As GRANDES Médiuns dos Círculos de Allan Kardec

(Caroline Baudin - PÉLAGIE Baudin)

(A FAMÍLIA BAUDIN)

NOS BASTIDORES DA ELABORAÇÃO DO "o livro dos espíritos"

(os princípios da codificação espírita)

 

CSI DO ESPIRITISMO

IMAGENS E REGISTROS HISTÓRICOS DO ESPIRITISMO

A VERDADEIRA IDENTIDADE DAS PRIMEIRAS MÉDIUNS UTILIZADAS POR KARDEC

PESQUISA: CARLOS SETH | REVISÃO DE JULHO DE 2020 | PARA OUTRAS IMAGENS:
FACEBOOK.COM/HISTORIADOESPIRITISMO (#SRTASBAUDIN)

Apresentação da pesquisa doss médiuns:

Embora exista muita informação disponível através de livros e sites da internet sobre a família Baudin, a fonte de todas elas é um único livro de Canuto Abreu chamado O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária. Como o próprio título do livro diz, e destacamos aqui, trata-se de uma história romanceada baseada em tradição e lendas.

Infelizmente a obra tem sido utilizada pelo movimento espírita como verdade inconcussa. Este trabalho oferece uma nova versão, totalmente baseada em documentos históricos. A família Baudin é importante para o movimento espírita pois as Srtas. Baudin foram as duas primeiras médiuns utilizadas por Allan Kardec para a preparação da primeira edição de O Livro dos Espíritos.

De qualquer forma, as principais novidades descobertas aqui são: as Srtas. Baudin não eram adolescentes (16 e 18 anos em 1857, portanto 15 e 17 anos em 1856), mas adultas (27 e 29 anos em 1856).

Apresentamos ainda uma evidência final: as proclamas de casamento delas, publicadas no Le Constitutionnel de 4 de agosto de 1857 (ver figura 8). Para nós não resta qualquer dúvida: as Srtas. Baudin eram Pélagie Baudin e Catherine Caroline. Mais uma vez, remodelando nossa questão: quais as probabilidades de termos dois pares de irmãs Baudin, ou seja, quatro Srtas. Baudin, duas delas chamadas Caroline, todas residindo na Rue Lamartine, e que se casaram em 1857 após o lançamento de O Livro dos Espíritos? (Continuar a LER)

Carlos Seth Bastos - A verdadeira identidade das primeiras médiuns utilizadas por Kardec

Informações sobre a Família Baudin - Médiuns de Allan Kardec

CSI do Espiritismo - Imagens e registros históricos do Espiritismo

Figura a esquerda: Registro de nascimento de Caroline Baudin Fonte: Livro de registros de nascimento de 1827 da comuna de Gray, departamento de Haute-Saône, página 4, link de acesso AQUI (acessado em 16 de janeiro de 2019)

Figura a direita:  Registro de óbito de Caroline Baudin Fonte: Livro de registros de óbito de 1883 da comuna de Puteaux, Departamento de Hauts-de-Seine, página 74, link de acesso AQUI (acessado em 13 de janeiro de 2019).

CSI do Espiritismo - Imagens e registros históricos do Espiritismo

Figura a esquerda: Registro de nascimento de Pélagie Baudin Fonte: Livro de registros de nascimento de 1829 da comuna de Gray, departamento de Haute-Saône, página 37. Link de acesso AQUI (acessado em 13 de janeiro de 2019).

Figura a direita: Registro de óbito de Pélagie Baudin Fonte: Livro de registros de óbito de 1887 da comuna de Neuilysur-Seine, departamento de Hauts-de-Seine, página 127. Link de acesso AQUI (acessado em 13 de janeiro de 2019).

CSI do Espiritismo - Imagens e registros históricos do Espiritismo

 

Irmãs Baudin

ERY LOPES - LUZ ESPÍRITA / ESPIRITISMO EM MOVIMENTO

 

As irmãs Baudin, Caroline e Pélagie, são lembradas pelo Movimento Espírita por terem sido umas das primeiras médiuns das quais Allan Kardec se serviu na sua pesquisa acerca dos fenômenos espirituais. Foi frequentando as sessões mediúnicas semanais realizadas na residência da família Baudin que o codificador espírita iniciou seriamente sua pesquisa psíquica, o que resultou na codificação do Espiritismo. As sessões duraram entre 1855 e 1857, quando cada qual, após contrair matrimônio, foi morar em lugar diferente do restante da família.

