Correspondance inédite de Lavater avec l'impératrice

 Marie de Russie

A. LacroiX, Éditeurs

Paris (1868)

 

Pastor Johann Kaspar Lavater

(15 de novembro de 1741, Zurique, Suíça - 2 de janeiro de 1801)

Filósofo, poeta e teólogo suíço; um entusiasta do magnetismo animal na Suíça. É considerado o fundador da fisiognomonia, a arte de conhecer a personalidade das pessoas através dos traços fisionômicos. Lavater escreveu célebres cartas a Imperatriz Maria Feodorawna, esposa do Imperador Paulo I da Rússia.

Maria Feodorovna

(25 de outubro de 1759 - 5 de novembro de 1828)

Foi a segunda esposa do czar Paulo I da Rússia e mãe dos czares Alexandre I e Nicolau I da Rússia.

Apresentação de Allan Kardec:

Os espíritas são numerosos em São Petersburgo e contam entre si homens sérios e esclarecidos, que compreendem o objetivo e o elevado alcance humanitário da doutrina. Um deles, que não tínhamos a honra de conhecer, houve por bem nos dirigir um documento, tanto mais precioso para a história do Espiritismo, quanto era desconhecido e toca nas mais altas regiões sociais. Eis o que diz o nosso honrado correspondente, na carta que nos enviou:

“A Biblioteca Imperial de São Petersburgo publicou, em 1858, num pequeno número de exemplares, uma coletânea de cartas inéditas do célebre fisionomista Lavater. Essas cartas, até então desconhecidas na Alemanha, foram dirigidas à imperatriz Maria da Rússia, esposa de Paulo I e avó do imperador reinante. A leitura dessas cartas me impressionou pelas ideias filosóficas, eminentemente espíritas, que encerram, sobre as relações que existem entre o mundo visível e o mundo invisível, a mediunidade intuitiva e a influência dos fluidos que a produzem.

“Presumindo que estas cartas, provavelmente desconhecidas na França, poderiam interessar aos espíritas esclarecidos desse país, mostrando-lhes que suas convicções íntimas eram partilhadas pelo eminente filósofo suíço e por duas cabeças coroadas, tomo a liberdade, senhor, de vos remeter anexa a tradução quase literal dessas cartas, que talvez julgueis oportuno inserir em vossa sábia e tão interessante publicação mensal.

“Aproveito a ocasião, senhor, para vos exprimir os sentimentos de minha profunda e perfeita estima, partilhada pelos espíritas sinceros de todos os países, que sabem dignamente apreciar os serviços eminentes que o vosso zelo infatigável prestou ao desenvolvimento científico e à propagação da sublime e tão consoladora Doutrina Espírita. Esta terceira revelação terá por consequência a regeneração, o progresso moral e a consolidação da fé na pobre Humanidade, infelizmente extraviada, e que flutua entre a dúvida e a indiferença, em matéria de religião e de moral.”

W. de F.

Publicamos integralmente o manuscrito do Sr. de F. Sua extensão nos obriga a dele fazer objeto de três artigos.

Preâmbulo

No castelo do grão-duque de Pawlowsk, situado a vinte e quatro quilômetros de Petersburgo, onde o imperador Paulo da Rússia passou os mais felizes anos de sua vida, e que, em consequência, tornou-se a residência favorita da imperatriz Maria, sua augusta viúva, verdadeira benfeitora da humanidade sofredora, acha-se uma seleta biblioteca, fundada pelo casal imperial, na qual, entre muitos tesouros científicos e literários, se encontra um pacote de cartas do próprio punho de Lavater, que ficaram desconhecidas dos biógrafos do célebre fisionomista.

Estas cartas são datadas de Zurique, em 1798. Dezesseis anos antes, Lavater tivera oportunidade, naquela cidade e em Schaffouse, de conhecer o conde e a condessa do Nord  (título sob o qual o grão-duque da Rússia e sua esposa viajavam pela Europa), e, de 1796 a 1800, ele mandara à Rússia, endereçada à imperatriz Maria, reflexões sobre a fisionomia, às quais juntava cartas, tendo por objetivo descrever o estado da alma depois da morte.

Nessas cartas, Lavater toma como ponto de partida que uma alma, tendo deixado seu corpo, inspira suas ideias a um homem de sua escolha, apto para a luz (lichtfaehing) e lhe faz escrever cartas dirigidas a um amigo que ficou na Terra, para o instruir sobre o estado em que ela se encontra.

