As Médiuns dos Círculos de Allan Kardec

(Julie Baudin - Caroline Baudin - Ruth Japhet - ALINE CARLLOTI)

NOS BASTIDORES DA ELABORAÇÃO DO o livro dos espíritos

 

os princípios da codificação espírita

 

Canuto de Abreu

O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária
 

Apresentação:

Na sala principal de uma mansão em Paris, um grupo de senhores elegantes observa em silêncio a jovem de 14 anos. Julie Baudin está sentada em frente à mesa redonda e segura um estranho objeto – uma cesta com um lápis encaixado na borda, que risca letras em espiral. Cada palavra é analisada atentamente por um dos homens. A garota parece não saber por que os adultos olham para ela tão concentrados – a cada passo ela ri e faz algum comentário engraçado. Suas mãos, porém, desenham no papel frases que em poucos meses irão fundar uma religião: o Espiritismo.

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Publicado pela primeira vez em 1857, o Livro dos Espíritos foi organizado em cerca de 20 meses pelo professor francês Allan Kardec, que coordenou longas reuniões com vários médiuns, fazendo perguntas aos Espíritos e colhendo respostas.

Allan Kardec contou com o auxílio de jovens médiuns que foram: Julie Baudin (15 anos), Caroline Baudin (18 anos), Ruth Japhet e Aline Carlotti (20 anos). As médiuns eram ferramentas perfeitamente preparadas e amparadas pela espiritualidade.

Organizando as respostas para 501 perguntas sobre vários temas, Kardec iniciou o Espiritismo e a visão do mundo do espiritual fazendo dos fenômenos muito mais que uma diversão da alta burguesia francesa.

Na época, os fenômenos mediúnicos serviam como passatempo nos salões de Paris, que começava a ganhar aspectos universais. A partir de 1850, a cidade passou por uma grande reforma. Ruelas medievais e casebres deram lugar a avenidas largas e bulevares que convergiam no Arco do Triunfo, símbolo da força da modernidade e da nova burguesia francesa. Com novos parques, a cidade se preparava para virar o século como a Cidade das Luzes. Era tempo de revolução industrial e descobertas científicas, que tornavam o homem capaz de explicar e interferir nos fenômenos ao seu redor. Ou em quase todos.

Porque no meio de toda essa modernidade, as mesas girantes eram uma febre que assolava Paris no começo de 1850. Eram comuns as reuniões em salões culturais ou mansões de senhoras da sociedade, nos quais as pessoas iam para girar mesas apenas com o poder da concentração.

“Toda a Europa tem o espírito voltado para uma experiência que consiste em fazer girar uma mesa”, afirmou o jornal L’Illustration edição de 14 de maio de 1853. “Ide por aqui, ide por ali, nos grandes salões, nas mais humildes mansardas, no atelier do pintor – e vereis pessoas gravemente assentadas em torno de uma mesa vazia, que elas contemplam à semelhança daqueles crentes que passam a vida a olhar seus umbigos. ” Nas reuniões, havia poetas, intelectuais e nobres. O poeta Victor Hugo era frequentador assíduo das reuniões e chegou a escrever que “negar a atenção a que tem direito o fenômeno espiritual é desviar a atenção da verdade”.

Numa noite de maio de 1855, a reunião das mesas girantes aconteceu na casa da senhora Plainemaison. Uma das pessoas que compareceu à reunião foi Hippolyte Léon Denizard Rivail, um professor de ciências de 50 anos. Mais tarde, ele contaria como a visita o deixou impressionado. As mesas, segundo ele, não só giravam como batiam no chão e se moviam “em condições que não deixam margem a qualquer dúvida”. A reunião na casa da sra. Plainemaison deixou Rivail aturdido. “Entrevi naquelas aparentes futilidades, no passatempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim investigar a fundo”, escreveria o professor, posteriormente.

Iniciam as sessões

Rivail passou meses observando o fenômeno naquela e em outras casas da cidade, como a do casal Boudin, que tinham duas filhas que acreditavam ser médiuns. O mais estarrecedor era que as mesas pareciam não só rodar como também falar. Isso mesmo: pareciam indicar letras com pancadas no chão e, quando interrogadas, moviam-se para a direita ou esquerda, tentando comunicar “sim” ou “não”. “Se as pessoas viam o fenômeno como uma diversão, Rivail ia às reuniões de mesas girantes como um cientista. Fazia perguntas sérias e anotava as respostas que conseguia. Em abril de 1856, 11 meses após à primeira visita àquelas reuniões, a mensagem da mesa perturbou ainda mais aquele catedrático e notável educador. Um espírito teria escolhido Rivail para reunir e publicar os ensinamentos que ele obtinha nas mesas. Rivail não acreditou e pediu que o espírito repetisse a mensagem. “Confirmo o que foi dito, mas recomendo discrição, se quiser se sair bem. Tomará mais tarde conhecimento de coisas que agora o surpreendem”, foi a mensagem que ele recebeu como resposta.

Assim o trabalho principiou. Todas às terças-feiras, Rivail frequentava a casa do casal Boudin. Julie Boudin, a filha de 14 anos, e sua irmã Caroline Boudin, de 16 anos, psicografaram quase todas as questões que foram publicadas na primeira edição de O Livro dos Espíritos em 1857. Como a identidade das duas foi mantida em segredo por muitos anos, sabe-se pouco sobre elas. O que se conhece é que Julie era uma médium passiva e inconsciente durante o transe psicográfico. Somente achava divertido as pessoas lhe darem tanta importância. As reuniões, dirigidas por seus pais, não eram secretas, entretanto restritas a poucos convidados. Para psicografarem as mensagens, Julie e Caroline usavam uma cesta-de-bico, confeccionada de vime, com 15 a 20 centímetros de diâmetro e uma espécie de bico com um lápis adaptado na ponta. “Pondo o médium os dedos nas bordas da cesta e a mesma se movia e o lápis começava a escrever”, contou Kardec em O Livro dos Médiuns. Com o tempo, as jovens Boudin passaram a usar a psicografia direta, tal como o fazia no século XX o notável Chico Xavier.