Dados biográficos da Família Baudin:

Caroline e Pélagie são filhas do casamento do comerciante e engenheiro civil François Alphonse Baudin (1802 - 1871) com Barbe Mathilde Eberlen dite Avrelet (1808-1877), ambos da comuna Gray, departamento de Haute-Soâne, no nordeste da França, mesma localidade onde nasceram as duas irmãs. A primogênita, Catherine Caroline Baudin, nasceu em 13 de janeiro de 1827 e a sua irmã, Pélagie Baudin, em 3 de outubro de 1829. Elas tiveram um irmão: Gustave Baudin, nascido em 1845.

Estabelecida em Paris, a família Baudin teve pelo menos dois endereços certos: a Rua Rochechouart n° 66, onde em 1855 tiveram o primeiro contato com Kardec, e logo mais na Rua Lamartine n° 34, em 1856, onde continuaram realizando as reuniões espíritas.

Ambas se casaram no mesmo dia, a 13 de agosto de 1857, em Paris, conforme os proclamas de casamento publicados no jornal Le Constitutionnel, ano 42, n° 216. Com a idade de 30 anos, Caroline casou-se com Émile François Frédéric Chailan de Moriés, com que teve duas filhas (Hélène em 1863 e Alice em 1868), enquanto moravam em Nanterre, nos arredores parisienses. Por sua vez, aos 27 anos. Pélagie contraiu núpcias com Alfred Nourisson, um engenheiro civil, e foi morar em Courbevoie, também região metropolitana de Paris, e lá teve um filho em 1871.

Caroline faleceu aos 56 anos de idade, a 29 de novembro de 1883, em Puteaux. Sua irmã desencarnou em Neuilly-sur-Seine, a 22 de agosto de 1887, quando somava 57 anos de idade.

Os Baudin segundo Canuto Abreu:

Antes que fontes oficiais fossem disponibilizadas com todas as facilidades da internet, o que os historiadores espíritas sabiam sobre a família Baudin provinha basicamente das informações contidas nas anotações de Allan Kardec sobre a sua iniciação ao Espiritismo — informações bem singelas, enquanto acessórias em relação à abrangência e os objetivos de sua obra doutrinária — e de um romance do pesquisador espírita Canuto Abreu: O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária, que, como o próprio título diz, é uma narrativa que mescla traços reais da História do lançamento inaugural do Espiritismo e traços lendários, fictícios — adornos literários, recurso particular do gênero proposto para essa obra. A partir daí uma série de desencontros acerca dos dados biográficos da família Baudin acabou por cristalizar informações equivocadas.

Dentre esses desencontros biográficos, talvez o mais saliente seja a ideia de que as irmãs eram menininhas, bem jovens e ingênuas, para transpassar a noção de “pureza” da qual a codificação espírita se revestira. Segundo o Dr. Canuto, Caroline e sua irmã tinham respectivamente 18 e 16 anos na ocasião do lançamento de O Livro dos Espíritos, enquanto que fontes históricas hoje nos asseguram que Caroline já tinha 30 anos e a caçula 27.

Vejamos como Dr. Canuto descreve a irmã mais velha:

"Nos seus dezoito anos, Caroline — a quem O Livro devia tanto — não avaliava, sequer por sonho, a gratidão do Autor. E era ela quem lhe agradecia um simples gesto de obsequiosidade! Sincera e ingênua, mostrando facilmente os dentes alvos e alinhados em esplêndida gengiva de carmim, e tendo o rosto, lindo e cândido, emoldurado pelos cachos de cabelos crespos e louros que lhe caiam aos ombros. Caroline era, pelo caráter e coração, como um anjo vindo ao mundo para anunciar uma revelação nova."