Estas cartas inéditas de Lavater foram descobertas durante uma verificação na biblioteca grão-ducal, pelo doutor Minzloff, bibliotecário da biblioteca imperial de Petersburgo, e por ele postas em ordem.

Com a autorização do detentor atual do castelo de Pawlowsk, Sua Alteza Imperial o grão-duque Constantino, e sob os auspícios esclarecidos do barão de Korff, atualmente membro do conselho do império, antigo diretor-chefe dessa biblioteca, que lhe deve seus mais notáveis melhoramentos, elas foram publicadas em 1858, em Petersburgo, sob o título: Johann-Kaspar Lavater’s briefe, an die Kaïserin Maria Feodorowna, gemahlin kaïser Paul I von Russland (Cartas de João Gaspar Lavater à imperatriz Maria Feodorowna, esposa do imperador Paulo I da Rússia). Essa carta foi impressa por conta da biblioteca imperial e oferecida em homenagem ao senado da Universidade de Iena, por ocasião do 300º aniversário de sua fundação.

Essas cartas, em número de seis, apresentam o mais alto interesse, por provarem positivamente que as ideias espíritas e, notadamente, a possibilidade das relações entre o mundo espiritual e o mundo material, já germinavam na Europa há bem setenta anos, e que não só o célebre fisionomista tinha convicção dessas relações, mas era ele próprio o que no Espiritismo se chama médium intuitivo, isto é, um homem que recebia por intuição as ideias dos Espíritos e transcrevia suas comunicações.

As cartas de um amigo morto, que Lavater juntara às suas, são eminentemente espíritas. Elas desenvolvem e esclarecem de maneira tão engenhosa quanto espiritual, as ideias fundamentais do Espiritismo, e vêm apoiar tudo o que esta doutrina oferece de mais racional, de mais profundamente filosófico, religioso e consolador para a Humanidade.

As pessoas que não conhecem o Espiritismo poderão supor que essas cartas de um Espírito ao seu amigo da Terra não passam de uma forma poética, que Lavater dá às suas próprias ideias espiritualistas; mas os que são iniciados nas verdades do Espiritismo as encontrarão nessas comunicações, tais como foram e ainda são dadas pelos Espíritos, por meio de diferentes médiuns intuitivos, audientes, escreventes, falantes, extáticos, etc.

Não é natural supor que Lavater tenha podido conceber ele próprio e expor com tão grande lucidez e tanta precisão, ideias abstratas e tão elevada sobre o estado da alma após a morte, e seus meios de comunicação com os Espíritos encarnados, isto é, os homens. Essas ideias não podiam provir senão dos próprios Espíritos desencarnados.

É incontestável que um deles, tendo guardado sentimentos de afeição por um amigo ainda habitante da Terra, lhe deu, por intermédio de um médium intuitivo (talvez o próprio Lavater fosse esse amigo), noções sobre esse assunto, para o iniciar nos mistérios do túmulo, na medida do que é permitido a um Espírito desvendar aos homens, e que estes estejam em estado de compreender.

Damos aqui a tradução exata das cartas de Lavater, escritas em alemão, bem como das comunicações de além-túmulo, que dirigia à imperatriz Maria, conforme o desejo que esta havia manifestado, de conhecer as ideias do filósofo alemão sobre o estado da alma após a morte do corpo.

PRIMEIRA CARTA

Sobre o Estado da alma Após a Morte

Ideias Geral

Mui venerada Maria da Rússia!

Dignai-vos conceder-me permissão para não vos dar o título de majestade, que vos é devido da parte do mundo, mas que não se harmoniza com a santidade do assunto que desejastes que eu vos entretivesse, e a fim de vos poder escrever com franqueza e inteira liberdade.

Desejais conhecer algumas das minhas ideias sobre o estado das almas após a morte.

A despeito do pouco que é dado saber sobre isto ao mais douto entre nós, já que nenhum dos que partiram para o país desconhecido de lá voltou, o homem pensante, o discípulo d’Aquele que do céu desceu entre nós, está, no entanto, em condições de dizer, sobre isto, tanto quando nos é necessário saber para nos encorajar, nos tranquilizar e nos fazer refletir.

Desta vez limitar-me-ei a vos expor, a respeito, algumas das ideias mais gerais.