Diante delas, Rivail fazia perguntas que nós, mortais, sempre quisemos fazer a quem passa pela morte e volta para contar. A quarta pergunta de O Livro dos Espíritos, por exemplo, é “Poderíamos dizer que Deus é infinito? ” E a resposta: “Definição incompleta. Pobreza da linguagem dos homens, insuficiente para definir coisas acima de sua inteligência”. A questão 150 é “A alma, após a morte, conserva sua individualidade? Sim, nunca a perde. O que seria ela se não a conservasse?” Responderam os Benfeitores.

As respostas que Caroline e Julie psicografavam eram revistas, analisadas e muitas vezes comparadas com as outras mensagens.

Na fase de revisão, a médium que mais contribuiu foi Ruth Japhet, uma jovem sonâmbula que possuía cerca de 50 cadernos contendo mensagens que psicografava à noite. Para Rivail, a revisão era necessária, primeiro, por causa da dificuldade em se entender o que os espíritos diziam, segundo, porque, para ele, os espíritos não eram donos de toda a sabedoria do Universo.

“Um dos primeiros resultados das minhas observações, disse Kardec, foi que os espíritos, não sendo senão as almas dos homens, não tinham nem a soberana sabedoria nem a soberana ciência; que seu saber era limitado ao grau de adiantamento; e que a opinião deles não tinha senão o valor de uma opinião pessoal”, conforme consta em O Livro dos Médiuns. Por isso, o Codificador afirmava que muitas mensagens de entidades eram ignoradas, ou por terem gracejos ofensivos ou por não serem coerentes. Também por esse motivo, quanto o maior número de médiuns participantes da composição do livro, melhor seria. Segundo Kardec, mais de 10 médiuns contribuíram para a formatação da primeira edição de O Livro dos Espíritos.

Quando Rivail acabou de editar as perguntas, surgiu um problema: qual seria o título e quem deveria assinar a obra? Como não se considerava autor, e sim um organizador, intitulou de: O Livro dos Espíritos. Mas alguém precisava assiná-lo. “Rivail consultou os espíritos e uma entidade sugeriu o nome de Allan Kardec, porque esse tinha sido o nome que Rivail teve numa vida passada, na condição de ex-sacerdote druida.” Assim surgiu o nome do Codificador do Espiritismo.

Em 18 de abril de 1857, os primeiros exemplares sairiam da Tipografia de Beau, em Saint-Germain-en-Laye, cidade vizinha a Paris. O livro rapidamente expandiu-se pelo mundo e criou polêmica, provocando protestos de eclesiásticos e cientistas céticos, mas atraindo a atenção de outros sábios e alguns médiuns, que entraram em contato com Kardec. O Codificador percebeu que seu trabalho ainda não estava terminado. Eram diversas novas revelações que ele decidiu revisar mais uma vez e desdobrar o livro, refundindo questões e ampliando consideravelmente os temas e os publicou na segunda edição, que se tronou definitiva, contendo 1019 perguntas.

A última questão me derradeira resposta da obra foram: “O reino do bem poderá um dia realizar-se na Terra?” Explicaram os mentores a Kardec “O bem reinará na Terra quando, entre os espíritos que vêm habitá-la, os bons predominarem sobre os maus; então eles farão reinar na Terra o amor e a justiça, que são a fonte do bem e da felicidade”. Estava consolidada a primeira obra literária do Espiritismo, com ela, uma nova doutrina para a Humanidade.

Fonte bibliográfica: Canuto de Abreu - O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária

Trechos da obra:

NA RUE DES MARTYRS N° 8, realizou-se em 18/04/1857, à noite, a recepção preparada pelo casal RIVAIL. O pequeno apartamento comportava, a rigor, vinte pessoas e, por isso, limitara-se o número de convidados. A família BAUDIN foi a primeira a chegar. Clémantine, esposa de Emile-Charles BAUDIN, contou a RIVAIL a alegria das duas filhas quando, por volta das cinco da tarde, cada qual recebera um exemplar d’ O LIVRO com oferenda do Autor:

— Nunca lhes acontecera antes uma tal distinção. O senhor foi muito gentil; deixou-as sensibilizadas.

Caroline Baudin atalhou, sorrindo.

— Obrigada pelo presente, professor. Quanta bondade a sua! Andava ansiosa por ver impresso O LIVRO. Jamais imaginei levasse tanto tempo na tipografia.

— Quase quatro meses, replicou RIVAIL. Mas hoje tudo é demorado e a obra foi composta fora de Paris, em oficina modesta e cheia de serviço.

— Agora, continuou a moça, sinto-me como aliviada de um dever, como aprovada num exame.

RIVAIL mirou-a com respeitoso afeto. Ela o olhava confiante, como a um mestre venerável e estimado. Nos seus dezoito anos, Caroline — a quem O LIVRO devia tanto — não avaliava, sequer por sonho, a gratidão do Autor. E era ela quem lhe agradecia um simples gesto de obsequiosidade! Sincera e ingênua, mostrando facilmente os dentes alvos e alinhados em esplêndida gengiva de carmim, e tendo o rosto lindo e cândido, emoldurado pelos cachos de cabelos crespos e louros que lhe caiam aos ombros. Caroline era, pelo caráter e coração, como um anjo vindo ao mundo para anunciar uma revelação nova. E sempre risonha, continuou:

— Agora já posso casar-me sossegada...

RIVAIL, exprimindo sinceridade e paternal carinho, respondeu-lhe:

— Agora, pode! Sua tarefa está finda e você, aprovada com distinção. DEUS lhe dará neste e noutro mundo o prêmio da trabalhadora desinteressada e útil. Por que não trouxe o noivo?

— Está longe, em Dijon, preparando as coisas. O casamento foi marcado para julho próximo, se DEUS quiser.

— Vai morar tão distante de nós, Caroline?

— Mais longe ainda, Professor. Depois do casamento de Julie, voltaremos todos para a Ilha da Reunião.

— Seu noivo não é oficial do Exército?

— É, sim; mas deixará a carreira militar para ajudar papai na administração da fazenda. O mesmo fará o noivo de Julie, que se forma este ano em Medicina.