O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária, Canuto Abreu - cap. 4

Características da mediunidade das irmãs Baudin:

Não há informações sobre o início das atividades mediúnicas das irmãs Baudin. Sabemos que quando elas conheceram o professor Rivail (Allan Kardec), em 1855 — Caroline com a idade de 28 anos e Pélagie com 26 — elas já tinham suas capacidades mediúnicas bem desenvolvidas e a família Baudin já realiza sessões de evocação semanalmente há um certo tempo.

Certa vez, Kardec descreveu as características da atividade mediúnica de uma das senhoritas Baudin — no caso, Caroline, mas que podem não se diferenciar muito das capacidades da sua irmã:

"O médium que lhe servia de intérprete era a Srta. Caroline B..., uma das filhas do dono da casa, do gênero exclusivamente passivo e que não tinha a menor consciência do que escrevia, podendo rir e conversar como bem lhe aprouvesse, o que fazia com prazer, enquanto sua mão se movimentava sobre o papel. Durante muito tempo o meio mecânico empregado foi a cesta de bico. Mais tarde a médium se serviu da psicografia direta."

Allan Kardec — Revista Espírita - nov. de 1858: “Uma noite esquecida ou Manuza, a feiticeira”

O encontro com Kardec:

Como visto, Allan Kardec conheceu a família Baudin em 1855, durante uma sessão mediúnica na casa da Sra. Plainemaison e, feito o convite pelos anfitriões, ele passou a participar também das sessões semanais que os Baudin realizavam em sua residência, na Rua Rochechouart, Paris, França.

"Eram bastante numerosas essas reuniões; além dos frequentadores habituais, admitiam-se todos os que solicitavam permissão para assistir a elas. Os médiuns eram as duas senhoritas Baudin, que escreviam numa ardósia com o auxílio de uma cesta, chamada carrapeta e que se encontra descrita em O Livro dos Médiuns. Esse processo, que exige o auxílio de duas pessoas, exclui toda possibilidade de intromissão das ideias do médium. Aí, tive ensejo de ver comunicações contínuas e respostas a perguntas formuladas — algumas vezes até perguntas mentais — que, de modo evidente, acusavam a intervenção de uma inteligência estranha."

Allan Kardec — Obras Póstumas – 2ª parte – “A minha primeira iniciação ao Espiritismo”

Essas reuniões tratavam de coisas corriqueiras e frívolas, bem ao caráter do Espírito Zéfiro, que ali se manifestava frequentemente e se dizia protetor da família Baudin. Kardec anotou que tal entidade não de grande elevação, mas era bom e simpático para com o codificador espírita, tanto que, secundado por Espíritos superiores, auxiliou em muitos trabalhos na sua pesquisa espírita, que se iniciou precisamente ali, na casa dos Baudin.

A presença de Kardec — ou melhor, do respeitado Prof. Rivail — e os seus sérios propósitos de se instruir acerca das leis espirituais deram um novo caráter àquelas reuniões:

"Tentei obter lá a resolução dos problemas que me interessavam, do ponto de vista da Filosofia, da Psicologia e da natureza do mundo invisível. Levava para cada sessão uma série de questões preparadas e metodicamente dispostas. Eram sempre respondidas com precisão, profundeza e lógica. A partir de então, as sessões assumiram caráter muito diverso. Entre os assistentes contavam-se pessoas sérias, que tomaram vivo interesse por elas e, se me acontecia faltar, ficavam sem saberem o que fazer. Para a maioria, as perguntas fúteis haviam perdido todo atrativo. Eu, a princípio, cuidara apenas de instruir-me; mais tarde, quando vi que aquilo constituía um conjunto e ganhava as proporções de uma doutrina, tive a ideia de publicar os ensinos recebidos, para instrução de todas as pessoas. Foram aquelas mesmas questões que, sucessivamente desenvolvidas e completadas, formaram a base de O Livro dos Espíritos."

Idem

A participação de Kardec nas sessões com as irmãs Baudin continuou pelos dois anos seguintes, 1856, embora não com exclusividade: ele frequentava ao mesmo tempo as reuniões na casa do Sr. Roustan e na da Sra. Japhet. Um ano depois ele publicaria O Livro dos Espíritos (18 de abril de 1857), e deixaria registrado o paradeiro dos Baudin.