Penso que deve existir uma grande diferença entre o estado, a maneira de pensar e de sentir de uma alma separada de seu corpo material, e o estado no qual se encontrava durante sua união com este último. Essa diferença deve ser, no mínimo, tão grande quanto a que existe entre o estado de um recém-nascido e o de uma criança vivendo no seio materno.

Estamos ligados à matéria, e são os nossos sentidos e os nossos órgãos que dão à nossa alma as percepções e o entendimento.

Conforme a diferença que exista entre a construção do telescópio, do microscópio e dos óculos, de que se servem os nossos olhos para ver, os objetos que olhamos por seu intermédio nos aparecem sob uma forma diferente. Nossos sentidos são os telescópios, os microscópios e os óculos necessários à nossa vida atual, que é uma vida material.

Creio que o mundo visível deve desaparecer para a alma separada de seu corpo, assim como lhe escapa durante o sono. Ou então o mundo, que a alma entrevia durante sua existência corporal, deve aparecer à alma desmaterializada sob um aspecto completamente diverso.

Se, durante algum tempo, ela pudesse ficar sem corpo, o mundo material não existiria para ela. Mas se ela for, logo depois de haver deixado o seu corpo — o que acho muito verossímil — provida de um corpo espiritual, que teria retirado do seu corpo material, o novo corpo lhe dará indispensavelmente uma percepção muito diferente das coisas. Se, o que facilmente pode acontecer às almas impuras, esse corpo ficasse, durante algum tempo, imperfeito e pouco desenvolvido, todo o Universo apareceria à alma num estado de perturbação, como se fosse visto através de um vidro fosco.

Mas se o corpo espiritual, o condutor e o intermediário de suas novas impressões, fosse ou se tornasse mais desenvolvido ou mais bem organizado, o mundo da alma lhe pareceria, conforme a natureza e as qualidades de sua harmonia e de sua perfeição, mais regular e mais belo.

Os órgãos se simplificam, adquirem harmonia entre sei e são mais apropriados à natureza, ao caráter, às necessidades e às forças da alma, conforme ela se concentre, se enriqueça e se depure aqui na Terra, perseguindo um só objetivo e agindo num sentido determinado. Existindo na Terra, a alma aperfeiçoa, ela mesma, as qualidades do corpo espiritual, do veículo no qual continuará a existir após a morte de seu corpo material, e que lhe servirá de órgão para conceber, sentir e agir em sua nova existência. Esse novo corpo, apropriado à sua natureza íntima, a tornará pura, amante, vivaz e apta a mil belas sensações, impressões, contemplações, ações e gozos.

Tudo o que se pode, e tudo o que ainda não podemos dizer sobre o estado da alma após a morte, sempre se baseará neste único axioma, permanente e geral: O homem recolhe o que semeou.

É difícil encontrar um princípio mais simples, mais claro, mais abundante e mais próprio a ser aplicado a todos os casos possíveis.

Existe uma lei geral da Natureza, estreitamente ligada, mesmo idêntica, ao princípio acima mencionado, concernente ao estado da alma após a morte, uma lei equivalente em todos os mundos, em todos os estados possíveis, no mundo material e no mundo espiritual, visível e invisível, a saber:

“O que se assemelha tende a se reunir. Tudo o que é idêntico se atrai reciprocamente, se não existirem obstáculos que se oponham a sua união.”

Toda a doutrina sobre o estado da alma após a morte é baseada neste simples princípio. Tudo quanto chamamos ordinariamente: julgamento prévio, compensação, felicidade suprema, danação, pode ser explicado desta maneira: “Conforme semeaste o bem em ti mesmo, nos outros e fora de ti, pertencerás à sociedade dos que, como tu, semearam o bem em si mesmos e fora de si; gozarás da amizade daqueles com os quais te assemelhaste em sua maneira de semear o bem.”

Cada alma separada de seu corpo, livre das cadeias de matéria, aparece a si mesma tal qual é na realidade. Todas as ilusões, todas as seduções que a impedem de se reconhecer e de ver suas forças, suas fraquezas e seus defeitos desaparecerão.

Experimentará uma tendência irresistível para se dirigir às almas que se lhe assemelham e afastar-se das que lhe são desiguais. Seu próprio peso interior, como obedecendo à lei da gravitação, a atrairá para abismos sem fundo (pelo menos é assim que lhe parecerá); ou, então, conforme o grau de sua pureza, ela se precipitará nos ares, como uma fagulha levada por sua leveza, e passará rapidamente pelas regiões luminosas, fluídicas e etéreas.