— Em agosto, completou Julie.

— E você, filhinha, vai também casar-se tão mocinha?

— Espero casar-me em outubro, ao completar 16 anos. Não escolhemos a mesma data de casamento porque, dizem, não dá sorte a uma das noivas...

— Superstição, menina! Cada um de nós traz seu destino matrimonial que o dia, o mês, o ano e a coincidência de outro casamento na família jamais, a meu ver, poderia modificar.

— Mas Raymond quer formar-se primeiro e, assim, ficaremos em Paris até o Outono.

— Esse motivo é mais razoável, respondeu RIVAIL sorrindo...

— Diga, Professor, interveio Caroline: O Casamento é mesmo de destino?

— Acha Você que o mais importante ato de nossa vida terrena — sobretudo para a mulher — poderia escapar ao plano de progresso que nos é traçado antes de nascermos? Já se esqueceu das lições recebidas a respeito?

— Creio no destino matrimonial, disse Julie. Mas Raymond é cético. Para ele o destino é a vontade da gente.

— Em parte, sim; em parte, não, respondeu RIVAIL. Gostaria de falar com ele. Regra geral, os estudantes de Medicina são céticos. Não encontram a Alma no cadáver e julgam não existir, também, na pessoa viva. Confundem-na com o princípio vital. Traga-me seu noivo um dia.

E para BAUDIN, que se aproximava:

— Sei que não teve tempo sequer de abrir O LIVRO. Que tal, porém, o título?

— Esplêndido! Não podia ser mais feliz nem mais sugestivo. Foi, entretanto, surpresa para mim. Supunha ia conservar o primitivo de ‘Religião dos Espíritos’.

— Mudei de idéia. A Censura poderia implicar-se com esse título. Por outro lado, os Guias me haviam dito ser O LIVRO apenas o ‘primeiro’ capítulo da Religião Espírita. O título primitivo seria, pois, impróprio.

— O novo nome exprime bem a procedência d’O LIVRO. Os Guias sempre nos disseram (lembra-se?) que, na essência, a obra era deles. Mas...

— E, realmente, o é. Fiz questão de frisar essa procedência transcendente desde as primeiras linhas, dando a César o que é de César. Portanto, sob esse ponto de vista, O LIVRO é de fato...

— Dos Espíritos, completou BAUDIN. De pleno acordo. Mas...

Perdoe-me, caro amigo! Permita-me uma explicação. O título presta-se bem a essa interpretação; é talvez, a primeira idéia que acode ao leitor. E mesmo, aquela que me veio à mente quando o concebi. Contudo, esse título tem duplo entendimento: Um, aparente; outro, real. Na aparência, O LIVRO vem DOS ESPÍRITOS. É o que todos pensarão, de pronto, como o fez você. No fundo e na realidade o título significa que O LIVRO trata DOS ESPÍRITOS.

Compreendo. Duplo sentido, o visível e o oculto, servindo para explicar a procedência e o objetivo da obra. Nesse caso o nome é ótimo.

— Foi-me inspirado.

Fonte bibliográfica: Canuto de Abreu - O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária

Trechos da obra:

Quando os últimos convidados partiram, após onze horas, Amélie Gabrielle Boudet (esposa de Kardec) apagou as luzes do apartamento e recolheu-se logo ao leito, deixando RIVAIL no escritório, sentado à escrivaninha de carvalho, sob a luz bruxuleante duma vela. Ele apanhou um caderno, já em parte escriturado e com o título ‘Memórias’ e principiou a escrever: “Hoje, finalmente, 18 de abril de 1857, posso dizer que lancei a público o trabalho mais importante de minha vida pelo enorme benefício que, certamente, espalhará. E isto devo...” Susteve a pena por instante e, tirando da gaveta central um dossiê de couro marrom, bojudo de papéis escritos, desatou-o e foi rebuscando entre folhas soltas a comunicação que lhe viera à lembrança ao escrever ‘devo’. Tinha esta nota à margem: “De Zéphir, em 5 de janeiro de 1857, data em que entreguei o manuscrito d’O LIVRO DOS ESPÍRITOS a Madame DENTU”. Evocando, mentalmente, o Espírito amigo que lhe dera, continuou a escrever após a palavra devo: “... Em primeiro lugar a ti, caro Amigo, prezado Companheiro de outrora. Quero deixar aqui transcritas, em destaque, as tuas palavras”:

“Mas qual! A VERDADE não será conhecida tão cedo, nem acreditada pela maioria antes que decorram muitos anos”.

“Você não verá nesta existência senão a aurora do sucesso desta obra”.

“Terá que voltar à Terra, reencarnado ‘noutro corpo’, para completar o que está apenas começando a fazer”.

“Só então verá em plena messe os primeiros frutos da sementeira que O LIVRO DOS ESPÍRITOS vai espalhar pelo Mundo”.

“Agora você terá somente invejosos e competidores que procurarão denegri-lo e contradizê-lo. Não se desencoraje porém! Nem se inquiete com o que disserem ou fizerem contra! Prossiga na tarefa! Continue incessantemente a trabalhar pelo progresso da Humanidade!”

“Enquanto perseverar na via do Bem, onde entrou, Você será sustentado fortemente pelos Espíritos bondosos e servos d’a verdade”.

“No começo do ano passado, prometi minha amizade aos que durante o curso dos Ensinos se portassem convenientemente em todas as circunstâncias. O ano acaba de findar. Quero cumprir a minha promessa, anunciando-lhe: “Você foi o escolhido”.

*

RIVAIL apôs, em seguida, estas palavras:

Obrigado ainda uma vez caro Amigo. Não fiz mais do que o dever para ser digno de sua estima e da confiança de meu Guia. Se agi convenientemente, devo-lhe muito, prezado Irmão. Você guiou-me nos primeiros passos. Trouxe-me os primeiros instrutores. Apresentou-me ao Espírito VERDADE. Mostrou-me algumas páginas antigas de meu passado. E agora nesta mensagem fraternal ao fim de nosso curso, me desvenda um pouco do meu futuro. Obrigado por tudo, mil vezes obrigado! Creio, como Você, que não viverei bastante neste corpo já alquebrado, para ver o triunfo da verdade espírita. Ficarei satisfeito se puder resistir, como você me anuncia, ao desenvolvimento germinativo da Filosofia que começamos a plantar hoje na Terra. A seara é de uns, a colheita é de outros. Assim diz o Evangelho.