"Pelos fins desse mesmo ano, as duas Srtas. Baudin se casaram; as reuniões cessaram e a família se dispersou. Mas, então, já as minhas relações começavam a dilatar-se e os Espíritos me multiplicaram os meios de instrução, tendo em vista meus trabalhos seguintes."

Idem

O trabalho mediúnico das irmãs Baudin:

No princípio de sua obra, Kardec havia adotado o critério de não dar evidência aos médiuns — seja para lhes preservar a segurança, seja para não incitar o personalismo, o orgulho e a vaidade. Assim foi que se eximiu de nominá-los nas respectivas comunicações inseridas, por exemplo, em O Livro dos Espíritos. Em alguns casos, porém, ele tirava o medianeiro do anonimato e especificava a autoria mediúnica de certas mensagens, tal como vemos em Obras Póstumas as irmãs Baudin aparecendo em transcrições de importantíssimos intercâmbios espirituais, a exemplo do diálogo entre Kardec e Zéfiro, datada de 11 de dezembro de 1855, quando aquele Espírito lhe falava pela primeira vez do seu Guia Espiritual — Espírito Verdade — que mais tarde dialogaria com Kardec através da mediunidade das irmãs Baudin.

Noutro momento capital, em 17 de junho de 1856, as irmãs Baudin transmitem a Kardec a mensagem do seu guia quanto a necessidade de várias publicações doutrinárias, além de O Livro dos Espíritos que estava prestes a ser lançado:

"(...) Por muito importante que seja esse primeiro trabalho, de certo modo, ele não é mais do que uma introdução. Assumirá proporções que agora está longe de suspeitar. Tu mesmo compreenderás que certas partes só poderão ser reveladas muito mais tarde e gradualmente, à medida que as novas ideias se desenvolverem e enraizarem. Dar tudo de uma vez seria imprudente. Importa dar tempo para que a opinião se forme. Topará com alguns impacientes que procurarão empurrar-te para diante: não lhes dês ouvidos. Veja, observa, sonda o terreno, dispõe-te a esperar e faze como o general cauteloso que não ataca, senão quando chega o momento favorável."

Espírito Verdade — Obras Póstumas - 2ª parte – “A minha primeira iniciação ao Espiritismo”

Também foi pela mediunidade das irmãs Baudin que o codificador do Espiritismo recebeu orientações do Espírito Zéfiro sobre a necessidade de Kardec reencarnar em breve para completar sua obra (17 de janeiro de 1857).

Outra extraordinária produção da casa Baudin de que temos notificação foi o conto ditado pelo Espírito do célebre escritor francês Frédéric Soulié (1847-1837) “Milésima noite dos contos árabes”, psicografado por Caroline em 1856 e publicado na Revista Espírita (edições de nov. de 1858, jan. e fev. de 1859), prefaciado por Kardec, do qual recortamos um trecho:

"Não a damos absolutamente como obra de elevado alcance filosófico, mas como curiosa amostra de um trabalho de grande fôlego obtido dos Espíritos. Notaremos como tudo nele tem sequência, como tudo se encadeia com uma arte admirável. O que há de mais extraordinário é que esse relato foi retomado em cinco ou seis ocasiões diferentes e, muitas vezes, após interrupções de duas ou três semanas. Ora, a cada vez que recomeçava, o assunto continuava como se tivesse sido escrito de um sorvo, sem rasuras, sem aditamentos, e sem que houvesse necessidade de lembrar o que antes já fora relatado. Nós o damos, tal qual saiu do lápis do médium, sem nada haver mudado, nem no estilo, nem nas ideias e nem no encadeamento dos fatos. Algumas repetições de palavras e pequenos senões de ortografia foram percebidos, tendo o próprio Soulié nos encarregado de os corrigir, dizendo que nos assistiria nesse mister. Quando tudo estava terminado ele quis rever o conjunto, ao qual fez apenas algumas retificações sem importância, autorizando a sua publicação como bem o entendêssemos e cedendo, com satisfação, os direitos autorais."