A alma se dá a si mesma um peso que lhe é próprio, por seu sentido interior; seu estado de perfeição a impele para frente, para trás ou para o lado; seu próprio caráter, moral ou religioso, lhe inspira certas tendências particulares. O bom se elevará para os bons; a necessidade que sente do bem o atrairá para eles. O mau é forçosamente impelido para os maus. A queda precipitada das almas grosseiras, imorais e irreligiosas para as almas que se lhes assemelham, será também tão rápida e inevitável quanto a queda de uma bigorna num abismo, quando nada a detém.

Por ora é bastante.

Zurique, 1° de agosto de 1798.

João Gaspar Lavater

(Com a permissão de Deus, continua semanalmente.)

SEGUNDA CARTA

As necessidades experimentadas pelo espírito humano, durante seu exílio no corpo material, continuam as mesmas, logo depois que o deixou. Sua felicidade consistirá na possibilidade de poder satisfazer suas necessidades espirituais; sua danação, na impossibilidade de poder satisfazer seus apetites carnais, num mundo menos material.

As necessidades não satisfeitas constituem a danação; sua satisfação constitui a felicidade suprema.

Gostaria de dizer a cada homem: “Analisa a natureza de tuas necessidades; dá-lhes o seu verdadeiro nome; pergunta a ti mesmo: são admissíveis num mundo menos material? Podem aí encontrar sua satisfação?” E se, verdadeiramente, aí pudessem ser contentadas, seriam as que um Espírito intelectual e imortal possa honestamente confessar e desejar a sua satisfação, sem sentir uma profunda vergonha diante de outros seres intelectuais e imortais como ele?

A necessidade que sente a alma de satisfazer as aspirações espirituais de outras almas imortais; de lhes proporcionar os puros deleites da vida, de lhes inspirar a segurança de sua existência após a morte, de cooperar assim no grande plano da sabedoria e do amor supremos, o progresso adquirido por essa nobre atividade, tão digna do homem, assim como o desejo desinteressado do bem, dão às almas humanas a aptidão, e, portanto, o direito de serem recebidas nos grupos e nos círculos de Espíritos mais elevados, mais puros, mais santos.

Mui veneranda imperatriz, quando temos a íntima persuasão de que a necessidade mais natural e, no entanto, muito rara, que possa nascer numa alma imortal: a de Deus, a necessidade de dele se aproximar cada vez mais, sob todos os respeitos e de se assemelhar ao Pai invisível de todas as criaturas, é uma vez tornada predominante em nós, oh! então não devemos experimentar o menor receio concernente ao nosso estado futuro, quando a morte nos tiver desembaraçado de nosso corpo, esse muro espesso que nos ocultava Deus.

Esse corpo material, que nos separava dele, está caído, e o véu que nos escondia a vista do mais santo dos santos está rasgado. O Ser adorável, que amávamos acima de tudo, com todas as suas graças resplandecentes, terá então livre acesso em nossa alma dele faminta e o recebendo com alegria e amor.

Logo que o amor sem limites por Deus tiver triunfado em nossa alma, em consequência dos esforços que ela tiver feito para dele se aproximar e a ele se parecer em seu amor vivificante da Humanidade, e por todos os meios que tinha em seu poder, essa alma, desembaraçada de seu corpo, passando necessariamente por muitos degraus para se aperfeiçoar sempre mais, subirá com uma facilidade e uma rapidez espantosas para o objeto de sua mais profunda veneração e seu amor ilimitado, para a fonte inesgotável e a única suficiente para a satisfação de todas as suas necessidades, de todas as suas aspirações.

Nenhum olho fraco, doente ou velado está em condições de olhar o Sol de frente; do mesmo modo, nenhum Espírito não depurado, ainda envolto no nevoeiro grosseiro de uma vida exclusivamente material, mesmo no momento de sua separação do corpo, não estaria em condições de suportar a vista do mais puro sol dos Espíritos, em sua claridade resplandecente, seu símbolo, seu foco, de onde escapam essas ondas de luz, que penetram mesmo os seres finitos do sentimento de sua infinidade.