Mais de cem exemplares de O LIVRO DOS ESPÍRITOS já se foram neste primeiro dia, doados ou vendidos. Cada volume será um grão de vida nova lançado ao coração de um homem velho. Se algumas sementes caírem em corações ‘maduros ‘haverá, por certo, gloriosas ‘ressurreições mil e duzentas sementes da ‘A VERDADE’ serão lançadas no terreno da opinião. Se uma só frondejar, nosso esforço não foi em vão. Você prometeu, no começo das instruções, ajudar os que se esforçam. Sabe que esforcei. Rejubilo-me em ver que, também você cumpriu a promessa de ‘estimar’ os que se esforçam. Guardarei como preciosa a sua estima... Está ouvindo? O relógio soa meia-noite. Sinto alguém alertar-me em surdida. Adeus caro Amigo!

*

Rivail fechou a pasta de couro marrom sobre o caderno escrito e, levantando-se, ouviu uma voz:

— Até logo, Amigo!

— Até breve, respondeu ele.

E, de castiçal em punho, rumou para o leito, na ponta dos pés, para não despertar Gabi.

Fonte bibliográfica: Canuto de Abreu - O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária

MINHA MISSÃO

12 de junho de 1856 — (Em casa do Sr. C…; médium: Srta Aline Carlloti…)

Pergunta. (à Verdade) — Bom Espírito, eu desejara saber o que pensas da missão que alguns Espíritos me assinaram. Dize-me, peço-te, se é uma prova para o meu amor-próprio. Tenho, como sabes, o maior desejo de contribuir para a propagação da verdade, mas, do papel de simples trabalhador ao de missionário em chefe, a distância é grande e não percebo o que possa justificar em mim graça tal, de preferência a tantos outros que possuem talento e qualidades de que não disponho.

Resposta. — Confirmo o que te foi dito, mas recomendo-te muita discrição, se quiseres sair-te bem. Tomarás mais tarde conhecimento de coisas que te explicarão o que ora te surpreende. Não esqueças que podes triunfar, como podes falir. Neste último caso, outro te substituiria, porquanto os desígnios de Deus não assentam na cabeça de um homem. Nunca, pois, fales da tua missão; seria a maneira de a fazeres malograr-se. Ela somente pode justificar-se pela obra realizada e tu ainda nada fizeste. Se a cumprires, os homens saberão reconhecê-lo, cedo ou tarde, visto que pelos frutos é que se verifica a qualidade da árvore.

P. — Nenhum desejo tenho certamente de me vangloriar de uma missão na qual dificilmente creio. Se estou destinado a servir de instrumento aos desígnios da Providência, que ela disponha de mim. Nesse caso, reclamo a tua assistência e a dos bons Espíritos, no sentido de me ajudarem e ampararem na minha tarefa.

R. — A nossa assistência não te faltará, mas será inútil se, de teu lado, não fizeres o que for necessário. Tens o teu livre-arbítrio, do qual podes usar como o entenderes. Nenhum homem é constrangido a fazer coisa alguma.

P.— Que causas poderiam determinar o meu malogro? Seria a insuficiência das minhas capacidades?

R. — Não; mas, a missão dos reformadores é prenhe de escolhos e perigos. Previno-te de que é rude a tua, porquanto se trata de abalar e transformar o mundo inteiro. Não suponhas que te baste publicar um livro, dois livros, dez livros, para em seguida ficares tranquilamente em casa. Tens que expor a tua pessoa. Suscitarás contra ti ódios terríveis; inimigos encarniçados se conjurarão para tua perda; ver-te-ás a braços com a malevolência, com a calúnia, com a traição mesma dos que te parecerão os mais dedicados; as tuas melhores instruções serão desprezadas e falseadas; por mais de uma vez sucumbirás sob o peso da fadiga; numa palavra: terás de sustentar uma luta quase contínua, com sacrifício de teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde e até da tua vida, pois, sem isso, viverias muito mais tempo.

Ora bem! não poucos recuam quando, em vez de uma estrada florida, só veem sob os passos urzes, pedras agudas e serpentes. Para tais missões, não basta a inteligência. Faz-se mister, primeiramente, para agradar a Deus, humildade, modéstia e desinteresse, visto que Ele abate os orgulhosos, os presunçosos e os ambiciosos. Para lutar contra os homens, são indispensáveis coragem, perseverança e inabalável firmeza. Também são de necessidade prudência e tato, a fim de conduzir as coisas de modo conveniente e não lhes comprometer o êxito com palavras ou medidas intempestivas. Exigem-se, por fim, devotamento, abnegação e disposição a todos os sacrifícios.

Vês, assim, que a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti.

Espírito Verdade

Eu. — Espírito Verdade, agradeço os teus sábios conselhos. Aceito tudo, sem restrição e sem ideia preconcebida.

Senhor! pois que te dignaste lançar os olhos sobre mim para cumprimento dos teus desígnios, faça-se a tua vontade! Está nas tuas mãos a minha vida; dispõe do teu servo. Reconheço a minha fraqueza diante de tão grande tarefa; a minha boa-vontade não desfalecerá, as forças, porém, talvez me traiam. Supre à minha deficiência; dá-me as forças físicas e morais que me forem necessárias. Ampara-me nos momentos difíceis e, com o teu auxílio e dos teus celestes mensageiros, tudo envidarei para corresponder aos teus desígnios.