Allan Kardec — Revista Espírita - nov. de 1858: “Uma noite esquecida ou Manouza, a feiticeira”

Por esses exemplos e por tantos outros trabalhos anônimos — que bem podemos supor estarem distribuídos nas obras básicas da codificação espírita — temos as irmãs Baudin na conta de grandes contribuídas do Espiritismo, cuja índole não podemos medir, contudo, em razão de terem sido transmissoras de importantes notificações espirituais e de terem emprestado sua mediunidade a entidades nobres — como o próprio Espírito Verdade — nada impede de presumirmos serem já de certa elevação, inclusive pelo exemplo de abnegação no exercício de suas faculdades psíquicas em favor da pesquisa espirita.

Referências:

Obras Póstumas, Allan Kardec (ebook online).

Revista Espírita, Allan Kardec - especialmente as coleção de 1858 (ebook online) e 1859 (ebook online).

Artigo A verdadeira identidade das primeiras médiuns utilizadas por Kardec, Carlos Seth Bastos (Artigo online, acessado em maio, 2019).

Fanpage CSI: Imagens e registros históricos do Espiritismo no Facebook (link, acessado em maio, 2019)

O Livro dos Espíritos em sua trajetória Histórica e Lendária, Canuto Abreu (ebook online).

MINHA MISSÃO

12 de junho de 1856 — (Em casa do Sr. C…; médium: Srta Aline Carlloti…)

Pergunta. (à Verdade) — Bom Espírito, eu desejara saber o que pensas da missão que alguns Espíritos me assinaram. Dize-me, peço-te, se é uma prova para o meu amor-próprio. Tenho, como sabes, o maior desejo de contribuir para a propagação da verdade, mas, do papel de simples trabalhador ao de missionário em chefe, a distância é grande e não percebo o que possa justificar em mim graça tal, de preferência a tantos outros que possuem talento e qualidades de que não disponho.

Resposta. — Confirmo o que te foi dito, mas recomendo-te muita discrição, se quiseres sair-te bem. Tomarás mais tarde conhecimento de coisas que te explicarão o que ora te surpreende. Não esqueças que podes triunfar, como podes falir. Neste último caso, outro te substituiria, porquanto os desígnios de Deus não assentam na cabeça de um homem.

Nunca, pois, fales da tua missão; seria a maneira de a fazeres malograr-se. Ela somente pode justificar-se pela obra realizada e tu ainda nada fizeste. Se a cumprires, os homens saberão reconhecê-lo, cedo ou tarde, visto que pelos frutos é que se verifica a qualidade da árvore.

P. — Nenhum desejo tenho certamente de me vangloriar de uma missão na qual dificilmente creio. Se estou destinado a servir de instrumento aos desígnios da Providência, que ela disponha de mim. Nesse caso, reclamo a tua assistência e a dos bons Espíritos, no sentido de me ajudarem e ampararem na minha tarefa.

R. — A nossa assistência não te faltará, mas será inútil se, de teu lado, não fizeres o que for necessário. Tens o teu livre-arbítrio, do qual podes usar como o entenderes. Nenhum homem é constrangido a fazer coisa alguma.

P.— Que causas poderiam determinar o meu malogro? Seria a insuficiência das minhas capacidades?

R. — Não; mas, a missão dos reformadores é prenhe de escolhos e perigos. Previno-te de que é rude a tua, porquanto se trata de abalar e transformar o mundo inteiro. Não suponhas que te baste publicar um livro, dois livros, dez livros, para em seguida ficares tranquilamente em casa. Tens que expor a tua pessoa.

Suscitarás contra ti ódios terríveis; inimigos encarniçados se conjurarão para tua perda; ver-te-ás a braços com a malevolência, com a calúnia, com a traição mesma dos que te parecerão os mais dedicados; as tuas melhores instruções serão desprezadas e falseadas; por mais de uma vez sucumbirás sob o peso da fadiga; numa palavra: terás de sustentar uma luta quase contínua, com sacrifício de teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde e até da tua vida, pois, sem isso, viverias muito mais tempo.

Ora bem! não poucos recuam quando, em vez de uma estrada florida, só veem sob os passos urzes, pedras agudas e serpentes. Para tais missões, não basta a inteligência. Faz-se mister, primeiramente, para agradar a Deus, humildade, modéstia e desinteresse, visto que Ele abate os orgulhosos, os presunçosos e os ambiciosos.