Quem melhor que vós, senhora, sabe que os bons não são atraídos senão pelos bons! Que só as almas elevadas sabem fruir da presença de outras almas de escol! Todo homem que conhece a vida e os homens, aquele que muitas vezes foi obrigado a encontrar-se na companhia desses lisonjeadores desonestos, efeminados, baldos de caráter, sempre apressados em revelar e fazer valer a palavra mais insignificante, a menor alusão daqueles cujo favor disputam, ou então desses hipócritas, que procuram astuciosamente penetrar as ideias alheias, para em seguida as interpretar num sentido absolutamente contrário, aquele, digo eu, deve saber quanto essas almas vis e escravas se embaraçam subitamente a uma simples palavra pronunciada com firmeza e dignidade; quanto um só olhar severo os confunde, fazendo-lhes sentir profundamente que são conhecidos e julgados em seu justo valor!

Como então se lhes torna penoso suportar a presença de um homem honesto! Nenhuma alma manhosa e hipócrita é feliz ao contato de uma alma proba e enérgica, que a penetre. Cada alma impura, tendo deixado o seu corpo, deve, segundo sua natureza íntima, como impulsionada por uma força oculta e invencível, fugir à presença de todo ser puro e luminoso, para lhe ocultar, tanto quanto possível, a vista de suas numerosas imperfeições, que não está em estado de ocultar a si própria, nem aos outros.

Mesmo que não tivesse sido escrito: “Ninguém, sem ser depurado, poderá ver o Senhor”; estaria perfeitamente na ordem das coisas. Uma alma impura se acha numa impossibilidade absoluta de entrar em qualquer relação com uma alma pura, nem de sentir por ela a menor simpatia. Uma alma assustada pela luz não pode, por isto mesmo, ser atraída para a fonte da luz. A claridade, privada de toda obscuridade, deve queimá-la como um fogo devorador.

E quais são as almas, senhora, que chamamos impuras? Penso que são aquelas nas quais o desejo de se depurarem, de se corrigirem e de se aperfeiçoarem jamais predominou. Penso que são aquelas que não estão submetidas ao princípio elevado do desinteresse em todas as coisas; as que se elegem como centro único de todos os seus desejos e de todas as suas ideias; as que se olham como o objeto de tudo o que está fora delas, que não buscam senão o meio de satisfazer suas paixões e seus sentidos; enfim, aquelas nas quais reinam o egoísmo, o orgulho, o amor-próprio e o interesse pessoal, que querem servir a dois mestres que se contradizem, e isto simultaneamente.

Penso que semelhantes almas, após a separação de seus corpos, devem achar-se no miserável estado de uma horrível contemplação de si mesmas; ou então, o que dá no mesmo, do desprezo profundo que sentem por si próprias, e serem arrastadas por uma força irresistível para a horrorosa sociedade de outras almas egoístas, condenando-se elas próprias incessantemente.

É o egoísmo que produz a impureza da alma e a faz sofrer. Ele é combatido em todas as almas humanas por alguma coisa que lhe é contrário, algo de puro, de divino: o sentimento moral. Sem esse sentimento, o homem não é capaz de nenhum prazer moral, de nenhuma estima, de nenhum desprezo por si mesmo, não compreendendo nem o céu, nem o inferno. Esta luz divina lhe torna insuportável toda obscuridade que descobre em si, e é a razão pela qual as almas delicadas, as que possuem o senso moral, sofrem mais cruelmente quando o egoísmo delas se apodera e subjuga esse sentimento.

Da concordância e da harmonia que subsistem no homem, entre ele próprio e a sua lei interior dependem a sua pureza, a sua aptidão para receber a luz, sua felicidade, seu céu, seu Deus. Seu Deus lhe parece na sua semelhança consigo mesmo. Àquele que sabe amar, Deus aparece como o supremo amor, sob mil formas amantes. Seu grau de felicidade e sua aptidão a tornar felizes os outros são proporcionados ao princípio do amor que nele reina. Aquele que ama com desinteresse fica em harmonia incessante com a fonte de todo amor e com todos os que aí bebem o amor.

Tratemos de conservar em nós o amor em toda a sua pureza, senhora, e seremos sempre arrastados por ele para as almas mais amantes. Purifiquemo-nos todos os dias, cada vez mais, das manchas do egoísmo, e, então ainda que tivéssemos de deixar este mundo hoje mesmo ou amanhã, devolvendo à terra o nosso invólucro mortal, nossa alma tomará o seu voo com a rapidez do relâmpago para o modelo de todos os que amam, e se reunirá a eles com uma felicidade inexprimível.