NOTA. — Escrevo esta nota a 1° de janeiro de 1867, dez anos e meio depois que me foi dada a comunicação acima e atesto que ela se realizou em todos os pontos, pois experimentei todas as vicissitudes que me foram preditas. Andei em luta com o ódio de inimigos encarniçados, com a injúria, a calúnia, a inveja e o ciúme; libelos infames se publicaram contra mim; as minhas melhores instruções foram falseadas; traíram-me aqueles em quem eu mais confiança depositava, pagaram-me com a ingratidão aqueles a quem prestei serviços. A Sociedade de Paris se constituiu foco de contínuas intrigas urdidas contra mim por aqueles mesmos que se declaravam a meu favor e que, da boa fisionomia na minha presença, pelas costas me golpeavam. Disseram que os que se me conservavam fiéis estavam à minha soldada e que eu lhes pagava com o dinheiro que ganhava do Espiritismo. Nunca mais me foi dado saber o que é o repouso; mais de uma vez sucumbi ao excesso de trabalho, tive abalada a saúde e comprometida a existência.

Graças, porém, à proteção e assistência dos bons Espíritos que incessantemente me deram manifestas provas de solicitude, tenho a ventura de reconhecer que nunca senti o menor desfalecimento ou desânimo e que prossegui, sempre com o mesmo ardor, no desempenho da minha tarefa, sem me preocupar com a maldade de que era objeto. Segundo a comunicação do Espírito de Verdade, eu tinha de contar com tudo isso e tudo se verificou.

Mas, também, a par dessas vicissitudes, que de satisfações experimentei, vendo a obra crescer de maneira tão prodigiosa! Com que compensações deliciosas foram pagas as minhas tribulações! Que de bênçãos e de provas de real simpatia recebi da parte de muitos aflitos a quem a Doutrina consolou! Este resultado não mo anunciou o Espírito de Verdade que, sem dúvida intencionalmente, apenas me mostrara as dificuldades do caminho.

Qual não seria, pois, a minha ingratidão, se me queixasse! Se dissesse que há uma compensação entre o bem e o mal, não estaria com a verdade, porquanto o bem, refiro-me às satisfações morais, sobrelevaram de muito o mal. Quando me sobrevinha uma decepção, uma contrariedade qualquer, eu me elevava pelo pensamento acima da Humanidade e me colocava antecipadamente na região dos Espíritos e desse ponto culminante, donde divisava o da minha chegada, as misérias da vida deslizavam por sobre mim sem me atingirem. Tão habitual se me tornara esse modo de proceder, que os gritos dos maus jamais me perturbaram.

Fonte bibliográfica: Obras Póstumas de Allan Kardec

17 de junho de 1856 — (Em casa do Sr. Baudin; médium: Srta Baudin)

Pergunta. (à Verdade) — Uma parte da obra foi revista, quererás ter a bondade de dizer o que dela pensas?

Resposta. — O que foi revisto está bem; mas, quando a obra estiver acabada, deverás tornar a revê-la, a fim de ampliá-la em certos pontos e abreviá-la noutros.

P. — Entendes que deva ser publicada antes que os acontecimentos preditos se tenham realizado?

R. — Uma parte, sim; tudo não, pois, afirmo-te, vamos ter capítulos muito espinhosos. Por muito importante que seja esse primeiro trabalho, ele não é, de certo modo, mais do que uma introdução. Assumirá proporções que longe estás agora de suspeitar. Tu mesmo compreenderás que certas partes só muito mais tarde e gradualmente poderão ser dadas a lume, à medida que as novas ideias se desenvolverem e enraizarem. Dar tudo de uma vez fora imprudente. Importa dar tempo a que a opinião se forme. Toparás com alguns impacientes que procurarão empurrar-te para diante: não lhes dês ouvidos. Vê, observa, sonda o terreno, dispõe-te a esperar e faze como o general cauteloso que não ataca, senão quando chega o momento favorável.

NOTA. — (Escrita em janeiro de 1867) — Na época em que essa comunicação foi dada, eu apenas tinha em vista O Livro dos Espíritos e longe estava, como disse o Espírito, de imaginar as proporções que tomaria o conjunto do trabalho. Os acontecimentos preditos só decorridos muitos anos teriam de verificar-se, tanto que neste momento ainda não se deram. As obras que até agora apareceram foram publicadas sucessivamente e eu fui induzido a elaborá-las, à medida que as novas ideias se desenvolveram. Das que restam por fazer, a mais importante, a que se poderá considerar a cúpula do edifício e que, com efeito, encerra os capítulos mais espinhosos, não poderia ser publicada, sem prejuízo, antes do período dos desastres. Eu, então, um único livro via e não compreendia que esse pudesse cindir-se, enquanto que o Espírito aludia aos que teriam de seguir-se e cuja publicação prematura apresentaria inconvenientes.

“Dispõe-te a esperar, disse o Espírito; não dês ouvidos aos impacientes que procurem empurrar-te para diante.” Os impacientes não faltaram e, se eu os escutara, teria atirado o navio em cheio nos arrecifes. Coisa estranha! ao passo que uns me incitavam a andar mais depressa, outros me acusavam de não ir tão devagar quanto devia. Não dei ouvidos nem a uns, nem a outros, tomando sempre por bússola a marcha das ideias.

De que confiança no futuro não me enchia eu, à proporção que via realizar-se o que fora predito e que comprovava a profundeza e a sabedoria das instruções dos meus protetores invisíveis!

Fonte bibliográfica: Obras Póstumas de Allan Kardec

11 de setembro de 1856 — (Em casa do Sr. Baudin; médium: Srta Baudin)

Depois de haver eu procedido à leitura de alguns capítulos de O Livro dos Espíritos, concernentes às leis morais, o médium espontaneamente escreveu:

“Compreendeste bem o objetivo do teu trabalho. O plano está bem concebido. Estamos satisfeitos contigo. Continua, mas, lembra-te, sobretudo quando a obra se achar concluída, de que te recomendamos que a mandes imprimir e propagar. É de utilidade geral. Estamos satisfeitos e nunca te abandonaremos. Crê em Deus e avante.”

Muitos Espíritos

Fonte bibliográfica: Obras Póstumas de Allan Kardec

As "mesas girantes" num salão parisiense

L’Illustration - Journal Universel (1853)

Cesta de bico do século XIX usada na época em que Denizard Hippolyte León Rivail (Allan Kardec) presenciou pela primeira vez alguns ensaios da escrita mediúnica.