Para lutar contra os homens, são indispensáveis coragem, perseverança e inabalável firmeza. Também são de necessidade prudência e tato, a fim de conduzir as coisas de modo conveniente e não lhes comprometer o êxito com palavras ou medidas intempestivas. Exigem-se, por fim, devotamento, abnegação e disposição a todos os sacrifícios.

Vês, assim, que a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti.

Espírito Verdade

Eu. — Espírito Verdade, agradeço os teus sábios conselhos. Aceito tudo, sem restrição e sem ideia preconcebida.

Senhor! pois que te dignaste lançar os olhos sobre mim para cumprimento dos teus desígnios, faça-se a tua vontade! Está nas tuas mãos a minha vida; dispõe do teu servo. Reconheço a minha fraqueza diante de tão grande tarefa; a minha boa-vontade não desfalecerá, as forças, porém, talvez me traiam.

Supre à minha deficiência; dá-me as forças físicas e morais que me forem necessárias. Ampara-me nos momentos difíceis e, com o teu auxílio e dos teus celestes mensageiros, tudo envidarei para corresponder aos teus desígnios.

NOTA. — Escrevo esta nota a 1° de janeiro de 1867, dez anos e meio depois que me foi dada a comunicação acima e atesto que ela se realizou em todos os pontos, pois experimentei todas as vicissitudes que me foram preditas.

Andei em luta com o ódio de inimigos encarniçados, com a injúria, a calúnia, a inveja e o ciúme; libelos infames se publicaram contra mim; as minhas melhores instruções foram falseadas; traíram-me aqueles em quem eu mais confiança depositava, pagaram-me com a ingratidão aqueles a quem prestei serviços. A Sociedade de Paris se constituiu foco de contínuas intrigas urdidas contra mim por aqueles mesmos que se declaravam a meu favor e que, da boa fisionomia na minha presença, pelas costas me golpeavam.

Disseram que os que se me conservavam fiéis estavam à minha soldada e que eu lhes pagava com o dinheiro que ganhava do Espiritismo. Nunca mais me foi dado saber o que é o repouso; mais de uma vez sucumbi ao excesso de trabalho, tive abalada a saúde e comprometida a existência.

Graças, porém, à proteção e assistência dos bons Espíritos que incessantemente me deram manifestas provas de solicitude, tenho a ventura de reconhecer que nunca senti o menor desfalecimento ou desânimo e que prossegui, sempre com o mesmo ardor, no desempenho da minha tarefa, sem me preocupar com a maldade de que era objeto. Segundo a comunicação do Espírito de Verdade, eu tinha de contar com tudo isso e tudo se verificou.

Mas, também, a par dessas vicissitudes, que de satisfações experimentei, vendo a obra crescer de maneira tão prodigiosa! Com que compensações deliciosas foram pagas as minhas tribulações! Que de bênçãos e de provas de real simpatia recebi da parte de muitos aflitos a quem a Doutrina consolou! Este resultado não mo anunciou o Espírito de Verdade que, sem dúvida intencionalmente, apenas me mostrara as dificuldades do caminho.

Qual não seria, pois, a minha ingratidão, se me queixasse! Se dissesse que há uma compensação entre o bem e o mal, não estaria com a verdade, porquanto o bem, refiro-me às satisfações morais, sobrelevaram de muito o mal.

Quando me sobrevinha uma decepção, uma contrariedade qualquer, eu me elevava pelo pensamento acima da Humanidade e me colocava antecipadamente na região dos Espíritos e desse ponto culminante, donde divisava o da minha chegada, as misérias da vida deslizavam por sobre mim sem me atingirem. Tão habitual se me tornara esse modo de proceder, que os gritos dos maus jamais me perturbaram.

Fonte: Obras Póstumas de Allan Kardec

17 de junho de 1856 — (Em casa do Sr. Baudin; médium: Srta Baudin)

Pergunta. (à Verdade) — Uma parte da obra foi revista, quererás ter a bondade de dizer o que dela pensas?