Nenhum de nós pode saber em que se tornará sua alma após a morte do corpo e, no entanto, estou plenamente persuadido de que o amor depurado deve necessariamente dar ao nosso Espírito, liberto do corpo, uma liberdade sem limites, uma existência cêntupla, um gozo contínuo de Deus, e um poder ilimitado para tornar felizes todos os que estão aptos para desfrutar da felicidade suprema.

Oh! como é incomparável a liberdade moral do Espírito despojado de seu corpo! com que leveza a alma do ser amante, cercada de uma luz resplandecente, efetua a sua ascensão! Como a ciência infinita, como a força de se comunicar aos outros, se tornam o seu apanágio! Quanta luz jorra dela mesma!

Que vida anima todos os átomos de que é formada! Torrentes de gozos se lançam de todos os lados ao seu encontro, para satisfazer suas necessidades mais puras e mais elevadas! Legiões inumeráveis de seres amantes lhe estendem os braços! Vozes harmoniosas se fazem ouvir nesses coros numerosos e radiantes de alegria e lhe dizem: “Espírito de nosso Espírito! Coração de nosso coração! Amor bebido na fonte de todo amor! Alma amante, tu nos pertences a nós todos, e nós somos todos de ti! Cada um de nós é teu e tu pertences a cada um de nós. Deus é amor e Deus é nosso. Estamos todos cheios de Deus e o amor encontra sua felicidade na felicidade de todos.”

Desejo ardentemente, mui venerada imperatriz, que vós, vosso nobre e generoso esposo, o imperador, tão voltados um e outro para o bem, e eu convosco, jamais possamos nos tornar estranhos ao amor que é Deus e homem ao mesmo tempo; que nos seja concedido nos preparamos para os gozos, por nossas ações, nossas preces e nossos sofrimentos, aproximando-nos daquele que se deixou pregar na cruz do Gólgota.

João Gaspar Lavater

Zurique, 18 de agosto de 1798.

(Continua proximamente, se Deus o permitir.)

Allan Kardec

Revista Espírita de Março de 1868

OPINIÃO ATUAL DE LAVATER SOBRE O ESPIRITISMO

COMUNICAÇÃO VERBAL PELO SR. MORIN, EM SONAMBULISMO ESPONTÂNEO

(Sociedade de Paris, 13 de março de 1868)

Desde que a misericórdia divina permitiu que eu, humilde criatura, recebesse a revelação por meio dos mensageiros da imensidade, até esse dia os anos caíram, um a um, no abismo dos tempos; e à medida que se escoavam, aumentavam também os conhecimentos dos homens e se alargava o seu horizonte intelectual.

Desde que me foram dadas algumas das páginas que vos foram lidas, muitas outras foram dadas no mundo inteiro, sobre o mesmo assunto e pelo mesmo meio. Não creiais que eu tenha a pretensão, eu, humilde entre todos, de ter sido o primeiro a ter tido a honra insigne de receber um tal favor. Não. Outros, antes de mim, também tinham recebido a revelação; mas, como eu, oh! eles compreenderam incompletamente certas partes. É que é preciso, senhores, levar em conta o tempo, o grau de instrução moral e, sobretudo, o grau de emancipação filosófica dos povos.

Os Espíritos, dos quais hoje me sinto feliz em fazer parte, formam, também eles, povos, mundos, mas não têm raças; estudam, veem, e seus estudos podem ser incontestavelmente maiores, mais vastos que os estudos dos homens; contudo, partem sempre dos conhecimentos adquiridos e do ponto culminante do progresso moral e intelectual do tempo e do meio onde vivem.

Se os Espíritos, esses mensageiros divinos, vêm diariamente vos dar instruções de ordem mais elevada, é que a generalidade dos seres que os recebem está em condição de os compreender. Em consequência das preparações que sofreram, há instantes em que os homens não necessitam deixar passar sobre si a eternidade de um século para compreender. Desde que se vê elevar-se rapidamente o nível moral, uma espécie de atração os leva para uma certa corrente de ideias, que devem assimilar, e para o objetivo a que devem aspirar; mas esses instantes são curtos e cabe aos homens aproveitá-los.

Eu disse que era preciso levar em conta os tempos e, sobretudo, o grau de emancipação filosófica que a época comportava. Reconhecido à Divindade, que me permitira adquirir, por um favor especial, mais depressa do que outros homens, partidos do mesmo ponto, certos conhecimentos, recebi comunicações dos Espíritos.

