "O Codificador da Doutrina Espírita"

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Ermance Dufaux - Joana D’Arc por ela mesma PDF

 

Ermance Dufaux - Histoire de Jeanne D’Arc, dictée par elle-même (1855) (Fr)