Espécie de mesa em miniatura antiga, com três pés, sendo um deles o suporte para o lápis na escrita mediúnica.

E finalmente, chegou-se à conclusão de que os Espíritos poderiam agir diretamente na mão do médium (como geralmente escrevemos) na escrita mediúnica.

 Ver no site o pesquisador espírita Canuto de Abreu

 Ver no site o Codificador da Doutrina Espírita "Allan Kardec"

Fontes: A Luz na Mente » Revista on line de Artigos Espíritas (O Espiritismo jamais será superado)

Fontes: Associação Espírita Beneficente Dr. Adolfo Bezerra de Menezes

II — AUTORIDADE DA DOUTRINA ESPÍRITA

CONTROLE UNIVERSAL DO ENSINO DOS ESPÍRITOS

1 Se a Doutrina Espírita fosse de concepção puramente humana, não ofereceria por penhor senão as luzes daquele que a houvesse concebido. Ora, ninguém, neste mundo, poderia alimentar fundadamente a pretensão de possuir, com exclusividade, a verdade absoluta.

2 Se os Espíritos que a revelaram se houvessem manifestado a um só homem, nada lhe garantiria a origem, porquanto fora mister acreditar, sob palavra, naquele que dissesse ter recebido deles o ensino. Admitida, de sua parte, sinceridade perfeita, quando muito poderia ele convencer as pessoas de suas relações; conseguiria sectários, mas nunca chegaria a congregar todo o mundo.

3 Quis Deus que a nova revelação chegasse aos homens por mais rápido caminho e mais autêntico. Incumbiu, pois, os Espíritos de levá-la de um polo a outro, manifestando-se por toda a parte, sem conferir a ninguém o privilégio de lhes ouvir a palavra.

4 Um homem pode ser ludibriado, pode enganar-se a si mesmo; já não será assim, quando milhões de criaturas veem e ouvem a mesma coisa. Constitui isso uma garantia para cada um e para todos.

5 Ao demais, pode fazer-se que desapareça um homem; mas não se pode fazer que desapareçam as coletividades; podem queimar-se os livros, mas não se podem queimar os Espíritos. Ora, queimassem-se todos os livros e a fonte da doutrina não deixaria de conservar-se inexaurível, pela razão mesma de não estar na Terra, de surgir em todos os lugares e de poderem todos dessedentar-se nela. Faltem os homens para difundi-la: haverá sempre os Espíritos, cuja atuação a todos atinge e aos quais ninguém pode atingir.

6 São, pois, os próprios Espíritos que fazem a propagação, com o auxílio dos inúmeros médiuns que, também eles, os Espíritos, vão suscitando de todos os lados. Se tivesse havido unicamente um intérprete, por mais favorecido que fosse, o Espiritismo mal seria conhecido. Qualquer que fosse a classe a que pertencesse, tal intérprete houvera sido objeto das prevenções de muita gente e nem todas as nações o teriam aceitado, ao passo que os Espíritos se comunicam em todos os pontos da Terra, a todos os povos, a todas as seitas, a todos os partidos, e todos os aceitam;

7 O Espiritismo não tem nacionalidade e não faz parte de nenhum culto existente; nenhuma classe social o impõe, visto que qualquer pessoa pode receber instruções de seus parentes e amigos de além-túmulo. Cumpre seja assim, para que ele possa conduzir todos os homens à fraternidade. Se não se mantivesse em terreno neutro, alimentaria as dissensões, em vez de apaziguá-las.

8 Nessa universalidade do ensino dos Espíritos reside a força do Espiritismo e, também, a causa de sua tão rápida propagação. Enquanto a palavra de um só homem, mesmo com o concurso da imprensa, levaria séculos para chegar ao conhecimento de todos, milhares de vozes se fazem ouvir simultaneamente em todos os recantos do planeta, proclamando os mesmos princípios e transmitindo-os aos mais ignorantes, como aos mais doutos, a fim de que não haja deserdados. É uma vantagem de que não gozara ainda nenhuma das doutrinas surgidas até hoje.

9 Se o Espiritismo, portanto, é uma verdade, não teme o malquerer dos homens, nem as revoluções morais, nem as subversões físicas do globo, porque nada disso pode atingir os Espíritos.

10 Não é essa, porém, a única vantagem que lhe decorre da sua excepcional posição. Ela lhe faculta inatacável garantia contra todos os cismas que pudessem provir, seja da ambição de alguns, seja das contradições de certos Espíritos.

11 Tais contradições, não há negar, são um escolho; mas que traz consigo o remédio, ao lado do mal.

12 Sabe-se que os Espíritos, em virtude da diferença entre as suas capacidades, longe se acham de estar, individualmente considerados, na posse de toda a verdade; que nem a todos é dado penetrar certos, mistérios; que o saber de cada um deles é proporcional a sua depuração; que os Espíritos vulgares mais não sabem do que muitos homens; que entre eles, como entre estes, há presunçosos e sofômanos, que julgam saber o que ignoram; sistemáticos, que tomam por verdades as suas ideias; enfim, que só os Espíritos da categoria mais elevada, os que já estão completamente desmaterializados, se encontram despidos das ideias e preconceitos terrenos; mas, também é sabido que os Espíritos enganadores não escrupulizam em tomar nomes que lhes não pertencem, para impingirem suas utopias.

13 Daí resulta que, com relação a tudo o que seja fora do âmbito do ensino exclusivamente moral, as revelações que cada um possa receber terão caráter individual, sem cunho de autenticidade; que devem ser consideradas opiniões pessoais de tal ou qual Espírito e que imprudente fora aceitá-las e propagá-las levianamente como verdades absolutas.

14 O primeiro exame é, pois, sem contradita, o da razão, ao qual cumpre se submeta, sem exceção, tudo o que venha dos Espíritos;

15 Toda teoria em manifesta contradição com o bom senso, com uma lógica rigorosa e com os dados positivos já adquiridos, deve ser rejeitada, por mais respeitável que seja o nome que traga como assinatura.