Mas a primeira educação, os ensinamentos estreitos, a tradição e o costume pesaram em mim; malgrado as minhas aspirações em adquirir uma liberdade, uma independência de espírito que eu desejava, amante atraído pelos Espíritos que vinham comunicar-se comigo, não conhecendo a ciência que vos foi revelada depois, eu não podia atrair senão os seres de ideias similares às minhas, às minhas aspirações, e que, com um horizonte mais largo, tinham, não obstante, a mesma visão limitada.

Daí, eu confesso, alguns erros que pudestes notar no que vos veio de mim; mas o fundo, o corpo principal não é, senhores, conforme a tudo o que, depois, vos foi revelado por esses mensageiros dos quais eu falava há pouco?

Espírito encarnado, por instinto levado ao bem; natureza tumultuosa apoderando-se de um pensamento que me levava ao verdadeiro, tão rápido, oh! como aqueles que me impeliam ao erro, talvez aí esteja o motivo que provocou as inexatidões de minhas comunicações, não tendo, para as retificar, os controles dos pontos de comparação; porque, para que uma revelação seja perfeita, é preciso que se dirija a um homem perfeito e este não existe; não é, pois, senão do conjunto que se podem extrair os elementos da verdade: foi o que pudestes fazer.

Mas, em meu tempo, podia-se formar um conjunto de algumas parcelas da verdade, de algumas comunicações excepcionais? Não. Sou feliz por ter sido um dos privilegiados do século passado; obtive essas comunicações, algumas diretamente por meu intermédio, e a maior parte através de um médium, amigo meu, completamente estranho à linguagem da alma e, é preciso dizer, mesmo à do bem.

Feliz por fazer partilhar essas ideias a inteligências que eu julgava acima da minha, uma porta me foi aberta; eu a aproveitei com ardor, e todas as revelações da vida de além-túmulo foram por mim levadas ao conhecimento de uma imperatriz que, por sua vez, as levou ao conhecimento do seu círculo, e assim por diante.

Crede-o bem, o Espiritismo não foi revelado espontaneamente; como toda coisa saída das mãos de Deus, desenvolveu-se progressivamente, lentamente, seguramente. Esteve em germe no primeiro germe das coisas, e cresceu com esse germe até que estivesse bastante forte para se subdividir ao infinito e espalhar por toda parte a sua semente fecunda e regeneradora.

É por ele que sereis felizes, que será assegurada a felicidade dos povos – que digo eu? a felicidade de todos os mundos; porque o Espiritismo, palavra que eu ignorava, é chamado a fazer grandes revelações! Mas, tranquilizai-vos; essas revoluções jamais ensanguentarão a sua bandeira; são revoluções morais, intelectuais; revoluções gigantescas, mais irresistíveis que as provocadas pelas armas, pelas quais tudo é de tal modo chamado a se transformar, que tudo quanto conheceis não passa de um fraco esboço do que elas produzirão.

O Espiritismo é uma palavra tão vasta, tão grande, por tudo o que contém, que me parece que um homem que pudesse compreender toda a sua profundeza não a poderia pronunciar sem respeito.

Senhores, eu, Espírito muito tacanho, a despeito da grande inteligência com que me gratificais, e em relação daqueles muito superiores que me é dado contemplar, venho dizer-vos: Credes, então, que seja por efeito do acaso que esta noite pudestes ouvir o que Lavater tinha obtido e escrito?

Não, não é por acaso, e seguramente a minha mão espiritual as dirigiu até vós. Mas se esses poucos pensamentos vieram ao vosso conhecimento por meu intermédio, não creiais que nisto eu tenha buscado uma vã satisfação do amor-próprio; não, longe disto. O objetivo era maior, e nem mesmo me tinha vindo o pensamento de as levar ao conhecimento universal da Terra.

Tal conhecimento tinha a sua utilidade; deve ter consequências graves, e é por isto que vos foi dado espalhá-la. Nas menores coisas encontra-se o germe das maiores renovações. Estou feliz, senhores, por me ter sido deixado o direito de vos pressentir sobre o alcance que terão essas poucas reflexões, essas comunicações, bem pobres ao lado das que obtendes atualmente; e se entrevejo o seu resultado, se me sinto feliz por isto, por que não o serieis vós?