Resposta. — O que foi revisto está bem; mas, quando a obra estiver acabada, deverás tornar a revê-la, a fim de ampliá-la em certos pontos e abreviá-la noutros.

P. — Entendes que deva ser publicada antes que os acontecimentos preditos se tenham realizado?

R. — Uma parte, sim; tudo não, pois, afirmo-te, vamos ter capítulos muito espinhosos. Por muito importante que seja esse primeiro trabalho, ele não é, de certo modo, mais do que uma introdução. Assumirá proporções que longe estás agora de suspeitar. Tu mesmo compreenderás que certas partes só muito mais tarde e gradualmente poderão ser dadas a lume, à medida que as novas ideias se desenvolverem e enraizarem.

Dar tudo de uma vez fora imprudente. Importa dar tempo a que a opinião se forme. Toparás com alguns impacientes que procurarão empurrar-te para diante: não lhes dês ouvidos. Vê, observa, sonda o terreno, dispõe-te a esperar e faze como o general cauteloso que não ataca, senão quando chega o momento favorável.

NOTA. — (Escrita em janeiro de 1867) — Na época em que essa comunicação foi dada, eu apenas tinha em vista O Livro dos Espíritos e longe estava, como disse o Espírito, de imaginar as proporções que tomaria o conjunto do trabalho. Os acontecimentos preditos só decorridos muitos anos teriam de verificar-se, tanto que neste momento ainda não se deram. As obras que até agora apareceram foram publicadas sucessivamente e eu fui induzido a elaborá-las, à medida que as novas ideias se desenvolveram.

Das que restam por fazer, a mais importante, a que se poderá considerar a cúpula do edifício e que, com efeito, encerra os capítulos mais espinhosos, não poderia ser publicada, sem prejuízo, antes do período dos desastres. Eu, então, um único livro via e não compreendia que esse pudesse cindir-se, enquanto que o Espírito aludia aos que teriam de seguir-se e cuja publicação prematura apresentaria inconvenientes.

“Dispõe-te a esperar, disse o Espírito; não dês ouvidos aos impacientes que procurem empurrar-te para diante.” Os impacientes não faltaram e, se eu os escutara, teria atirado o navio em cheio nos arrecifes. Coisa estranha! ao passo que uns me incitavam a andar mais depressa, outros me acusavam de não ir tão devagar quanto devia. Não dei ouvidos nem a uns, nem a outros, tomando sempre por bússola a marcha das ideias.

De que confiança no futuro não me enchia eu, à proporção que via realizar-se o que fora predito e que comprovava a profundeza e a sabedoria das instruções dos meus protetores invisíveis!

Fonte: Obras Póstumas de Allan Kardec

11 de setembro de 1856 — (Em casa do Sr. Baudin; médium: Srta Baudin)

Depois de haver eu procedido à leitura de alguns capítulos de O Livro dos Espíritos, concernentes às leis morais, o médium espontaneamente escreveu:

“Compreendeste bem o objetivo do teu trabalho. O plano está bem concebido. Estamos satisfeitos contigo. Continua, mas, lembra-te, sobretudo quando a obra se achar concluída, de que te recomendamos que a mandes imprimir e propagar. É de utilidade geral. Estamos satisfeitos e nunca te abandonaremos. Crê em Deus e avante.”

Muitos Espíritos

Fonte: Obras Póstumas de Allan Kardec

As "mesas girantes" num salão parisiense

L’Illustration - Journal Universel (1853)

Cesta de bico do século XIX usada na época em que Denizard Hippolyte León Rivail (Allan Kardec) presenciou pela primeira vez alguns ensaios da escrita mediúnica.

 Ver no site o pesquisador espírita Canuto Abreu

Fontes: Allan Kardec.OnLine (Manuscritos Raros e Inéditos de Allan Kardec - Museu Virtual e Historiografia do Espiritismo)

Fontes: Jornal de Estudos Espíritas

Fontes: Luz Espírita - Espiritismo em Movimento

 

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

CSI do Espiritismo - Carlos Seth Bastos - A verdadeira identidade das primeiras médiuns utilizadas por Kardec

 

Canuto de Abreu - O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária

 

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