16 Incompleto, porém, ficará esse exame em muitos casos, por efeito da falta de luzes de certas pessoas e das tendências de não poucas a tomar as próprias opiniões como juízes únicos da verdade. Assim sendo, que hão de fazer aqueles que não depositam confiança absoluta em si mesmos? Buscar o parecer da maioria e tomar por guia a opinião desta. De tal modo é que se deve proceder em face do que digam os Espíritos, que são os primeiros a nos fornecer os meios de consegui-lo.

17 A concordância no que ensinem os Espíritos é, pois, a melhor comprovação;

18 importa, no entanto, que ela se dê em determinadas condições. A mais fraca de todas ocorre quando um médium, a sós, interroga muitos Espíritos acerca de um ponto duvidoso. É evidente que, se ele estiver sob o império de uma obsessão, ou lidando com um Espírito mistificador, este lhe pode dizer a mesma coisa sob diferentes nomes. Tampouco garantia alguma suficiente haverá na conformidade que apresente o que se possa obter por diversos médiuns, num mesmo centro, porque podem estar todos sob a mesma influência.

19 Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares.

20 Vê-se bem que não se trata aqui das comunicações referentes a interesses secundários, mas do que respeita aos princípios mesmos da doutrina. Prova a experiência que, quando um princípio novo tem de ser enunciado, isso se dá espontaneamente em diversos pontos ao mesmo tempo e de modo idêntico, senão quanto à forma, quanto ao fundo.

21 Se, portanto, aprouver a um Espírito formular um sistema excêntrico, baseado unicamente nas suas ideias e com exclusão da verdade, pode ter-se a certeza de que tal sistema conservar-se-á circunscrito e cairá, diante das instruções dadas de todas as partes, conforme os múltiplos exemplos que já se conhecem.

22 Foi essa unanimidade que pôs por terra todos os sistemas parciais que surgiram na origem do Espiritismo, quando cada um explicava à sua maneira os fenômenos, e antes que se conhecessem as leis que regem as relações entre o mundo visível e o mundo invisível.

23 Essa a base em que nos apoiamos, quando formulamos um princípio da doutrina. Não é porque esteja de acordo com as nossas ideias que o temos por verdadeiro. Não nos arvoramos, absolutamente, em árbitro supremo da verdade e a ninguém dizemos: “Crede em tal coisa, porque somos nós que vo-lo dizemos”. A nossa opinião não passa, aos nossos próprios olhos, de uma opinião pessoal, que pode ser verdadeira ou falsa, visto não nos considerarmos mais infalível do que qualquer outro. Também não é porque um princípio nos foi ensinado que, para nós, ele exprime a verdade, mas porque recebeu a sanção da concordância.

24 Na posição em que nos encontramos, a receber comunicações de perto de mil centros espíritas sérios, disseminados pelos mais diversos pontos da Terra, achamo-nos em condições de observar sobre que princípio se estabelece a concordância. Essa observação é que nos tem guiado até hoje e a que nos guiará em novos campos que o Espiritismo terá de explorar.

25 Porque, estudando atentamente as comunicações vindas tanto da França como do estrangeiro, reconhecemos, pela natureza toda especial das revelações, que ele tende a entrar por um novo caminho e que lhe chegou o momento de dar um passo para diante. Essas revelações, feitas muitas vezes com palavras veladas, hão frequentemente passado despercebidas a muitos dos que as obtiveram. Outros julgaram-se os únicos a possuí-las.

26 Tomadas insuladamente, elas, para nós, nenhum valor teriam; somente a coincidência lhes imprime gravidade. Depois, chegado o momento de serem entregues à publicidade, cada um se lembrará de haver obtido instruções no mesmo sentido. Esse movimento geral, que observamos e estudamos, com a assistência dos nossos guias espirituais, é que nos auxilia a julgar da oportunidade de fazermos ou não alguma coisa.

27 Essa verificação universal constitui uma garantia para a unidade futura do Espiritismo e anulará todas as teorias contraditórias. Aí é que, no porvir, se encontrará o critério da verdade.

28 O que deu lugar ao êxito da doutrina exposta em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns foi que em toda a parte todos receberam diretamente dos Espíritos a confirmação do que esses livros contêm. Se de todos os lados tivessem vindo os Espíritos contradize-la, já de há muito haveriam aquelas obras experimentado a sorte de todas as concepções fantásticas. Nem mesmo o apoio da imprensa as salvaria do naufrágio, ao passo que, privadas como se viram desse apoio, não deixaram elas de abrir caminho e de avançar celeremente. É que tiveram o dos Espíritos, cuja boa vontade não só compensou, como também sobrepujou o malquerer dos homens. Assim sucederá a todas as ideias que, emanando quer dos Espíritos, quer dos homens, não possam suportar a prova desse confronto, cuja força a ninguém é lícito contestar.

29 Suponhamos praza a alguns Espíritos ditar, sob qualquer título, um livro em sentido contrário; suponhamos mesmo que, com intenção hostil, objetivando desacreditar a doutrina, a malevolência suscitasse comunicações apócrifas; que influência poderiam exercer tais escritos, desde que de todos os lados os desmentissem os Espíritos? É com a adesão destes que se deve garantir aquele que queira lançar, em seu nome, um sistema qualquer. Do sistema de um só ao de todos, medeia a distância que vai da unidade ao infinito.

30 Que poderão conseguir os argumentos dos detratores, sobre a opinião das massas, quando milhões de vozes amigas, provindas do Espaço, se façam ouvir em todos os recantos do Universo e no seio das famílias, a infirmá-los? A esse respeito já não foi a teoria confirmada pela experiência? Que é feito das inúmeras publicações que traziam a pretensão de arrasar o Espiritismo? Qual a que, sequer, lhe retardou a marcha? Até agora, não se considera a questão desse ponto de vista, sem contestação um dos mais graves. Cada um contou consigo, sem contar com os Espíritos.

31 O princípio da concordância é também uma garantia contra as alterações que poderiam sujeitar o Espiritismo às seitas que se propusessem apoderar-se dele em proveito próprio e acomodá-lo à vontade.