Voltarei, senhores, e o que disse esta noite é tão pouco em relação com o que tenho por missão vos ensinar, que ouso apenas dizer-vos: é Lavater.

Pergunta – Agradecemos as explicações que houvestes por bem nos dar, e ficaremos muito contentes por contar convosco, doravante, no número de nossos Espíritos instrutores. Receberemos as vossas instruções com o mais vivo reconhecimento. Enquanto esperamos, permiti-nos uma simples questão sobre a vossa comunicação de hoje:

1º — Dissestes que a imperatriz levou essas ideias ao conhecimento de seu círculo, e assim por diante. Seria por esta iniciativa, partida do ponto culminante da sociedade, que a Doutrina Espírita deve encontrar tão numerosas simpatias entre as sumidades sociais na Rússia?

2º — Um ponto de que me admira não ver mencionado em vossas cartas, é o grande princípio da reencarnação, uma das leis naturais que mais testemunham a justiça e a bondade de Deus.

Resposta – É evidente que a influência da imperatriz e de algumas outras grandes personagens foi predominante para determinar, na Rússia, o desenvolvimento do movimento filosófico no sentido espiritualista; mas, se muitas vezes o pensamento dos príncipes da Terra determina o pensamento dos grandes, que se acham sob a sua dependência, não se dá o mesmo com os pequenos. Os que têm chance de desenvolver no povo as ideias progressistas são os filhos do povo; são eles que farão triunfar, em toda parte, os princípios de solidariedade e de caridade, que são a base do Espiritismo.

Por isso Deus, em sua sabedoria, escalonou os elementos do progresso; estão no alto, embaixo, sob todas as formas e preparados para combater todas as resistências. Sofrem, assim, um movimento de vai-e-vem constante, que não pode deixar de estabelecer a harmonia dos sentimentos entre as altas e as baixas classes, e fazer triunfar solidariamente os princípios da autoridade e da liberdade.

Como sabeis, os povos são formados de Espíritos que têm entre si uma certa afinidade de ideias, que os predispõem mais ou menos para assimilar as ideias de tal ou qual ordem, porque essas mesmas ideias neles estão em estado latente e não esperam senão ocasião para se desenvolverem.

O povo russo e vários outros estão neste caso em relação ao Espiritismo. Por pouco que o movimento fosse secundado, em vez de ser entravado, não se passariam dez anos antes que todos os indivíduos, sem exceção, fossem espíritas. Mas esses mesmos entraves são úteis para temperar o movimento que, embora um pouco devagar, não deixa de ser mais refletido. A Onipotência, por cuja vontade tudo se realiza, saberá bem remover os obstáculos, quando for tempo. Um dia o Espiritismo será a fé universal, e se admirarão de que não tenha sido sempre assim.

Quanto ao princípio da reencarnação terrestre, confesso-vos que a minha iniciação não tinha chegado até lá, e sem dúvida intencionalmente, porque eu não teria deixado de fazer, como das outras revelações, o assunto de minhas instruções à imperatriz, e talvez isto tivesse sido prematuro. Os que presidem ao movimento ascensional bem sabem o que fazem. Os princípios nascem um a um, segundo os tempos, os lugares e os indivíduos, e estava reservado à vossa época vê-los reunidos num feixe sólido, lógico e inatacável.

Lavater

Allan Kardec - Revista Espírita de Março de 1868

Fontes: Encyclopædia Britannica (Biografia do Pastor Johann Kaspar Lavater)

Fontes: César Perri - GEECX - Grupo de Estudos Espíritas Chico Xavier

"O Espiritismo é uma palavra tão vasta, tão grande, por tudo o que contém, que me parece que um homem que pudesse compreender toda a sua profundeza não a poderia pronunciar sem respeito."

Pastor Johann Kaspar Lavater "Na questão sobre o Espiritismo"

"A educação, sabe-se, é o mais poderoso fator do progresso, pois contém em gérmen todo o futuro. Mas, para ser completa, deve inspirar-se no estudo da vida sob suas duas formas alternantes, visível e invisível, em sua plenitude, em sua evolução ascendente para os cimos da natureza e do pensamento."

Léon Denis "O Apóstolo do Espiritismo"

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

Fontes: Canal Espírita Jorge Hessen (Parte da palestra do filósofo espírita Canuto Abreu em 18/04/1957 )

 

Correspondance inédite de Lavater avec l'impératrice Marie de Russie (1868) (Fr)