32 Quem quer que tentasse desviá-lo do seu providencial objetivo, malsucedido se veria, pela razão muito simples de que os Espíritos, em virtude da universalidade de seus ensinos, farão cair por terra qualquer modificação que se divorcie da verdade.

33 De tudo isso ressalta uma verdade capital: a de que aquele que quisesse opor-se a corrente de ideias estabelecida e sancionada poderia, é certo, causar uma pequena perturbação local e momentânea; nunca, porém, dominar o conjunto, mesmo no presente, nem, ainda menos, no futuro.

34 Também ressalta que as instruções dadas pelos Espíritos sobre os pontos ainda não elucidados da Doutrina não constituirão lei, enquanto essas instruções permanecerem insuladas; que elas não devem, por conseguinte, ser aceitas senão sob todas as reservas e a título de esclarecimento.

35 Daí a necessidade da maior prudência em dar-lhes publicidade; e, caso se julgue conveniente publicá-las, importa não as apresentar senão como opiniões individuais, mais ou menos prováveis, porém, carecendo sempre de confirmação. Essa confirmação é que se precisa aguardar, antes de apresentar um princípio como verdade absoluta, a menos se queira ser acusado de leviandade ou de credulidade irrefletida.

36 Com extrema sabedoria procedem os Espíritos superiores em suas revelações. Não atacam as grandes questões da Doutrina senão gradualmente, à medida que a inteligência se mostra apta a compreender verdade de ordem mais elevada e quando as circunstâncias se revelam propícias à emissão de uma ideia nova. Por isso é que logo de princípio não disseram tudo, e tudo ainda hoje não disseram, jamais cedendo à impaciência dos muito afoitos, que querem os frutos antes de estarem maduros.

37 Fora, pois, supérfluo pretender adiantar-se ao tempo que a Providência assinou para cada coisa, porque, então, os Espíritos verdadeiramente sérios negariam o seu concurso. Os Espíritos levianos, pouco se preocupando com a verdade, a tudo respondem; daí vem que, sobre todas as questões prematuras, há sempre respostas contraditórias.

38 Os princípios acima não resultam de uma teoria pessoal: são consequência forçada das condições em que os Espíritos se manifestam. É evidente que, se um Espírito diz uma coisa de um lado, enquanto milhões de outros dizem o contrário algures, a presunção de verdade não pode estar com aquele que é o único ou quase o único de tal parecer. Ora, pretender alguém ter razão contra todos seria tão ilógico da parte dos Espíritos, quanto da parte dos homens.

39 Os Espíritos verdadeiramente ponderados, se não se sentem suficientemente esclarecidos sobre uma questão, nunca a resolvem de modo absoluto; declaram que apenas a tratam do seu ponto de vista e aconselham que se aguarde a confirmação.

40 Por grande, bela e justa que seja uma ideia, impossível é que desde o primeiro momento congregue todas as opiniões. Os conflitos que daí decorrem são consequência inevitável do movimento que se opera; eles são mesmo necessários para maior realce da verdade e convém se produzam desde logo, para que as ideias falsas prontamente sejam postas de lado.

41 Os espíritas que a esse respeito alimentassem qualquer temor podem ficar perfeitamente tranquilos: todas as pretensões insuladas cairão, pela força mesma das coisas diante do enorme e poderoso critério da concordância universal.

42 Não será à opinião de um homem que se aliarão os outros, mas à voz unânime dos Espíritos; não será um homem, nem nós, nem qualquer outro que fundará a ortodoxia espírita; tampouco será um Espírito que se venha impor a quem quer que seja: será a universalidade dos Espíritos que se comunicam em toda a Terra, por ordem de Deus. Esse o caráter essencial da Doutrina Espírita; essa a sua força, a sua autoridade. Quis Deus que a sua lei assentasse em base inamovível e por isso não lhe deu por fundamento a cabeça frágil de um só.

43 Diante de tão poderoso areópago, onde não se conhecem corrilhos, nem rivalidades ciosas, nem seitas, nem nações, é que virão quebrar-se todas as oposições, todas as ambições, todas as pretensões à supremacia individual; é que nos quebraríamos nós mesmos, se quiséssemos substituir os seus decretos soberanos pelas nossas próprias ideias. Só Ele decidirá todas as questões litigiosas, imporá silêncio às dissidências e dará razão a quem a tenha. Diante desse imponente acordo de todas as vozes do Céu, que pode a opinião de um homem ou de um Espírito? menos do que a gota d’água que se perde no oceano, menos do que a voz da criança que a tempestade abafa.

44 A opinião universal, eis o juiz supremo, o que se pronuncia em última instância. Formam-na todas as opiniões individuais. Se uma destas é verdadeira, apenas tem na balança o seu peso relativo. Se é falsa, não pode prevalecer sobre todas as demais. Nesse imenso concurso, as individualidades se apagam, o que constitui novo insucesso para o orgulho humano.

45 Já se desenha o harmonioso conjunto. Este século não passará sem que ele resplandeça em todo o seu brilho, de modo a dissipar todas as incertezas, porquanto daqui até lá potentes vozes terão recebido a missão de se fazerem ouvir, para congregar os homens sob a mesma bandeira, uma vez que o campo se ache suficientemente lavrado. 46 Enquanto isso se não dá, aquele que flutue entre dois sistemas opostos pode observar em que sentido se forma a opinião geral; essa será a indicação certa do sentido em que se pronuncia a maioria dos Espíritos, nos diversos pontos em que se comunicam, e um sinal não menos certo de qual dos dois sistemas prevalecerá.

Fonte bibliográfica: Allan Kardec - O Evangelho Segundo O Espiritismo

 

RELAÇÃO DE OBRAS PARA DOWNLOAD

 

O Espiritismo De Kardec Aos Dias De Hoje - Filme Completo  (Documentário Produzido pela Federação Espírita do Brasil)  

 

Allan Kardec - O Livro dos Espíritos (FEB)

 

Obras Póstumas de Allan Kardec (FEB)

 

Allan Kardec - O Evangelho Segundo O Espiritismo (FEB)

 

Canuto de Abreu - O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária